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"É um dos maiores erros atuais", diz Fernando Meirelles sobre a construção de Belo Monte

NATALIA ENGLER

Enviada especial a Manaus*

04/11/2011 15h24

As implicações políticas das questões levantadas por ”Xingu” foram o tema dominante da entrevista coletiva realizada com a equipe do filme, na manhã desta sexta-feira (4), no Amazonas Film Festival.

O diretor Cao Hamburger, os produtores Fernando Meirelles e Andrea Barata Ribeiro e os atores Felipe Camargo e João Miguel participaram da conversa com jornalistas e convidados sobre o longa de Hamburger, apresentado na abertura do festival, na noite anterior, que narra a história dos irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas.

“Além de resgatar a grande história dos Villas-Bôas, o que mais nos motivou foi a atualidade e a importância que o filme pode vir a ter neste momento no Brasil, em que a gente está escolhendo que tipo de progresso queremos para o nosso país”, afirmou Cao.

Meirelles também reforçou este papel do filme. “O que eu acho que vale ressaltar do filme é como ele é atual. Vindo para cá, eu li no jornal que o Megaron Txucarramãe, que era coordenador da Funai no norte do Mato Grosso, tinha sido demitido porque tem uma posição contrária a Belo Monte. É a historia do filme, da Transamazônica, se repetindo. O filme não poderia ser mais atual, nesse ano em que Belo Monte e o Código Florestal são assuntos muito fortes”.

Meirelles tem grande envolvimento em questões de desenvolvimento sustentável e preservação e lançou recentemente a campanha #florestafazadiferença, em que pediu a amigos que gravassem vídeos sobre o novo Código Florestal Brasileiro.

“Eu tenho uma especial  atenção e interesse em como o Brasil vai usar nossos recursos, nossa biodiversidade, as florestas. O que sai sobre isso, eu leio. Então, o interesse pelo filme parte desse interesse pelo tema. E era uma ótima história”, disse Meirelles.

O cineasta contou que “Xingu” nasceu da insistência de Noel Villas-Bôas, filho de Orlando, em ver narrada a história de seu pai e tios. Noel visitou algumas vezes Meirelles em sua produtora, a O2, até que o cineasta se deu conta de que havia uma história a ser contada.

Belo Monte
A construção da usina hidrelétrica de Belo Monte foi um dos assuntos mais abordados pelos jornalistas presentes na coletiva. Questionado sobre sua posição em relação ao projeto, o diretor Cao Hamburger disse acreditar que a usina vai afetar os povos indígenas que vivem no Parque do Xingu.

“É uma questão polêmica. Há quem diga que sim e que não, porque [a futura usina] é muito longe. Mas há outras terras indígenas que foram criadas depois e, se o Parque do Xingu não for afetado – na minha opinião, vai – outras terras com certeza vão. E os índios todos não aceitam a ideia de que o rio seja tão modificado sem que afete a vida deles”.

O próximo projeto de Cao também terá relação com a questão indígena. O diretor está trabalhando no roteiro do longa de ficção “Isolados”, ao lado da documentarista Maíra Buehler, sobre grupos indígenas que permanecem em isolamento ainda nos dias de hoje.

Já Meirelles disse que considera Belo Monte “um erro”. “Eu, pessoalmente, acho que Belo Monte é um dos maiores erros atuais. A gente está construindo usinas basicamente para poder aumentar a produção de alumínio. Vai comprometer toda aquela área pra produzir mais alumínio. É esse o progresso que queremos? E esse é um dos questionamentos que o filme levanta”, afirmou o cineasta.

O contato com a história dos irmãos Villas-Bôas e com a questão indígena também parece ter tocado o elenco.

“Os irmãos entraram no coração do Brasil e descobriram que os verdadeiros protagonista são os índios. Mais do que um olhar absoluto, o filme levanta questões, escolhendo um olhar. Entender quem foram os donos dessas terras, e que eles foram dizimados brutalmente, nos diz respeito. É um dos personagens mais lindos que eu recebi”, afirmou o ator João Miguel, que interpreta Cláudio Villas-Bôas.

A equipe contou que algumas das dificuldades enfrentadas pela produção do filme durante as dez semanas em que filmaram na região do Alto Xingu também estão relacionadas ao descuido com a riqueza natural da região. Andrea Barata Ribeiro contou que Meirelles foi convocado até a ajudar a apagar incêndios, quando as queimadas, comuns durante a época da seca, se aproximavam demais do set.

“Não teve um dia que a gente filmou que não tivesse uma queimada. Aconteceu de não conseguirmos filmar por causa da fumaça. E é uma coisa que acontece todos os anos”, contou Felipe Camargo, intérprete de Orlando Villas-Bôas.

 Meirelles fez questão de ressaltar que esses incêndios não são acidentais. “São feitos pelos próprios fazendeiros, que colocam fogo para limpar o pasto”, disse.

“Xingu”, que teve orçamento de 15 milhões de reais e foi finalizado apenas uma semana antes de sua exibição no festival, tem estreia prevista para abril de 2012 e também vai virar uma microssérie em quatro capítulos, exibida pela Globo cerca de seis meses depois da estreia nos cinemas.

* A jornalista viajou a convite da organização do festival.