Indicada ao Oscar por "Millennium", Rooney Mara diz que ficou ainda mais tímida depois das filmagens

Eduardo Graça
Do UOL, em Nova York

  • Divulgação

    Rooney Mara e Daniel Craig em cena de "Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres", de David Fincher

    Rooney Mara e Daniel Craig em cena de "Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres", de David Fincher

Quando entra na suíte de um luxuoso hotel em Los Angeles para conversar com o UOL, Rooney Mara ainda é Lisbeth Salander. Ou quase. As sobrancelhas ainda estão raspadas, o cabelo segue cortado de modo enviesado, como se sua cabeça fosse decorada com um triângulo de mechas negras compactas, pesadas. Mas a atriz de 26 anos pouco sorri, fala baixo e logo se confessa ligeiramente cansada com a sequência interminável de entrevistas, iniciada no verão americano, no fim de 2011, para divulgar "Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres". No Brasil, a primeira adaptação de Hollywood do best-seller do autor sueco Stieg Larsson (1954-2004) estreia na sexta-feira (27), com a assinatura de David Fincher ("A Rede Social") na direção e a estrela Daniel Craig como o outro protagonista, o jornalista Mikael Blomkvist, que forma uma parceria nada óbvia com Salander para desvendar o mistério em torno do desaparecimento de uma mulher em um vilarejo nórdico.

A herdeira de uma das maiores fortunas do mundo dos negócios esportivos dos Estados Unidos – seu pai é vice-presidente e um dos donos do time de futebol americano New York Giants e sua mãe é a herdeira de outro time famoso, o Pittsburgh Steelers – despontou para o grande público ao ser escalada por Fincher na famosa – e verborrágica – cena inicial de "A Rede Social", como a namorada que dá um passa-fora no arrogante futuro criador do Facebook, vivido por Jesse Eisenberg. Nada comparado à explosão de um dos filmes mais badalados do momento. Indicada como melhor atriz a um Oscar (concorre com Glenn Close, Viola Davis, Meryl Streep e Michelle Williams) e a um Globo de Ouro (ela perdeu para Meryl Streep), Mara segue em alta na balança de apostas para o prêmio da Academia deste ano.

Na tarde desta terça-feira (24), após a indicação ao Oscar, Mara foi questionada pela revista americana The Hollywood Reporter sobre este reconhecimento da Academia. A atriz respondeu que ainda sente a pressão de ser comparada à Naomi Rapace, atriz sueca que fez a primeira versão de Lisbeth Salander e está também em "Sherlock Holmes 2: Jogo de Sombras". "Acho que se a interpretação de [Naomi Rapace] tivesse sido 15 anos atrás, ainda haveria que a pressão porque é uma performance tão icônica e amada por muitas pessoas", disse Mara. "Eu tinha minha própria idéia do que queria que o papel fosse. No final, eu fui capaz de compor a minha própria personagem e acho que [o diretor] David [Fincher] teve muito a ver com isso."

UOL - O que acontece com Lisbeth Salander que gera tanta atenção ao visual da personagem?
Rooney Mara -
Não acho que seja especialmente algo relacionado ao estilo dela. Acho que as pessoas amam a personagem intensamente, então cada detalhe ganha uma dimensão gigantesca. É o que geralmente acontece com personagens icônicos. Acho que todo mundo, em algum momento de sua vida, consegue se relacionar com o sentimento dela de se sentir oprimida pelo sistema, pela sensação de que aquele não é o seu lugar, de que você está sendo subjugada. As pessoas querem que Lisbeth vença seus obstáculos, elas torcem por ela!


UOL - Não deixa de ser interessante ela se tornar esta campeã de popularidade quando, ao mesmo tempo, é um personagem assumidamente anti-social, que chega mesmo a questionar, no livro, se é capaz de viver em sociedade...
Mara -
Sim, mas ela tenta encontrar ajuda no sistema, ela procura quem você normalmente procuraria em uma situação como a dela. Mas nada funciona. Nada. Quando criança, você aprende quem pode te ajudar e passa a acreditar no sistema de alguma maneira. Nenhuma autoridade a ajuda, todos a exploram de alguma maneira. Ela está perdida.

UOL - Como é que você se relacionou com esta mulher? Aonde você foi encontrá-la?
Mara -
Para começo de conversa, e você já deve ter percebido, exatamente como a Lisbeth eu tenho uma certa dificuldade em defini-la (risos), ou, melhor, em articular com exatidão o que ela de fato sente. Ela não sabe como articular os seus sentimentos. Ela não entende seus sentimentos. Ela os ignora. Ela evita este tipo de conversa que você está tendo comigo agora (risos).

UOL - Ela é uma mulher introvertida. Você me parece ser uma pessoa reservada. Você também é introvertida, ou esta conversa está acontecendo deste jeito por conta de você ainda estar fresca do set de filmagem. É culpa de Lisbeth?
Mara -
Não, sempre fui uma pessoa introvertida.

UOL - (risos) E...
Mara -
Sempre fui uma pessoa introvertida (rindo). Mas talvez isto tenha me ajudado a construir a personagem. Talvez tenha ficado ainda mais tímida durante as filmagens, mas sempre fui assim.

UOL - Você disse uma vez que chegou a questionar se a profissão de atriz seria de fato "honrosa". O que você quis dizer com isso?
Mara -
Acho que poderia ser uma escolha de carreira extremamente auto-centrada, egóica, auto-suficiente. Mas talvez eu tenha usado as palavras erradas, há outras carreiras em que os mesmos adjetivos podem ser aplicados. Quando se faz algo de que se gosta muito, este risco está lá. Mas uma vantagem no meu caso, é que nós, atores, podemos sempre fazer outras coisas, relacionadas a outras profissões, a outros universos, com uma certa frequência. Eu queria muito ser atriz, por isso me tornei uma. Não tinha talento para ser médica e de fato ajudar outras pessoas.

TRAILER DE "MILLENNIUM - OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES"


UOL - As cenas em que Lisbeth é violada foram especialmente difíceis para você?
Mara -
Fisicamente, sim. Foram muitos takes [David Fincher é famoso por repetir cenas à exaustão] e o calendário de filmagem era apertado. Mas elas não foram especialmente mais difíceis do que outras cenas aparentemente mais mundanas mas que eram externas, com uma temperatura média, na Suécia, de 15 graus negativos. Não foi fácil, mas por razões diversas.

UOL - Mesmo com todo o frio, foi fundamental, para você, filmar na Suécia?
Mara -
Sim. Definitivamente. A Suécia é uma parte fundamental da história. Para mim, fez diferença estar nos locais sobre os quais o livro falava. E mais: toda a equipe técnica era sueca. Isso fez uma diferença enorme, eles sabiam o que faziam.

UOL - O livro foi publicado antes da crise financeira global, mas o aspecto politico-econômico da narrativa, com a denúncia das grandes corporações e a apresentação de uma Europa decadente são elementos importantes. Você discutiu estes temas com Fincher?
Mara -
Não. Para nós o filme é uma história que gira em torno dos dois personagens centrais. Mas, obviamente, este é um filme sobre segredos. Os segredos do passado político de certas famílias européias. Os muitos, muitos, muitos segredos de Salander. Mas, no fim, não passou pela minha cabeça fazer nenhuma grande denúncia política, não.

UOL - Você estudou política internacional e psicologia. Era um plano B para o caso de a carreira artística estagnar?
Mara -
Não. Mas vivia em Nova York e me recusei a pagar 40 mil dólares na Escola de Atuação. Estudar o comportamento humano, pensei, era muito mais interessante, e seria perfeito para a atuação, seja no palco ou no cinema.

UOL - Você usou mecanismos acadêmicos na construção da Lisbeth?
Mara -
Da psicologia, certamente. Mas isso me aconteceu com todos os personagens que já fiz. O foco foi em entender o comportamento daquela pessoa específica. No trabalho de pesquisa, por exemplo, passei um tempo em uma escola especializada em estudantes com autismo ou síndrome de Asperger, e foi uma experiência sensacional. Foi a coisa mais legal que fiz na vida. Também fui a um centro dedicado a mulheres que haviam sofrido abuso sexual, li muitos livros, vi vários filmes. Mas, olha, tudo, quase tudo, está no livro. Minha Lisbeth já estava lá.

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