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Com "Xingu", que abre nesta quinta (3) o Amazonas Film Festival, Cao Hamburger quer buscar polêmica

Caio Blat, Felipe Camargo e João Miguel em cena de "Xingu", de Cao Hamburger - Divulgação/ Beatriz Lefevre
Caio Blat, Felipe Camargo e João Miguel em cena de "Xingu", de Cao Hamburger Imagem: Divulgação/ Beatriz Lefevre

ALESSANDRO GIANNINI

Editor de UOL Entretenimento

03/11/2011 07h00

“Xingu” abre nesta quinta (3) o Amazonas Film Festival. Com estreia prevista para abril de 2012, o longa será exibido no Teatro Amazonas
na primeira noite do evento, dia 3, às 19h30 (21h30, no horário de Brasília), e contará com a presença do diretor, dos produtores Fernando Meirelles e Andrea Barata Ribeiro, além de alguns atores do elenco principal já confirmados, como Felipe Camargo e João Miguel.

Interpretados respectivamente por João Miguel, Camargo e Caio Blat, os irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas foram pioneiros no desbravamento do Brasil Central e no estudo das tribos indígenas que habitavam essa região do país. Inspirado na história e na trajetória desses três personagens, o filme conta como eles descobriram culturas indígenas preservadas e outras em perigo, além de idealizar o projeto de uma reserva que abraçasse e preservasse esses povos.

Em outubro de 2010, Cao Hamburger e sua equipe estavam a três dias de terminar as filmagens de "Xingu". De volta a São Paulo depois de quase dez semanas na região do Alto Xingu, o diretor rodava algumas cenas urbanas no Instituto Butantã, zona Oeste da capittal paulista. Do elenco central, apenas o ator Felipe Camargo, que faz o personagem de Orlando Villas Bôas no filme, estava na locação.

Sob uma chuva fina, Hamburger recebeu a reportagem do UOL na tenda reservada à direção para falar sobre as filmagens, a sua abordagem da história dos irmãos e a expectativa de que o filme levante questões sobre as formas de preservar culturas indígenas, um assunto que considera de extrema importância no ano do cinquentenário do Parque do Xingu.


UOL - A que ponto estão da produção de "Xingu"?
Cao Hamburger -
Estamos no fim de uma jornada muito intensa. Filmamos por volta de umas dez semanas, sem falar de pré-produção. Estivemos em lugares muito bonitos, mas também de muito difícil acesso e sem estrutura. Vivemos um pouco - guardadas as devidas proporções - o que os irmãos Villas-Bôas viveram. Diria que nem um porcento, mas sentimos um pouco o gosto, o sabor e a atmosfera que eles viveram. Eu espero que isso esteja impresso no filme, porque acho que, de certa forma, isso nos inspirou. Chegamos em SP há três dias, temos mais três dias pela frente. Estamos muito cansados, mas muito felizes também. Estamos com muita esperança de que tudo isso vá resultar em um filme interessante e verdadeiro.

UOL - Vocês filmaram tudo o que havia planejado inicialmente?
Cao Hamburger -
Fizemos algumas adaptações. Por mais de uma vez, chegamos na locação escolhida e não pudemos filmar porque ou estava tudo queimado - porque fimamos na época da seca - ou o rio tinha subido ou não chegamos por causa do carro. Tivemos que filmar com muito jogo de cintura e muito abertos para repensar o que estava programado. E isso às vezes traz coisas boas. Não me incomodo muito, até acho interessante. Teve também uma grande surpresa que foi o trabalho com os atores indígenas, que também nos fez repensar e criar cenas novas. Neste filme, isso aconteceu bastante.

UOL - Fazer um filme sobra a vida de alguém, ainda mais três irmãos, é muito diferente de colocar uma ficção na tela, certo?
Cao Hamburger -
É uma responsabilidade muito grande. A maneira como eu resolvi tratar essa questão foi de logo estabelecer uma relação muito boa com a família. E ao mesmo tempo estabelecer também uma relação de total liberdade. Temos total liberdade de contar [essa história] do jeito que quisermos. Por outro lado, eu me dei a liberdade de achar dentro da incrível história desses caras o que mais me interessava. A vida deles é tão rica que um filme não daria conta. Talvez fosse necessário uma série ou uma macrossérie. Pra você ter uma ideia, fizemos uma pesquisa que resultou em quatro listas telefonicas. Fizemos um recorte pessoal, meu e da Elena [Soares], que escreveu [o roteiro], e das pessoas envolvidas. Não pretendo que seja um filme que dê conta de toda a vida e obra deles, o que realmente seria difícil. Mas dá conta de um ponto de vista deles como personagens, mas mais sobre o trabalho e o universo em que trabalharam, que é esse choque entre a civilização branca e os indígenas.

TEASER DO FILME "XINGU"


UOL - Qual seria esse recorte?
Cao Hamburger -
É como esses três caras se colocaram no meio de uma guerra que começou em 1500 e como eles se doaram para esse embate. E de como sofreram por isso - tentando apaziguar todos os envolvidos. É uma história de muita aventura, mas muito dramática. E de como essas coisas não ficam impunes na vida de uma pessoa. É o lado pessoal desse arco maior, muito mais político e filosófico. Nesse sentido, tem a ver com "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", que é uma história pessoal [minha] dentro de um contexto político.

UOL - Fora o elenco central, que traz atores profissionais e muitas participações especiais, houve o trabalho com os índios. Como foi?
Cao Hamburger -
A gente teve de elenco de apoio uns 20 perssonagens e, de figuração, mais de 200 índios. Foi uma experiência muito legal trabalhar com eles. Fizemos uma seleção e uma oficina. Foi um trabalho bem longo de uns quatro ou cinco meses. E o resultado foi incrível. Eles têm uma disposição para esse jogo da interpretação e um interesse em contar a história do Parque do Xingu e dos índios brasileiros em geral incrível. Eles levaram a sério, foram muito concentrados. Trabalhamos com muitos [índios] que são do próprio Xingu. Alguns conheceram os irmão Villas-Bôas e viveram a história da criação do parque. Outros são descendentes, então, ouviram falar. Incorporamos muitas dessas histórias que eles nos contaram. Isso já na pesquisa. Nesta fase, a gente conversou com mais índios do que brancos.

UOL - Há uma grande diversidade de tribos e etnias por lá. Você trabalhou com todos?
Cao Hamburger -
Eles são em 16 etnias e falam mais de vinte línguas. São os Aweti, Kalapalo, Kamaiurá, Kuikuro, Matipu, Mehinako, Nahukuá, Naruvotu, Trumai,  Wauja e Yawalapiti. Estes sempre moraram lá e tem uma cultura enorme. Tem outras etnias que foram levadas pra lá. Os Kaiabi (sul do Pará) foram levados para lá porque estavam correndo perigo de extinção. Foi uma das grandes obras dos irmãos Villas-Bôas. A gente mostra essas duas situações: dois tipos de civilização que moram dentro do parque, uma que conseguiu preservar mais a sua cultura e outra que, desde que o parque existe, está tentando reorganizar sua cultura. Tem dois personagens Kaiabis fortes no filme, que contam a história de como eles foram levados para lá. Houve cenas emocionantes. Lembro de uma em que a atriz chorou muito depois de fazer uma cena porque ela lembrou das histórias que o pai e o avô contavam.

MAKING OF DO FILME "XINGU"


UOL - A vida dos irmãos Villas Bôas foi polêmica. O que você espera como reação ao filme?
Cao Hamburger -
Acho que vai ser um filme polêmico, no sentido das políticas indígenas. Tem muitas vertentes de pensamento, e elas mudam sempre. É essa coisa do desenvolvimento versus a preservação. Eu espero que seja [polêmico]. Acho importante a discussão em cima de fatos. Se o filme conseguir trazer a história desses caras para uma discussão do futuro e do presente seria muito legal. Apesar de ser um filme de época, é muito contemporâneo. Uma das coisas que me encantaram nessa história foi essa possibilidade de discutir coisas contemporâneas contando uma história do século passado.

UOL - Como foi a preparação do Felipe Camargo, do Caio Blat e do João Miguel?
Cao Hamburger -
Mostrei muita coisa da pesquisa quando eles chegaram. Contei histórias, mostrei filmes. Isso bem no começo. Depois pedi para esquecerem tudo. oessa história de tentar fazer personagens que existiram é uma furada, porque não vai acontecer. Não tenho nenhuma pretensão de que as pessoas acreditem que aquelas pessoas tenham sido assim. Isso eu até conversei com a família, para entenderem que são personagens de uma história romanceada, uma ficção, na verdade, livremente baseadas em fatos reais. Então, tomamos muita liberdades. Não só de datas e eventos, misturando eventos, misturando personagens, juntando personagens. Porque senão não forma um filme. Até inventando coisas, que fazem sentido para os nossos personagens e possivelmente não fariam sentido para eles. A gente não quis fazer um filme biográfico. dá uma liberdade pra gente e cria uma defesa para os personagens reais, para não ficarmos julgando eles. Uma biografia tem a possibilidade de chegar perto do personagem. Mas um filme nunca vai chegar a isso.