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10/09/2004 - 12h48
Estréia do primeiro filme alemão sobre Hitler causa comoção na Alemanha


MUNIQUE, Alemanha, 10 set (AFP) - "Der Untergang" (O Afundamento), primeiro filme alemão sobre os últimos dias de Adolf Hitler, foi recebido com comoção após sua estréia, na noite de quinta-feira, em Munique (sul), uma das cidades onde o ditador nazista preparou sua ascenção ao poder, em 1933.
O público ficou em silêncio durante vários segundos antes de romper em uma prolongada salva de palmas à obra do cineasta Oliver Hirschbiegel, produzida por Bernd Eichinger, e especialmente pela atuação do suíço Bruno Ganz, de 63 anos, no papel de protagonista de Hitler.
A sala estava cheia de figuras de destaque das cenas política e cultural alemãs.
Ganz interpretou com grande realismo um Hitler envelhecido e doente poucos dias antes do seu suicídio no bunker da antiga diplomacia do 3º Reich em Berlim.
A história se desenvolve entre 20 de abril (dia do aniversário de 56 anos de Hitler) e 2 de maio de 1945 (dois dias após seu suicídio) e faz contraste entre a batalha final por Berlim e o que aconteceu nos fundos do imponente edifício em ruínas da Reichskanzlei.
Junto a Bruno Ganz atuam Alexandra Maria Lara (secretária pessoal de Hitler), Ulrich Matthes e Corinna Harfouch (o ministro de Propaganda Joseph Goebbels e sua esposa) e Juliane Koehler (Eva Braun).
"Se eu apenas odiasse Hitler, não poderia superar esse desafio. Por isso, me vi forçado a desenvolver uma certa compreensão por este homem", disse Ganz em entrevista à imprensa alemã.
A interpretação pareceu convencer os especialistas. A cineasta alemã Caroline Link (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por "Lugar Nenhum da África") mostrou-se impressionada pela interpretação. "Bruno Ganz teve uma excelente atuação", afirmou depois da estréia.
"Entretanto, o filme não pôde me explicar como todo um povo pode ter seguido este homem. Talvez nenhum filme jamais possa alcançar tal objetivo", acrescentou.
O diretor de "Der Untergang", Oliver Hirschbiegel, disse que "o filme não oferece nenhuma explicação. Cada um dos espectadores deve encontrá-la sozinho", acrescentou.
O filme causou polêmica antes da estréia. É a primeira aproximação do cinema alemão, depois da Segunda Guerra Mundial, desta obscura figura de sua história recente.
Muitos críticos alemães questionavam se deveria se mostrar um Hitler humano, com medos e problemas, e não apenas o monstro com energia criminosa que representou para a história da Europa na primeira metade do século 20.
A imprensa britânica avaliou que o filme quebrou um tabu. Para Hirschbiegel, em compensação "era hora de nós, alemães, apresentarmos nossa própria história, já que durante décadas Hitler foi descrito como demônio ou personagem de quadrinhos".
O filme se baseia na obra homônima do historiador alemão Joachim Fest e nas memórias da secretária pessoal de Hitler, Traudl Junge.
Para Eichinger, que produziu grandes sucessos internacionais como "O Nome da Rosa" e "A Casa dos Espíritos", "Hitler foi até o último momento consciente de suas ações e por tal razão não se pode dizer que o poder escapou de suas mãos".
Era tal a megalomania e a força destrutiva de Hitler que mesmo quando Berlim e toda a Alemanha estavam em escombros, não vacilou em dizer: "se perdermos a guerra é melhor que o povo alemão acabe com ela. Não poderia derramar uma só lágrima por isso, porque o povo alemão não mereceria outra coisa".
A produção de "Der Untergang" custou 13,5 milhões de euros (16,2 milhões de dólares). Foi o filme mais caro da Alemanha desde "O Submarino", do cineasta Wolfgang Petersen, diretor de "Tróia". Sua estréia internacional está prevista para o próximo dia 14, no Festival Internacional do Cinema de Toronto (Canadá).
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