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Com Keira Knightley, adaptação de "Anna Karenina" se passa em teatro

Keira Knightley e Aaron Taylor-Johnson em cena do filme "Anna Karenina", de Joe Wright - Divulgação / Universal
Keira Knightley e Aaron Taylor-Johnson em cena do filme "Anna Karenina", de Joe Wright Imagem: Divulgação / Universal

Natalia Engler

Do UOL, em São Paulo

14/03/2013 05h00

Em sua ainda curta carreira no cinema, o diretor britânico Joe Wright vem apostando em duas fórmulas: adaptações de obras literárias consagradas e parcerias com a também inglesa Keira Knightley.

Depois de adaptar "Orgulho e Preconceito", de Jane Austen, e "Reparação", de Ian McEwan, e de um hiato de dois filmes mais "modernos" --"O Solista" (2009), baseado no livro de Steve Lopez, e "Hanna" (2011)--, Wright volta-se agora para o clássico russo escrito de Leon Tolstói, "Anna Karenina", um calhamaço de mais de 800 páginas ambientado na Rússia czarista, transformado em filme que chega nesta sexta (15) ao Brasil.

"Anna Karenina" também traz no papel-título Keira Knightley, que já havia protagonizado os dois filmes de maior sucesso de Wright, "Orgulho e Preconceito" (2005), pelo qual recebeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz, e "Desejo e Reparação" (2007).

Nesta que é a 14a. adaptação da obra de Tolstói para o cinema, Wright optou por uma encenação quase teatral da história trágica de Anna Karenina, que em muitos momentos flerta também com os musicais.

Wright e Stoppard transformaram as mais de 800 páginas do livro em um filme de cerca de duas horas, que se abre como o romance, apresentando a crise familiar provocada pelas infidelidades do irmão de Anna. Chamada de São Petersburgo a Moscou para intervir na situação --que prenuncia seu próprio destino-- Anna vai visitar o irmão e, durante a visita, conhece o sedutor e impetuoso Conde Vronsky (Aaron Taylor-Johnson), com quem inicia um caso que a fará abandonar o marido (Jude Law) e o filho e acabará levando a sua ruína.

Apesar de o livro de Tolstói ser ambientado em diferentes cenários da Rússia e Europa, a maior parte da ação do longa se passa dentro de um teatro decadente, com os diversos espaços --quase sempre escuros e sombrios-- transformados em cômodos das casas dos personagens, salões de baile, estações de trem e outros cenários, sem compromisso com o realismo.

O recurso pela teatralidade aparece também na forma como algumas cenas são orquestradas, a exemplo do baile em que Vronsky flerta com Anna, coreografado como uma cena de musical.

Diretor Joe Wright fala sobre trabalhar com Keira Knightley

De acordo com relatos do próprio diretor, esta foi a solução encontrada por ele para não repetir as locações russas já vistas nas adaptações anteriores de "Anna Karenina" sem recorrer a cenários ingleses que já haviam sido povoados por Keira Knightley em seus filmes anteriores. Além disso, havia também o orçamento de apenas 46,5 milhões de dólares, insuficiente para uma produção com muitas locações.

No entanto, a combinação de obra literária consagrada com a escalação de Keira Knightley e a engenhosidade da adaptação parece não ter agradado desta vez: o longa rendeu apenas US$ 59,2 milhões após 15 semanas de exibição em todo o mundo.

Em comparação, "Desejo e Reparação" custou cerca de US$ 30 milhões e arrecadou US$ 129,3 nas bilheterias, provavelmente alavancado pelas sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, atriz coadjuvante (Saoirse Ronan) e roteiro adaptado. Ficou apenas com o prêmio de trilha sonora original.

"Anna Karenina" também não empolgou os membros da Academia que elege o Oscar, que lembrou do filme apenas em categorias técnicas e lhe concedeu o prêmio de melhor figurino.

A decisão de ambientar o longa em um teatro, embora sirva de metáfora para o protocolo artificial da sociedade que retrata, cria um visual exuberante, mas que também distrai a atenção da intensidade do drama, que Keira também não consegue expressar de forma tocante.

Também perde em atenção a trama paralela do romance entre Levin (Domhnall Gleeson), amigo do irmão de Anna, e Kitty (Alicia Vikander), irmã da cunhada da protagonista, com sua vida no campo e questionamentos sobre as relações com os camponeses, já num prenúncio da revolução que estava por vir.

Jude Law, no entanto, conquista com seu Alexei Karenin, o marido mais velho e traído de Anna. Calvo e com uma barba cheia, despojado de sua figura de galã, Law construiu um personagem formal e ponderado, virtuoso e cioso de seus deveres como marido e funcionário do Estado, mas capaz de expressar compaixão pela tragédia de sua mulher.