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65o. Festival de Veneza - 2008

09/09/2004 - 13h01
Diretor Cláudio Assis chama Hector Babenco de "imbecil" em cerimônia de premiação
MARCELO BARTOLOMEI
da Redação

O que estava sendo uma cerimônia burlesca, porém regular, celebrando o nascimento de Macunaíma no cinema brasileiro, desandou quando ecoou da platéia, inesperadamente, uma sonora ofensa ao cineasta Hector Babenco ("Carandiru"), que subia ao palco para agradecer o prêmio de Melhor Direção -que dividiu com Jorge Furtado ("O Homem que Copiava"). "Imbecil", gritou o diretor de "Amarelo Manga", Cláudio Assis.

"E você é um escroto. Fodam-se vocês todos. Eu falo o que eu quiser falar. Tomem no cu", disse o diretor pernambucano, visivelmente embriagado e irritado com o resultado da competição na categoria em que também concorria.

Babenco não respondeu de imediato. Do microfone, somente perguntou se a ofensa era dirigida a ele, pediu que Assis o dirigisse diretamente a palavra e disse: "Eu gosto muito do seu filme ["Amarelo Manga"], mas não sabia que você era uma pessoa tão indelicada". Babenco Foi aplaudido de pé.

"Fora, babaca", gritou uma espectadora para Assis, que foi retirado só da sala de cinema do Odeon BR, onde aconteceu a cerimônia, mas permaneceu no local onde seria servido um coquetel após o evento.

Antes desse episódio, Babenco havia protagonizado outro momento infeliz da noite. Ao receber o primeiro prêmio, por Roteiro Adaptado (escrito por ele, Victor Navas e Fernando Bonassi), reviveu a antiga rixa cariocas x paulistas.

"A gente não estava preparado para isso", justificou, por não ter um discurso pronto e por estar ao lado de integrantes da equipe que fez o filme. "Lá em São Paulo a gente trabalha muito e não sabe fazer festa", disse, em alusão ao discurso de Rita Lee quando dos 450 anos de SP, e ouviu meia dúzia de vaias.

Discurso

"Faz 35 anos que faço cinema no Brasil. Às vezes fazemos filmes que agradam; outras não. Fiz um filme de um homem que se salvou do câncer, da maneira mais modesta possível, mostrando que o cinema brasileiro é feito por brasileiros. Rompemos o patamar de bilheteria... Talvez eu seja mais lembrado por este filme que por outros", disse Babenco em seu discurso de agradecimento.

O cineasta também criticou o governo federal, a quem acusou de dirigismo cultural. "Já passamos por censura, ditadura, agora por um potencial dirigismo, mas somos como uma peste, um vírus... Insistimos e fazemos cinema. Eles passam, a gente fica."

Atrás dele, recebendo o prêmio de Melhor Direção no lugar de Jorge Furtado por "O Homem que Copiava", que dividiu o troféu na categoria, o ator Lázaro Ramos permaneceu calado.

Depois, quando recebeu o prêmio por Melhor Filme, Ramos desabafou: "Todos os filmes que estão aqui merecem o prêmio. Somos apenas uma célula desta família que é o cinema brasileiro", afirmou.

No prêmio, considerado pelo patrocinador o "Oscar brasileiro", "Amarelo Manga" levou somente um prêmio, por Melhor Fotografia (Walter Carvalho). A noite consagrou "O Homem que Copiava", de Jorge Furtado, e deu dois prêmios a "Carandiru".


31/01/2013