|
22/02/2005 - 21h40
Rubens Ewald Filho: "Vera Drake", de Mike Leigh, é impecável
RUBENS EWALD FILHO Colunista do UOL

"Vera Drake" foi indicado a três Oscar _ganhou o Leão de Ouro de melhor filme_, e Imelda Stauton concorre ao Oscar de atriz depois de ter levado o mesmo prêmio em Veneza 2004. Não há dúvida de que ela é grande atriz, que atuou em "Muito Barulho por Nada" e "Razão e Sensibilidade".
Porém nada fazia prever um trabalho tão consistente, de tão poucas concessões como o de "Vera Drake", ainda que meio que samba de uma nota só. Imelda primeiro marca como boazinha, sorridente, quase uma santa. Depois chora, chora, chora. Sem nuances. O diretor Mike Leigh, indicado ao Oscar de diretor, passa meses trabalhando com o elenco, improvisa e depois escreve o texto. Desse modo ele bolou a história de Vera, uma senhora da classe trabalhadora que trabalha em casas ricas para ajudar o marido, nos anos 50.
Mas nas horas vagas, por compaixão e sem ganhar nada, faz abortos em jovens necessitadas. Ela acaba presa, julgada e desonrada, com toda a hipocrisia de uma sociedade que admite o aborto apenas para as jovens ricas e discretas que estejam dispostas a pagar o bastante pelo "privilégio". O filme é naturalmente impecável. Ressente-se de um final mais forte, mais pungente. Mas coloca muito bem todas as situações, sempre de forma humana e delicada, sem discursos. Um bom filme, mas barra-pesada.
|