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"Quentin Tarantino está mais para cantor de hip-hop que para diretor", diz Jamie Foxx

Jamie Foxx e Franco Nero dividem uma cena em "Django Livre", de Quentin Tarantino - Divulgação/Sony Pictures
Jamie Foxx e Franco Nero dividem uma cena em "Django Livre", de Quentin Tarantino Imagem: Divulgação/Sony Pictures

Cindy Pearlman*

Do Hollywood Watch, em Chicago, EUA

14/01/2013 05h00

"Os brancos me xingavam quando eu era pequeno", relembra Jamie Foxx, que cresceu no que chama de ambiente "racialmente carregado" de Terrell, no estado norte-americano do Texas. "Eu tive que lidar com isso. E justamente por ter acontecido comigo, consegui entender bem o conteúdo do roteiro de 'Django'."

Ele se refere ao novo filme de Quentin Tarantino, "Django Livre", que estreia no Brasil no dia 18 de janeiro. A história se passa no sul dos Estados Unidos, antes da Guerra de Secessão, e traz Foxx na pele do personagem título, um escravo que ganha a liberdade e se torna caçador de recompensas ao lado de seu mentor, o Dr. King Schultz (Christoph Waltz). Os dois saem numa missão de resgate de sua adorável esposa (Kerry Washington), que está nas mãos de um fazendeiro violento do Mississippi (Leonardo DiCaprio).

O longa é um remake de "Django" (1966), estrelado por Franco Nero --que, por sinal, faz uma pontinha no filme de Tarantino. "O fato de ele ter aprovado foi a cereja do bolo", conta Foxx, por telefone, de sua casa na Califórnia. "Para mim, isso quer dizer que ele sentiu que estávamos sendo fiéis."

Mesmo assim, acha que "Django Livre" vai surpreender muita gente. "Acho que a surpresa agradável para muita gente é o fato de ser um faroeste", afirma ele, "e manter as características do gênero, mesmo lidando com o lance da escravatura. Aliás, a certa altura, ela se torna quase secundária, principalmente depois que ele se torna um caçador de recompensas. Aí a coisa parte para a vingança e o resgate de sua garota".

Foxx e Washington

Sony/Divulgação
"Django Livre" é o primeiro trabalho de Foxx com Kerry Washington desde "Ray" (2004), no qual ela interpreta a mulher de Ray Charles, Della Bea Robinson. Por sua interpretação do cantor, Foxx levou o Oscar de Melhor Ator. "Voltamos a Nova Orleans, onde filmamos 'Ray', para rodar 'Django'", contou a atriz numa entrevista separada. "Brinquei com Jamie dizendo: 'Da última vez, a combinação lhe rendeu um Oscar. Podemos fazer isso de dez em dez anos, vir para Nova Orleans e você ganha uma estatueta'."

Para Foxx, as cenas mais difíceis foram as de violência contra a mulher de Django, Broomhilda. "A pessoa mais corajosa do filme é Kerry Washington", prossegue ele. "Nós todos somos homens. Já é de se esperar coisas ruins e sacanagem contra um cara, mas a cena em que Kerry teve que se chicoteada foi difícil demais para todo mundo. Eu não consegui assistir."

O ator comenta que Tarantino tocou música nos intervalos das filmagens para ajudar o elenco a lidar com esses momentos. "Perguntei se podiam tocar uma música de um cantor gospel chamado Fred Hammond, 'No Weapon'", conta Foxx. "A cena se passava em Shack Row e eles iam chicoteá-la. O Quentin colocou alto-falantes em todo o lugar e, de repente, a melodia começou a tocar."

"Tinha uma senhora de Nova Orleans, era figurante", ele prossegue. "Ela nunca tinha pisado num set antes, mas conhecia a música. De repente, jogou as mãos para o alto e começou a se balançar para frente e para trás com o garoto que tinha que abraçar em cena."

Foxx deu uma olhada para Tarantino e os dois caíram no choro. "Ele ficou muito abalado, com os olhos cheios de lágrimas", conta. "Eu também não consegui segurar a emoção."

Para Foxx, que estudou música e já foi cantor e pianista, trabalhar com Tarantino é como estar no palco de um show.  "Quentin Tarantino está mais para cantor hip-hop que para diretor", ele insiste. "Já falei isso para ele. O cantor de hip-hop lança um single, vaza um negócio aqui, dá uma palhinha acolá, porque sabe que é coisa quente. Assim é o Quentin. Ele não escreve só as palavras, o diálogo parece mais um musical."

Rigor e disciplina

AP
Nascido Eric Marlon Bishop, Foxx foi criado pelos avós, Mark e Estelle Talley, que o adotaram depois que os pais se divorciaram. Até hoje ele considera a avó sua mãe e agradece a ela parte de seu sucesso. "Ela me fazia tocar piano meia hora todo dia, enquanto a molecada lá fora jogava futebol", diz ele. "Eu reclamava para chuchu, ficava maluco, mas ela insistia: 'Você tem que pensar a longo prazo. Quem sabe vira alguma coisa se pensar que isso é para o seu futuro?'."

Disciplina era a regra de ouro na casa dos Talley. O jovem Eric não podia ficar na rua; em vez disso, virou escoteiro e entrou para o coral da igreja. "Não tinha essa de querer dar uma de esperto", ele relembra. "Nada de gracinha, de desrespeito. Ela não entendia muita coisa, mas sabia que queria ser respeitada."

Depois de ser escalado como quarterback no time de futebol americano do colégio, Foxx até pensou em seguir a carreira esportiva, mas foi a música que se consolidou como sua passagem para sair do Texas: ele entrou na United States International University, que hoje é a Alliant International University, em San Diego, com uma bolsa de estudos para estudar música e, em 1994, lançou seu primeiro álbum, "Peep This".

Entretanto, já nessa época outros caminhos começaram a se abrir: em 1989, sua namorada o desafiou a subir ao palco de um clube de comédia local; ele topou e descobriu que tinha talento para o stand-up. Não demorou muito e ele já estrelava "In Living Color" (1991-1994) e "Roc" (1992-1993).

Foxx estreou no cinema fazendo uma ponta no filme de Barry Levinson, "A Revolta dos Brinquedos" (1992); depois, vieram "Feito Cães e Gatos" (1996), "O Trambique do Século" (1996) e "Amor por uma Noite" (1997), até que Oliver Stone, sentindo o potencial dramático não desenvolvido do jovem comediante, o escalou para "Um Domingo Qualquer" (1999), o que lhe abriu as portas para uma série de filmes como "Ray", "Soldado Anônimo" (2005), "Miami Vice" (2006), "Em Busca de um Sonho" (2006) e "O Solista" (2009).

Ele foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por seu desempenho em "Colateral" (2004), mesmo ano em que ganhou como Melhor Ator por "Ray"; de quebra, vai encarnar o presidente dos EUA no inédito "Ataque à Casa Branca", de Roland Emmerich.

  • Divulgação

    Channing Tatum e Jamie Foxx em cena de "Ataque à Casa Branca", filme que estreia em setembro de 2013

* (Cindy Pearlman é jornalista freelancer em Chicago.)