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Colegas de elenco em "Roubo nas Alturas", Téa Leoni e Alan Alda falam sobre vingança e o movimento Occupy Wall Street

Alan Alda (centro) e Téa Leoni em cena de "Roubo nas Alturas", de Brett Ratner - Divulgação
Alan Alda (centro) e Téa Leoni em cena de "Roubo nas Alturas", de Brett Ratner Imagem: Divulgação

EDUARDO GRAÇA

Colaboração para o UOL, de Nova York

17/12/2011 10h00

Em “Roubo nas Alturas”, Alan Alda, 75 anos, vive o grande vilão da história. Para Eddie Murphy, a escalação de Alda deu sentido ao filme: “Era preciso encontrar um vilão com quem você, ao menos em um primeiro momento, simpatizasse. E quem, em sã consciência, não admira, não gosta do Alan?”, provoca o comediante. O Arthur Shaw de Alda é uma figura que, infelizmente, se tornou corriqueira nas páginas de economia e de polícia dos jornais nova-iorquinos: o figurão de Wall Street que vai parar atrás das grades por falcatruas praticadas anos a fio em um mercado financeiro praticamente sem regulamentação pública.


Do outro lado da luta contra o crime está a excêntrica agente do FBI, Claire Denham, vivida por Téa Leoni. Aos 45 anos, ela esbanja sex-appeal e faz um quase-par romântico divertidíssimo com o personagem de Ben Stiller. Os dois atores conversaram com o UOL sobre “Roubo nas Alturas” e outras estripulias.

 

 


UOL - Como vocês foram parar em “Roubo nas Alturas”?
Téa Leoni -
Certamente há uma maneira mais inteligente de se escolher um projeto, mas, no meu caso, neste ponto da minha vida, eu olho todos os projetos, penso em qual eu vou me divertir mais e aceito. É isso, não vou mentir! A oportunidade de trabalhar de novo com Ben e Alan era impossível de recusar. E eu fui dirigida pelo Bret em “Um Homem de Família”, há onze anos, quando ele era um pirralho. Estava curiosa para ver o que tinha acontecido com ele! E ele tem um entusiasmo, é aquele cara que consegue vender gelo para um esquimó. E, claro, eu pegava o metrô para vir ao set, já que vivo em Nova York, o que é...
Alan Alda [fazendo uma voz de sabichão] - tão conveniente, né gente?
Leoni [ligeiramente irritada] - Ah, sabem o que é isso? É que o Alan mora exatamente dez blocos do local em que filmamos a maioria das cenas e ele podia ir a pé. Eu tinha de pegar o metrô 6, mas eram somente duas estações. E dirigir estava fora de questão, já que o trânsito em Manhattan é um inferno...
Alda - Bem, eu ia andando...
Leoni - Eles já sabem, Alan! É que você morava do lado, mas que competição mais jeca esta nossa, não? [rindo muito] Agora você quer, por favor, dizer como acabou parando em “Roubo nas Alturas’?
Alda - Apesar do fato de você já ter aceitado fazer parte do elenco [rindo mais]?
Leoni - É!
Alda - Foi essencialmente o elenco, Eddie, Ben, a história e o fato de que poderia tomar uma garrafa de vinho entre uma e outra filmagem, já que moro praticamente ao lado do set... [rindo muito]

Sabe que eu adoro um bom processo? Na Justiça, destes que demoram e tal?

Alan Alda


UOL - “Roubo nas Alturas” gira em torno de uma grande vingança. Quando foi a última vez que vocês deram o troco em alguém?
Alda -
Sabe que eu adoro um bom processo? Na Justiça, destes que demoram e tal? Há este mito de que eu sou um cara muito legal e certos aproveitadores acreditam que podem passar a perna em mim, ganhar uma graninha às minhas custas. Comigo não!
Leoni - Ah! Lembra daquela vez que tentaram te roubar descaradamente? Conta para ele!
Alda - Aquilo foi horrível, e estou me dando conta de que na ocasião não tive nem como processar ninguém, não teve a tal da vingança. Eu estava nos últimos anos das gravações de “M*A*S*H” e um contador começou a me dizer que tinha de me proteger contra os impostos e confiei nele. Um belo dia, recebi um telefonema de um repórter me perguntando como eu me sentia sendo uma das milhares de vítimas do tal espertalhão. Ele desapareceu com milhares de dólares e nunca mais se viu a cor desse dinheiro.
Leoni - Certamente não foi todo trocado por ouro e colocado num carro estacionado no alto da torre de um apart-hotel, como no filme!
Alda - Acho que não, mas o fato é que eu sei bem, na pele, o drama pelo qual os personagens do filme passaram!
Leoni - Eu não sou uma pessoa vingativa. Honestamente, eu não consigo nem pensar em ficar tão furiosa com alguém. Talvez seja vingança botar meus filhos de castigo...
Alda - Tá vendo? Eu me lembro que aquelas surras todas que você dava nos meninos acabam sempre saindo no jornal! [rindo muito]
Leoni - Sério, era aquela coisa: “Ah, é? Então não tem filme hoje!”. Mas depois eu perceberia que o filme, na verdade, era para mim. Coisas como “uma semana sem televisão” são um erro medonho! Porque você está se punindo!

TRAILER DE "ROUBO NAS ALTURAS"


UOL - Vocês tiveram a curiosidade de pegar o metrô ou andar alguns blocos [risos] até Wall Street para observar os manifestantes do Occupy Wall Street?
Leoni -
Alguns amigos de Los Angeles estão aqui me visitando e vamos amanhã. Quero muito ver antes do filme ser lançado aqui nos Estados Unidos. Não é que eu tenha alguma ilusão sobre o impacto do filme em relação ao movimento, mas estou curiosa. É bom quando seu filme é lançado em um momento espetacularmente perfeito, sabe? É quase como se você, de alguma maneira, fizesse também parte daquele movimento. Eu simpatizo muito com eles.
Alda - É quase como se a gente dissesse, “é uma sorte” ter um terremoto em São Francisco justamente quando vamos lançar nosso filme que gira em torno de catástrofes naturais...
Leoni - Não é isso! É que há algo sobre a ideia de que você está emprestando sua voz a algo maior. “Roubo nas Alturas” é uma comédia, um Robin Hood com final feliz. Aqui temos até um final feliz!
Alda - E muito provavelmente este final feliz vai demorar muito mais tempo para acontecer na vida real, então, neste sentido, o momento do lançamento do filme é sim providencial.

Não é que eu tenha alguma ilusão sobre o impacto do filme em relação ao movimento [Occupy Wall Street], mas estou curiosa. É bom quando seu filme é lançado em um momento espetacularmente perfeito, sabe?

Téa Leoni


UOL - E, Alan, você conseguiu sentir alguma simpatia por seu personagem?
Alda -
Um ator, eu acho, precisa mesmo, sempre, encontrar algo no personagem que o aproxima dele, que o faça entendê-lo, e geralmente este movimento passa pelo “gostar” dele. Aí você começa pensando que ele não tem sentimentos, que algo aconteceu com ele. Todo mudo quer ganhar mais, sabe? Mas veja, eu não perdi dinheiro em Wall Street, não tenho, nem jamais terei ações...
Leoni - Eu também digo que não perdi nada, porque ainda não as vendi [risos]...

UOL - Mas você acha que, como seu personagem tenta fazer no filme, há alguma possibilidade de estes figurões do colarinho branco serem punidos pelo que fizeram?
Leoni -
Sim, mas não sei quanto tempo teremos que esperar. Estou feliz que haja barulho, que o pessoal do Occupy Wall Street está falando coisas que devemos ouvir com atenção.
Alda - O mais grave é que a maioria das coisas tenebrosas que os analistas, investidores e figurões de Wall Street fizeram eram legais! É esta mania de desregulamentação que nos levou a isso. Vai ser difícil colocar vários deles na cadeia, por exemplo, porque, apesar de cometerem atos imorais, eles não fizeram nada errado, legalmente falando. Mas não vamos aqui transformar esta conversa numa coisa política. Embora, a meu ver, isso não seja nem uma discussão política...
Leoni - Não é! É uma discussão ética! Este é o ponto.
Alda - Exato. E um dos pontos altos da idéia dos EUA é o fato de reconhecermos o direito de crescimento do indivíduo, mas também estabelecemos sinais de trânsito, limites, regras, que evitam com que uma pessoa bata na outra. O que temos agora é o fim das regras, pregada pelos sacerdotes do mercado, que geram uma desigualdade social sem tamanho. Deu no que deu.