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"Precisava de grandes atores", diz diretor que escalou Pitanga e Selton Mello para animação

Cena da animação brasileira "Uma História de Amor e Fúria", de Luiz Bolognesi - Divlgação
Cena da animação brasileira "Uma História de Amor e Fúria", de Luiz Bolognesi Imagem: Divlgação

Natalia Engler

Do UOL, em São Paulo

24/10/2012 05h00

Camila Pitanga, Selton Mello e Rodrigo Santoro são as estrelas, mas você não verá os rostos familiares dos três em “Uma História de Amor e Fúria”. O filme, estreia na direção de longas de ficção do roteirista Luiz Bolognesi (“As Melhores Coisas do Mundo”, “Bicho de Sete Cabeças”), é uma animação – a primeira a participar da competição do Festival do Rio, que agora compete também na Mostra de São Paulo – e os três atores emprestam suas vozes a personagens que percorrem a história do Brasil de 1566 a 2096.

“Eu precisava de grandes atores”, diz Bolognesi, explicando que as animações começam pela gravação das vozes, que depois servem de base para o desenho. “Eu queria que o filme tivesse uma interpretação naturalista, não essa coisa meio caricata que é comum em animação. Mas a grande dificuldade é que o ator está num estúdio, sentado em um banquinho, ele não contracena. Então, eu precisava de atores capazes de, num banquinho, darem o que eu queria. Aí, eu fui para as cabeças. Procurei os atores por quem eu tinha uma admiração muito grande e eles toparam”.

Veja no vídeo abaixo a reação dos três atores depois de ver o filme pela primeira vez, no Festival do Rio 2012.

CAMILA PITANGA, SELTON MELLO E RODRIGO SANTORO FALAM SOBRE "UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA"

Para o diretor, o bom resultado obtido se deve ao talento dos atores, que sugeriram mudanças e contribuíram com o roteiro, mas também à humildade deles. “Todo ano, eu ligava para eles e eles tinham que voltar para o estúdio porque eu mudava uma cena, mudava um diálogo”, conta Bolognesi, que demorou sete anos para concluir seu filme. Uma das mudanças significou regravar toda uma seção do filme, que havia sido interpretada em tupi-guarani (veja no quadro abaixo).

CAMILA PITANGA E SELTON MELLO EM TUPI-GUARANI

AgNews
Na primeira vez que eu chamei o Selton e a Camila, encanei que no primeiro episódio eles iam falar tudo em tupi-guarani. Traduzi todos os diálogos com um professor da USP, os caras estudaram, entramos no estúdio e gravamos tudo em tupi-guarani. Quando comecei a montar as primeiras cenas, percebi que a gente fica lendo a legenda e perde o filme. Então me dei conta de que tinha errado e resolvi fazer em português. Liguei para a Camila e o Selton e disse: ‘Gente, lembra do nosso tupi-guarani? Então, não rolou’. Eles não acreditaram, mas refizeram tudo. Hoje virou folclore. Mas vai estar no DVD. A gente já montou uma ou duas cenas para colocar nos extras. É muito curioso, muito engraçado, o Selton e a Camila falando em tupi-guarani.

Luiz Bolognesi, diretor de "Uma História de Amor e Fúria"

Na produção, Selton vive um guerreiro Tupinambá que recebe a missão de lutar contra Anhangá, o deus da morte, e se torna imortal. Procurando cumprir sua missão, mas também buscando reencontrar sua amada Janaína (Camila Pitanga), ele participa de momentos marcantes da história do Brasil – a Confederação dos Tamoios, a Balaiada, a luta contra a ditadura militar, a criação da Falange Vermelha (que daria origem ao Comando Vermelho) e uma revolta contra a má distribuição da água em um Rio de Janeiro futurista, comandado por milícias.

“É engraçado porque o filme tem algumas coisas que a gente não tem no cinema brasileiro – a animação adulta, o épico, um certo olhar de ficção científica. Mas essas coisas não foram propositais. O que eu queria realmente era visitar a história do Brasil com um olhar diferenciado, com um olhar crítico”, diz o cineasta.

O outro aspecto que ele queria colocar no filme era a mitologia tupi-guarani.  “Eu estudei antropologia muito tempo e tenho um interesse muito grande pela mitologia dos índios brasileiros. Então, assim como no cinema de Hollywood a mitologia greco-romana é a base – se você pegar, por exemplo, “Os Vingadores”, e dissecar, cai na estrutura dos mitos, dos heróis gregos – o que me dava vontade era trabalhar em cima da mitologia tupi-guarani da mesma maneira. É isso que está em primeiro plano. O cara é um índio Tupinambá lutando contra Anhangá – aqui em São Paulo falava-se Anhanguera, que na verdade é um deus demoníaco, um deus da morte, uma entidade da sombra, que se alimenta da dor e do medo, que está ligado a tudo que é ruim. No fundo, o substrato da narrativa é a mitologia tupi-guarani e a levada, o que a gente visita, são os episódios da história do Brasil”.

Além de trazer elementos poucos usuais no cinema brasileiro, Bolognesi também foi na contramão da tendência de fazer animação digital, em 3D, ao optar pelo 2D e pelo desenho a lápis. “Foi uma opção estética. Acho que o desenho de lápis no papel tem uma alma que a outra animação não consegue ter. Eu gosto da outra animação quando ela é Pixar, quando tem uma super-história, que aí toda aquela fragilidade dos bonequinhos vetoriais não é problema, porque a história é tão genial, a linguagem é tão interessante, é tão lúdico o que eles fazem com a dramaturgia, que eu embarco total. Mas quando você tira essa genialidade, para mim fica muito tosco”, diz o cineasta.

VEJA CENA DA ANIMAÇÃO "UMA HISTÓRIA DE AMOR E FÚRIA"

Ele ressalta que o projeto só foi em frente principalmente por conta da dedicação da equipe de animação. “Esse projeto é na verdade totalmente irresponsável. As chances dele ser concluído eram mínimas e só deu certo porque os meninos da animação são ultra talentosos. É um bando de moleques que quando entrou tinha 17, 19, 20 anos. Um grupo de mais ou menos 30 pessoas que não desistiram. Durante o processo, vários chefes de equipe receberam propostas para ganhar mais em outras produções. Eu não tinha como cobrir as ofertas que eles recebiam e os caras não foram embora”.

Bolognesi acredita que, nos sete anos em que trabalhou em “Uma História de Amor e Fúria”, a animação brasileira evoluiu muito. “Agora estamos em um bom momento de desenho animado infantil na TV, estamos ocupando a TV a cabo, estamos exportando. Por causa desse filme, aprendi a admirar muito o povo da animação e eu acho que a animação brasileira vai vir com força”.

O cineasta também espera que o bom momento que o Brasil vive, como anfitrião da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016, ajude a carreira internacional de seu filme. “O olhar que esse filme tem conta um pouco da história do Rio de Janeiro, mas sem uma visão ufanista, de uma maneira bastante crítica. Acho que talvez isso compense o fato da história ser muito brasileira”, conclui.

 


Serviço

"Uma História de Amor e Fúria", de Luiz Bolognesi (Brasil, 2012)

Quando: quarta (24), às 21h
Onde: Sala Cinemateca - Sala BNDES - largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Clementino (sessão 506)

Quando: Sexta (26), às 15h
Onde: Faap - rua Alagoas, 903, Higienópolis (sessão 752)

Quando: Terça (30), às 16h10
Onde: Cine Livraria Cultura 1 - rua Padre João Manuel, 100, Cerqueira César (sessão 1081)