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Encaretamos? "Bingo" traz anos 1980 divertidos, mas não exatamente melhores

Cena de "Bingo - O Rei das Manhãs" - Reprodução - Reprodução
Vladimir Brichta em cena de "Bingo, o Rei das Manhãs"
Imagem: Reprodução

Natalia Engler

Do UOL, em São Paulo

29/08/2017 04h00

Nessa nossa era de redes sociais, uma das discussões que mais pipocam por aí, principalmente quando o assunto é o humor, é aquela entre os defensores e os críticos do tal “politicamente correto”. E vira e mexe os anos 1980 são citados como exemplo nessa briga --bom ou mau, dependendo de quem está falando.

É justamente essa época e seus excessos --ou liberdade, depende do ponto de vista-- que serve de fundo para “Bingo, o Rei das Manhãs”, filme que já está em cartaz, inspirado na vida de um dos intérpretes do palhaço Bozo, Arlindo Barreto. E falar de politicamente correto aqui faz todo o sentido, já que ele mesmo viveu uma vida controversa, entre o enorme sucesso na TV e o vício em álcool e cocaína.

“Fico muito feliz de ver que o filme está trazendo de alguma forma essa discussão”, diz o diretor de “Bingo”, Daniel Rezende. “Acho o politicamente incorreto dos anos 1980 maravilhoso, mas não acho essencial, não acho necessário”, explica.

A estrela do filme, Vladimir Brichta, que interpreta Augusto (a versão ficcional de Arlindo), também acha que é preciso olhar a questão sem tanta “paixão”. “A gente vive uma armadilha”, acredita ele. “Como essa é a época da nossa infância, que é um período muito lúdico e fantasioso, em que sonhamos bastante com o que queremos ser um dia, guardamos a memória afetiva. Então, a gente tende a confundir a nossa afetividade positiva, como um tempo melhor, e não necessariamente é”, diz.

Não que ele não tenha saudades de algumas coisas, claro. “As coisas eram mais espontâneas. Talvez isso seja do que eu mais sinto falta, e que no fundo as pessoas mais sintam. Ao mesmo tempo, a gente como sociedade era mais racista, mais classista, mais sexista... E isso não era bom, então a gente está evoluindo”.

Vale lembrar que era uma época em que os Trapalhões eram os maiores astros da TV, com piadas que muitas vezes exploravam estereótipos negativos sobre minorias (Mussum era o negro que vivia bêbado e não gostava de trabalhar, Zacarias era o cara afeminado), Xuxa rebolava todas as manhãs vestindo pouquíssima roupa, e qualquer loja de doces vendia para as crianças chocolates em formato de cigarros, entre outras coisas que hoje parecem inconcebíveis.

“Eu não acho que os anos 1980 eram melhores que hoje em dia”, continua Brichta. “Tinham algumas coisas que eram melhores, e outras que eram piores. É verdade que tinha muito mais liberdade para uma série de coisas. Inclusive para a criança andar de carro na frente, sem cinto de segurança. É bom? Não é. Acho que a gente evoluiu. Mas é um processo de dois passos para frente, um para trás”, acredita.

Rezende também acha que é possível valorizar essa liberdade dos anos 1980, mas sem apelar para um humor ofensivo. “Eu sou da política de que qualquer extremismo é um horror. Sou contra qualquer tipo de desrespeito, mas sou completamente a favor da liberdade. Acho ótimo poder olhar uma época em que éramos mais livres”.

“Teve uma menina de 17 anos que viu o filme com a mãe e, depois que acabou, virou para mim e falou: 'Cara, eu entendi melhor a minha mãe, entendi as piadas dela'”, conta. “Então, é maravilhoso trazer uma época em que se pensava diferente, e poder retratar isso sem que seja ofensivo. Muito pelo contrário, que traga aí um debate”.