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Bolsa Família, humor inglês e insegurança: quem é a verdadeira JK Rowling?

A escritora J.K. Rowling (centro) com o elenco de "Animais Fantásticos e onde Habitam", que chegou aos cinemas no fim de semana - Divulgação/Warner Bros.
A escritora J.K. Rowling (centro) com o elenco de "Animais Fantásticos e onde Habitam", que chegou aos cinemas no fim de semana Imagem: Divulgação/Warner Bros.

Natalia Engler*

Do UOL, em Nova York (EUA)

21/11/2016 07h00

J.K. Rowling é “dona” da série de livros juvenis mais vendida do mundo, inspirou uma franquia de filmes de US$ 7 bilhões, já esteve na lista de maiores bilionários do showbiz (saiu depois de grandes doações para causas que julga importantes) e sempre responde aos fãs no Twitter, seja para tirar uma dúvida sobre seus personagens, dar um fora em algum troll ou para falar de política.

Ainda assim, a criadora de Harry Potter talvez seja uma das celebridades mais reservadas da nossa época, se é que podemos colocar esse rótulo nela: a escritora não frequenta lugares badalados, raramente dá entrevistas, vai a tapetes vermelhos apenas para prestigiar derivados de suas criações e só faz aparições públicas quando está lançando algo.

J.K. Rowling - Alastair Grant/AP Photo - Alastair Grant/AP Photo
J.K. Rowling no lançamento de "Harry Potter e o Cálice de Fogo", em 2000
Imagem: Alastair Grant/AP Photo

Da sua vida pessoal, talvez se saiba mais sobre o passado do que o presente: Rowling era mãe solteira de uma menina, morava em Edimburgo, na Escócia, e sobrevivia graças à ajuda do governo (uma espécie de “Bolsa Família inglês”) quando terminou de escrever “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, em 1995. O manuscrito foi rejeitado por 12 editoras antes de ser aceito pela Bloomsburry, que se interessou depois que a filha de um executivo devorou o primeiro capítulo e pediu para ler o resto. O que veio depois, como se diz, é história.

Aos 51 anos, 11 livros depois (sete “Harry Potter” e quatro romances adultos), um novo casamento, mais dois filhos (o mais novo, David, tem 13 anos) e muitos milhões na conta, Rowling já disse que ainda não se acostumou com a ideia de ser rica, tem medo do fracasso como qualquer pessoa e tenta manter uma vida o mais reservada possível, até para conseguir escrever.

Pessoa normal

Pessoalmente, ela passa a impressão de ser séria, mas com senso de humor (britânico, claro, daquele tipo que te deixa na dúvida se a pessoa está fazendo piada ou falando sério). Se fosse para compará-la a um de seus personagens, seria a professora Minerva McGonagall --severa, mas justa; séria, mas generosa; amável, mas pragmática.

É dessa forma que a equipe do filme “Animais Fantásticos e onde Habitam” --primeiro roteiro de Rowling para o cinema-- fala de Jo, como a chamam (apelido para Joanne).

“Ela é uma pessoa normal. Tem uma linda família, gosta de uma boa risada…”, contou ao UOL o diretor David Yates, que já havia trabalhado com Rowling nos quatro últimos filmes de Harry Potter. “Conheço Jo somente pelo trabalho, mas o que acho mais marcante é que ela tem uma vida maluca e extraordinária, mas consegue manter o máximo de normalidade possível, tem os pés bem fincados no chão. É uma façanha e tanto”.

E Yates parece ter ainda mais motivos para continuar a parceria de trabalho. “O que é legal de conviver com Jo profissionalmente é que ela é muito pragmática. É claro que ela é brilhantemente imaginativa, não preciso nem dizer isso. Mas muito pragmática, muito aberta e muito pé no chão. É uma ótima pessoa para se trabalhar, uma colega fabulosa, porque não é particularmente egocêntrica, nem controladora, apesar de ter um ponto de vista forte, que você respeita. E é muito atenciosa e receptiva. São todas qualidades profissionais, mas acho que, sob isso tudo, ela é uma pessoa encantadora”, conclui.

Rowling fala sobre "Animais Fantásticos":

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Eddie Redmayne, que protagoniza “Animais Fantásticos” como Newt Scamander, confirma que a escritora é uma colega de trabalho generosa. “Um filme tem que ser a visão de uma pessoa, a do diretor. E Jo foi incrivelmente respeitosa com isso, mesmo que estivesse tudo em sua imaginação e ela também fosse produtora. David Yates e Jo têm essa incrível relação simbiótica e de amizade através da qual ambos nos deram liberdade para brincar”, conta o ator.

Katherine Waterston, que interpreta a bruxa Tina Goldstein, não consegue esconder a admiração, e brinca que Rowling é como uma “rockstar”, que deixa as pessoas mudas, sem saber o que dizer. “Foi muito arrebatador conhecê-la. Nunca conheci ninguém como ela. Ela é tão obviamente bem-sucedida, mas ainda assim muito pé no chão e realista, e muito crítica consigo mesma. E tão acolhedora! E muitas coisas que você pensa: 'Claro, ela tem que ser assim. Está presente em todo o trabalho dela'”.

A própria autora admite que às vezes se sente insegura. “Você nunca sabe se está fazendo um bom trabalho, até terminar. Ainda não sei qual vai ser a reação a este filme. Tenho orgulho dele --é o máximo que você pode dizer como criador”, disse ela, durante uma conversa com jornalistas de todo o mundo. "E nunca esqueço a sorte que tenho por fazer o que amo".

Talvez seja essa insegurança que tenha permitido a Rowling abraçar uma nova função com a humildade de uma novata. “Ela está aprendendo, e vai ser a primeira a admitir”, afirma o produtor David Heyman, que trabalhou em todos os filmes de Harry Potter. “O roteiro que usamos não é o mesmo roteiro com que começamos. É um roteiro incrível, mas foi um processo. Também acho importante que artistas estejam preparados para fracassar, e demos a Jo espaço para isso. Ela não iria falhar, mas pôde testar coisas”, conta.

Universo de Potter

Outra característica que sempre é apontada por quem trabalha com Rowling é sua grande imaginação, e o fato de saber muito mais sobre o mundo mágico que criou do que o que entra de fato nos livros e filmes.

“Eu a conheci bem no começo, antes dos ensaios, e ela tinha uma pilha de manuscritos quase da sua altura”, conta, admirado, o ator Dan Fogler, intérprete do não-maj (humano sem poderes) Jacob Kowalski. “Aquilo era tudo que ela já havia escrito sobre o universo do filme!”.

“Ela tem uma conexão tão forte com esse mundo, e é tão pessoal, que você sente que está conversando com uma biógrafa, não uma escritora de ficção”, completa Waterston. “O nível de detalhe e o fascínio que ela tem por esses personagens é sobrenatural”, diz.

Yates concorda. “Ela sabe uma enorme quantidade de detalhes de fundo sobre seus personagens e seu mundo. É como um iceberg, que você vê a ponta, mas há quilômetros dentro da água. Ela é extraordinária. Outro dia, em uma reunião, pedi algumas páginas [do roteiro do próximo filme], esperando que ela fosse entregar umas 12, e ela escreveu 120 páginas em três dias!”, conta rindo.

Necessidade de escrever

Escrever, aliás, parece ser uma das coisas mais importantes na vida de Rowling, apesar de ela confessar que não tem mais que produzir para ganhar a vida. “Eu preciso escrever, me sinto estranha se não escrevo. Claramente, eu não tenho que escrever mais, mas amo tanto fazer isso que seria quase como uma amputação se não fizesse”, diz a autora.

Onde e quando escrever também não é necessariamente um problema. “Posso escrever em qualquer lugar, a qualquer hora --com a TV ao fundo, enquanto respondo algo para os meus filhos. Já escrevi uma parte surpreendentemente grande de um capítulo em um banheiro, que era o único lugar onde eu podia ficar em paz”, diz, aos risos. “Ontem à noite, eu estava com o humor um pouco ruim”, conta a escritora, um dia após a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos. “Entrei no avião e pensei: 'Preciso trabalhar'. Então peguei o roteiro do segundo filme e trabalhei um pouco nele. E isso preencheu o vazio que eu estava sentindo”.

Assista ao trailer de "Animais Fantásticos":

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* A jornalista viajou a convite da Warner Bros.

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