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Com "The Turin Horse", veterano diretor húngaro defende radicalismo estético na Berlinale

O diretor Béla Tarr participa da Berlinale com ""The Turin Horse"", em competição (15/02/2011) - Getty Images
O diretor Béla Tarr participa da Berlinale com ''The Turin Horse'', em competição (15/02/2011) Imagem: Getty Images

ALESSANDRO GIANNINI

Enviado especial a Berlim

15/02/2011 16h37

Com reputação de ser uma pessoa difícil que faz filmes difíceis, o húngaro Béla Tarr é um dos poucos veteranos que tiveram seus filmes selecionados para a mostra competitiva do Festival de Berlim. Inspirado no episódio em que Friedrich Nietzsche foi atropelado por um cavalo, "The Turin Horse" acompanha o dia-a-dia de um cocheiro, sua filha e a égua da qual os dois dependem em uma casa no árido interior da Hungria. São seis dias ao longo dos quais uma tempestade de vento e areia varre a região, impede o cocheiro de trabalhar e praticamente seca todas os recursos para mantê-los vivos. É o prenúncio de uma tragédia, vivida como se cada minuto do dia estivesse impresso nas imagens, pontuadas por uma melodia harmoniosa e repetitiva. É de um rigor estético incomum, ao qual as grandes plateias não estão mais acostumadas. E justamente por isso deve sair da Berlinale com algum prêmio.

Tarr, cuja fama de difícil se confirmou na entrevista coletiva da tarde desta terça (15), deu sinais de que este seria seu último filme. Algo que ele parece não querer confirmar nem negar. "Com este filme eu completaria um ciclo", disse ele. "Claro que podemos nos repetir, não seria uma ideia ruim. Mas se repetir sem energia e vitalidade para encontrar coisas novas nessa repetição talvez não seja nada bom."

János Derzsi e Erika Bók, respectivamente o cocheiro e sua filha no filme, repetem ao longo dos seis dias em que a ação transcorre - duas horas e vinte de projeção - uma rotina trabalhosa e modorrenta para mostrar a que tipo de sacrificios os personagens se submetem para sobreviver. Derzsi contou que Tarr é econômico em suas indicações e muito objetivo. "Ele diz o que quer e deixa o resto comigo", disse o ator. "Fala: seja enérgico, seja forte. Não diz coisas como: 'Ande dez metros para cá, depois se vire e vá dez metros para lá'. Você tem que estar presente na cena." Bók, que foi descoberta pelo cineasta em um orfanato e só trabalhou em seus filmes, sucumbiu à timidez e preferiu não falar nada.


Avesso a explicações e interpretações de seus filmes, Tarr explicou que a ideia de "The Turin Horse" surgiu nos anos 1980, quando leu sobre o acidente de Nietzsche em Turim. "Fazia tempo que cultivava essa ideia", contou ele. "Até que encontramos uma casa de campo que parecia ideal para isso. Começamos a desenvolver esse projeto, com a ideia do cocheiro, sua filha e a visita de um estrangeiro. Mas depois abandonamos isso também e passamos a planejar o filme que vocês viram." Para o cineasta, a chave do filme está na relação do pai e da filha com o animal que os ajuda a subsistir: "O mundo deles acaba sem o cavalo".