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65o. Festival de Veneza - 2008

20/09/2004 - 17h05
Prisões e desejos de vida nova marcam o dia em San Sebastián

Por Gabriel Rubio SAN SEBASTIAN, Espanha, 20 set (AFP) - As histórias de dois homens marcados pela prisão e que tentam buscar uma vida nova são retratadas nos filmes "San zimske noci" (Sonho de uma noite de inverno), do diretor sérvio Goran Paskaljevic, e "Horas de luz", do espanhol Manolo Madjí, apresentadas nesta segunda-feira no Festival de Internacional de Cinema de San Sebastián.

"Sonho de uma noite de inverno", que foi muito bem recebido pelo público do festival, é uma metáfora do "autismo político" de uma sociedade como a sérvia, feita a partir do autismo real.

"As raízes do autismo de um país estão no nacionalismo e, sobretudo, no ultranacionalismo", explicou Paskaljevic, durante entrevista coletiva que se seguiu à exibição do filme.

"Todos amamos nossos países e isto é patriotismo, mas quando damos um passo à frente e só amamos a nós mesmos, quando diferenciamos as pessoas não por serem boas ou más, mas por serem sérvios, bósnios ou croatas, então caímos no nacionalismo", acrescentou o diretor, para quem a guerra na antiga Iugoslávia teve suas raízes nesse período.

Obrigado a deixar seu país no auge do nacionalismo na Iugoslávia, em 1992, Paskaljevic volta, após "Barril de Pólvora", ao tema da guerra e neste caso, ao das seqüelas que a guerra deixou nas pessoas.

Lazar (Lazar Ristovski) volta para casa depois de dez anos na prisão. Ao chegar, encontra uma refugiada bósnia (Jasna Zalica), que mora na casa com a filha autista (Jovana Mitic). Desejoso de começar uma vida nova, Lazar tomará conta delas e, negando-se a aceitar a doença de Jovana, tentará fazer com que acorde de seu "sonho autista".

"Faz um ano que eu me interesso pelo autismo no sentido metafórico sobre o meu país", disse o diretor, que não hesitou em usar em seu filme uma menina autista de verdade porque "é impossível que qualquer ator faça um personagem deste tipo como é na realidade".

Embora tenha sofrido o dilema moral de trabalhar com um autista, ele reconheceu que todos os médicos e as pessoas que trabalham com pessoas autistas o estimularam a dar prosseguimento à idéia porque "não se deve excluí-los da vida cotidiana".

"Confio em que o filme ajudará a trazer um pouco mais de luz sobre o problema", acrescentou Paskaljevic, ao lado de quem também estava a jovem Jovana Mitic e o restante do elenco do filme, que parece ter conseguido um bom sucesso de público, sem dúvida valioso na sua luta pela Concha de Ouro, prêmio máximo do festival.

Na disputa também está o espanhol "Horas de luz", de Manolo Matji, baseado na história real de um preso, acusado de três assassinatos e que atualmente continua detido numa cadeia espanhola.

Juan José Garfia (Antonio San Juan) mata três pessoas numa noite. Detido, é enviado a várias prisões onde fica famoso por sua agressividade e finalmente acabará num regime especial de isolamento, onde conhecerá a enfermeira Marimar (Emma Suárez), que tentará ajudá-lo e com quem começará um romance.

"(A história) é baseada em fatos reais. É muito escrupulosa com a realidade", disse o cineasta espanhol, que falou primeiro com os verdadeiros Garfia e Marimar, antes de começar as filmagens.

A princípio, o órgão responsável pelo sistema prisional espanhol não foi partidário do filme, mas depois portou-se "com absoluta normalidade, nos fixaram limites, nos disseram 'vocês podem filmar desde que não interfira no funcionamento carcerário', mas nos ajudaram", revelou o diretor, segundo quem um momento de emoção especial foi quando o verdadeiro Garfia contou como matou as três pessoas.

"Era a primeira vez que falava daquilo", disse Matji, ao descrever uma pessoa que continua presa numa penitenciária espanhola "dedicada à literatura e à pintura".


09/02/2010