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Estreantes em filme, filhos de Mano Brown querem brilhar sem sombra do pai

Natalia Engler

Do UOL, no Rio

14/10/2014 06h30

A semelhança física já denuncia: Jorge e Domênica Dias são filhos de Mano Brown, o líder dos Racionais MC’s. Mas não foi a influência do pai famoso que levou os dois a estrearem no cinema em “Na Quebrada”, que chega às telas nesta quinta-feira (16). Na verdade, foi a insistência da mãe, Eliane Dias, que propiciou o encontro com o diretor Fernando Grostein, irmão do apresentador Luciano Huck.

Fernando conheceu Brown em um sarau da Cooperifa, em São Paulo, e em seguida foi apresentado a Eliane. Quando o cineasta comentou sobre o projeto do filme, ela sugeriu que os filhos fizessem um teste para os papéis dos jovens da periferia de São Paulo que protagonizam “Na Quebrada”.

“A gente fez muitos testes, não lembro de cabeça, mas foram entre 300 e 400 pessoas”, conta Fernando. “E chegaram os dois e brilharam na tela. Foi uma coisa que o fato de serem filhos do Mano Brown não fez diferença nenhuma. Porque o filme tem que ficar bom. Os dois têm isso: uma presença, uma força na câmera que é absurda, que vai desde a beleza até o convencimento de que aquilo ali é de verdade, a autenticidade.”

Domênica, 15, já havia estudado teatro por cinco anos. Mas Jorge, 18, não teria nem participado do teste se não fosse a insistência da mãe. “A minha mãe insistiu para fazer o teste, eu não queria fazer, nunca tinha feito nada de teatro. Quando chegava na escola para apresentar as coisas, dava aquela vergonha”, revela o garoto, que é uma cópia mais jovem do pai famoso.

Os dois entendem que serem filhos do rapper os coloca sob os holofotes, mas parecem bem tranquilos em encarar a experiência e começar a construir caminhos próprios. “No rap tem um pessoal que é crítico. Se você está usando uma jaqueta de couro, você virou playboy”, comenta Jorge. “Aí vai lá o filho do Mano Brown atuando num filme que é da Globo, que é dirigido pelo irmão do Luciano Huck. Tem muito isso. Mas eu estou bem despreocupado, gostei muito de participar do longa. Espero que tenha outros.”

“Agora eu já nem ligo mais, mas o único problema que eu tinha era de a gente ter só o nome de ‘filhos do Mano Brown’”, conta Domênica. “Jorge e Domênica, não: filhos do Mano Brown. Desde criança, chegava na escola, 'ah, essa aí é filha do Mano Brown'. Ninguém sabia meu nome. Era terrível para mim.”

Mas a jovem já começa a entender que a ligação com o pai era inevitável. “Quando lançaram a divulgação do filme, começaram a fazer várias matérias dizendo 'os filhos do Mano Brown vão estrear em um filme'. Eu fiquei meio preocupada, achando que ia ser só isso. Só que depois de umas conversas, eu pensei: 'O que é que tem? Não tem problema'. A gente está começando também, não tem como evitar as pessoas falarem. Até porque não vamos ficar escondendo isso. Estamos construindo nossos nomes, daqui a pouco as pessoas nem vão mais ligar para isso", acredita.

No set, eles contam que a situação foi muito tranquila. “Ficou muito leve, tanto pelo Fê ter conversado com a gente antes, e porque também eu não vou colocar um peso nas minhas costas por conta do meu pai. E outra coisa: meu pai canta, e isso aqui é um filme, um trabalho diferente”, diz Jorge. “A gente ficou bem tranquilo, porque ninguém nem mencionava isso, muita gente nem sabia do nosso pai”, concorda Dômenica.

Ali, as dificuldades para eles eram outras. “O mais difícil foi começar a atuar. Depois que você começa, fica mais fácil, você perde a timidez, vai aprendendo com quem já atua”, diz Jorge. “Para mim, foi mais difícil lidar com as câmeras, porque no teatro nunca tem nada assim”, afirma Domênica. “Mas depois eles deixaram a gente muito à vontade. Foi mais fácil do que eu esperava, achei que fosse um monstro fazer cinema”, conta ela.

A quebrada

Os dois, que vivem com os pais no bairro paulistano Campo Limpo, zona sul, conhecem bem histórias das quebradas como as que são apresentadas no filme. Jorge vive Gerson, um garoto cujo pai morre na prisão e acaba se envolvendo com o crime para pagar dívidas. Domênica é Mônica, filha de pais deficientes visuais. Ambos, assim como os três outros jovens retratados, são inspirados em alunos do Instituto Criar, ONG fundada por Luciano Huck para dar formação audiovisual a moradores da periferia de São Paulo.

“Além de conhecer os personagens, se você for na quebrada, você vai achar mais mil histórias, mais mil famílias diferentes. A quebrada tem muito isso. Por estar presente na periferia, você já sabe como funciona, o que significa ser da quebrada. Isso facilita”, diz Jorge. “Nossos próprios pais têm histórias mais ou menos assim”, completa Domênica.

Trailer do filme "Na Quebrada"

Tanto Brown quanto Eliane não conheceram os pais --foram criados pelas mães. Ela trabalhou como empregada doméstica, e ele, como office boy antes de os Racionais estourarem. Só anos depois do nascimento dos filhos é que Eliane voltou a estudar. Hoje, ela é advogada, além de mãe exigente.

“A minha mãe é bem exigente”, confirma Jorge. “Então, eu já sentia essa responsabilidade de mostrar que você pode ter um caminho diferente sem ser do crime para dar certo na quebrada. Eu já tinha essa responsabilidade por conta da minha mãe, por ser educado assim, ter essa doutrina de vencer.”

Ainda assim, o garoto conta que sentiu o peso da responsabilidade ao filmar uma cena em que Gerson, preso por envolvimento com o tráfico, envia uma carta para seus antigos colegas da ONG, incentivando-os a se esforçarem para não terminar como ele.

“A gente que convive com a quebrada sabe que tem essa ideia de que quem é de lá não vai ser bem-sucedido profissionalmente. Então, foi o Jorge que sentiu essa responsabilidade de passar isso para as outras pessoas, não só como ator”, conta.

Jorge, que trabalha como produtor dos Racionais e viaja com o pai para as turnês, ainda não tem planos para a carreira de ator, mas Domênica já está determinada a seguir na profissão, que pretende conciliar com uma faculdade de moda depois que se formar no colégio.