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Ator de "Narcos" e "GoT" diz que sucesso aos 40 anos foi sorte

Pedro Pascal como o Oberyn de "Game of Thrones" e o agente Javier Peña de "Narcos" - Divulgação e Montagem UOL
Pedro Pascal como o Oberyn de "Game of Thrones" e o agente Javier Peña de "Narcos"
Imagem: Divulgação e Montagem UOL

Natália Engler

Do UOL, em Bogotá (Colômbia)*

01/09/2017 04h00

Aos 42 anos, Pedro Pascal ainda não é exatamente uma estrela do primeiro time de Hollywood. Mas depois de tirar o máximo de um papel secundário na quarta temporada de “Game of Thrones”, em 2014, e de estrelar “Narcos”, a série da Netflix sobre os cartéis de drogas na Colômbia, o ator chileno certamente está se aproximando disso.

Como o sedutor Oberyn Martell, integrante da família governante de Dorne, Pascal conquistou a todos em pouco tempo e deixou os fãs desconsolados com a morte trágica de seu personagem, ao final da temporada. E como o agente do DEA Javier Peña, que pode ser visto na terceira temporada de “Narcos” a partir desta sexta (1), ele mostrou um lado mais sombrio, que conquistou os diretores de projetos como “A Grande Muralha” (que acabou naufragando nas bilheterias no fim de 2016) e a sequência de “Kingsman”, que estreia em 28 de setembro. E ainda há mais por vir.

“Fui muito sortudo. Tudo é sorte. Não é que eu estivesse com a bunda na cadeira esperando que alguma coisa acontecesse, estava ralando, mas acho que é uma sorte incrível que um projeto como 'Narcos' tenha vindo logo depois de um papel como Oberyn Martell em 'Game of Thrones'”, disse o ator ao UOL, durante uma conversa com jornalistas para divulgar a terceira temporada de “Narcos”.

Pedro Pascal em cena de "Kingsman: O Círculo Dourado" - Reprodução - Reprodução
Pedro Pascal também vai aparecer em "Kingsman: O Círculo Dourado"
Imagem: Reprodução

“Há uma ‘Era de Ouro’ da TV que vem acontecendo há algum tempo, e ser parte de dois projetos que são bons exemplos dessa era é muita, muita sorte. Devo tudo a essas duas produções em termos de oportunidades que estão aparecendo para mim agora”, completa Pascal, que se diz “aliviado e grato” com o sucesso tardio, e ainda age de forma espontânea mesmo ao redor de jornalistas, com um senso de humor bastante ácido --como quando diz, sério, que vai abandonar as entrevistas se alguém der spoilers de “Game of Thrones”.

Além dos projetos no cinema, Pascal é o verdadeiro protagonista da nova fase de “Narcos”, depois da morte do Pablo Escobar de Wagner Moura e da saída de Boyd Holbrook, que interpretava o agente Steve Murphy.

“Pedro, como ator, tem muito magnetismo!”, elogia o cineasta colombiano Andi Baiz, que é produtor da série e dirigiu quatro episódios da temporada. “É um daqueles atores que quando você o vê na tela, quer mais e mais. E ele tem um papel diferente nesta temporada, tem assuntos para resolver, e estamos muito felizes de tê-lo”.

“Muda muito para o personagem”, explica Pascal sobre Peña, que agora é o chefe da agência antidrogas norte-americana na Colômbia (uma licença poética da série, já que o verdadeiro Peña deixou o país depois da morte de Escobar e não participou da caça ao cartel de Cali).

“O que você vê nas duas primeiras temporadas é alguém que está muito mais à vontade trabalhando nas sombras, e segundo suas próprias regras. Então, tirar isso dele dando a ele uma promoção é uma ironia interessante. Sua posição é mais transparente, ele não está confortável. E eu gosto disso”, conta o ator, que passa do inglês ao espanhol com naturalidade durante a entrevista.

Asilo político

Mas não deixe o sotaque hispânico que ele usa em seus personagens te enganar. Pascal tem um inglês perfeito, de quem viveu nos Estados Unidos a vida toda, apesar de ter nascido no Chile. Seus pais --um especialista em fertilidade e uma psicóloga infantil-- eram apoiadores de Salvador Allende, que se asilaram nos Estados Unidos fugindo da perseguição da ditadura de Augusto Pinochet, e se instalaram na Califórnia, onde a família teve uma vida confortável.

“Cresci em uma família muito progressista e sou muito grato a eles pelos valores com os quais eles me criaram”, conta Pascal. “Sinto que ainda não cheguei em um ponto de aprender a realmente defender causas que acho que são muito importantes. E espero chegar. Não sou uma pessoa poderosa, mas sei que é muito mais importante para mim tratar as pessoas com respeito e fazer o que posso para proteger aqueles que são vulneráveis, do que dar uma boa entrevista, ou conseguir um bom papel”, acredita o ator, que evitou conhecer os posicionamentos políticos do verdadeiro Peña, para não atrapalhar a relação com ele.

“Tive medo de perguntar. Eu sou muito progressista, e nunca quis descobrir que tínhamos opiniões que eram muito opostas, para que pudéssemos colaborar de uma forma legal para criar o personagem”, conta.

Início difícil

Depois de se dedicar algum tempo à natação na infância, Pascal descobriu a paixão pela atuação bem cedo, e começou a participar de clubes de teatro na escola. As coisas se complicaram um pouco quando a clínica de fertilidade da qual seu pai era sócio se envolveu em um escândalo --foram acusados de trocar óvulos de pacientes sem autorização, mas Pascal diz que seu pai não fez nada de errado. Parte da família voltou para o Chile, onde a mãe do ator morreu pouco depois, e ele e a irmã se mudaram para um apartamento minúsculo em Nova York, onde ele esperava se dedicar à carreira artística. Mas as coisas não foram tão fáceis.

As décadas seguintes passaram entre inúmeras produções de teatro e participações pequenas em séries de TV --de “Buffy - A Caça-Vampiros” a “Law & Order” e “The Good Wife”. Em 2011, ele chegou a ser escalado para a famigerada série da Mulher-Maravilha que nunca chegou a ir ao ar --supostamente porque era muito ruim.

Virada

Tudo começou a mudar em 2013, com a ajudinha de uma grande amiga de Pascal, Sarah Paulson, que entregou o teste dele à sua amiga Amanda Peet, casada com um dos criadores de “Game of Thrones”, David Benioff.

Agora, Pascal passa pouco tempo em seu apartamento em West Hollywood, Califórnia, e, além de “Kingsman: Círculo Dourado”, que estreia em setembro, já tem mais dois filmes para rodar em breve: “O Protetor 2”, sequência do thriller com Denzel Washington, e “Triple Frontier”, um filme de ação que se passa na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina.

Além de mais trabalhos, o sucesso tardio também trouxe um olhar nada deslumbrado sobre a carreira. “Vocês ficam me lembrando de que cheguei ao sucesso aos 41 anos. Agora tenho 42. Eu tinha muitos sonhos, muitas fantasias, e agora, depois de trabalhar em projetos diferentes em todo o mundo, sei que a coisa mais importante para mim, meu sonho, é que a experiência seja agradável. Com gente que me inspira. Só isso”, explica, sem falsa modéstia, e com uma ponta de amargura em relação às dificuldades da carreira artística.

Sem grandes expectativas sobre projetos que gostaria de fazer ou diretores com quem gostaria de trabalhar --e ainda sem sua volta confirmada na quarta temporada de “Narcos”, apesar de o final da terceira dar sinais positivos--, a única aspiração que Pascal ainda tem é arranjar tempo para dirigir teatro em seu país natal e trabalhar com seu irmão caçula, Lucas, que também é ator. “Ainda não sei quando vai ser possível, mas quero fazer isso”.

*A repórter viajou a convite da Netflix