Por Kirk Honeycutt
HOLLYWOOD (Hollywood Reporter) - "De-Lovely" é uma revista musical montada em torno das canções de Cole Porter e alguns fatos biográficos intrigantes tirados de sua vida extraordinária.
O diretor Irwin Winkler, evidentemente um fã de Porter, não quis fazer uma biografia padronizada e sim aproveitar a melhor música popular americana composta no século 20.
Isso pode fazer com que "De-Lovely" não atraia a todos os espectadores contemporâneos, numa época em que a era do jazz já ficou para trás. Para agradar um público maior, Winkler apelou para a cooperação de diversos talentos do rock e pop dos dias de hoje, desde Alanis Morissette e Diana Krall até Sheryl Crow, Elvis Costello e Natalie Cole. Isso deve ajudar, mas as canções são cantadas e dançadas em estilos que continuam a fazer parte do passado.
A relação pouco convencional entre Cole e Linda Porter -- um casamento de conveniência entre um homem gay e uma mulher que aceitava sua condição -- pode interessar às pessoas curiosas em compreender como funcionam dinâmicas desse tipo.
Irwin Winkler e o roteirista Jay Cocks criaram uma maneira altamente teatral para narrar a vida de Cole Porter. As luzes se acendem num apartamento de Manhattan e vemos Cole -- Kevin Kline, irreconhecível, maquiado para parecer velho -- sentado diante de seu piano de cauda, dedilhando as teclas e esperando a morte iminente.
Então, sem se fazer anunciar, chega um visitante chamado Gabe (Jonathan Pryce), disposto a levar o idoso ao teatro onde está encenando a vida de Cole. Outra luz se acende e nos vemos no teatro, com todo o elenco -- as pessoas que participaram da vida de Cole Porter -- subindo ao palco.
Durante duas horas, a vida de Cole Porter é repassada diante de seus olhos. Ele vê sua mulher, Linda (Ashley Judd), como ela era na noite em que os dois se conheceram, num salão parisiense em 1918. Cole está jovem -- é Kevin Kline sem a maquiagem, vestido com elegância, com cigarro e uma bebida nas mãos e um brilho malandro no olhar.
A música está presente durante o filme todo. Quando Cole e Linda passeiam num parque parisiense, Cole vê um piano num parque de diversões e toca uma música. Robbie Williams canta no casamento dos dois. Elvis Costello se apresenta num baile veneziano de máscaras ao qual eles vão. O casal Porter assiste a muitas de suas noites de estréia.
HISTÓRIA DE AMOR
O foco central do filme é a história de amor entre Cole e Linda, que durou toda suas vidas. O filme não começa com a juventude de Cole no Indiana, a fase em que ele estudou em Yale ou seu primeiro show na Broadway, em 1916, mas com o momento em que ele primeiro viu Linda Lee.
Saída de um casamento infeliz e dona de seu dinheiro próprio, Linda se apaixona por Cole antes mesmo de ele terminar de cantar a primeira canção. Depois que eles dormem juntos, Cole se esforça para explicar a ela sua condição de homossexual. Mas Linda o cala, dizendo que já sabe que ele gosta de homens mais do que ela própria gosta. O argumento não é levado adiante, mas é algo que pode ajudar em muito a explicar a relação conjugal dos dois.
De acordo com o filme, Linda acredita tão profundamente no talento de Cole que o incentiva a voltar a Nova York e tentar a sorte em Broadway. Na vida real, o sucesso do compositor não foi imediato, mas o filme mostra a história de maneira diferente, indo diretamente para seu primeiro sucesso, "Let's Do It, Let's Fall in Love", de "Paris", em 1928.
Embora não se pareça nada com Porter, fisicamente falando, Kevin Kline transmite à perfeição o espírito descuidado de um homem que se atirava de cabeça na vida e nas farras. Ao mesmo tempo, porém, em que era a alma das muitas festas que frequentava e adorava, Cole mantinha às pessoas à distância com suas canções e motes.
Cole é visto como um conquistador gay um tanto quanto egoísta e superficial, que fazia pouco caso das pessoas com quem se relacionava, inclusive de sua própria mulher, embora tivesse plena consciência da influência desta sobre sua carreira.
Linda foi uma beldade do início do século 20 que usava a graça e o encanto para esconder muitas coisas. Ela era a musa, professora e promotora de Cole -- tudo, na verdade, menos sua amante. Ela aceita esse fato, mas o filme não explica claramente por que. Os dois se amam profundamente, sem paixão física, mas de todas as outras maneiras possíveis.
Ambos eram espíritos livres que foram cruelmente atingidos por problemas físicos. Um acidente de equitação esmagou as pernas de Cole em 1937, levando-o a sofrer dores fortes e passar por diversas cirurgias pelo resto da vida. Linda (assim como Cole) fuma sem parar e acaba tendo um enfisema pulmonar que provoca sua morte, em 1954. A carreira de Cole basicamente termina com a morte dela, embora ele continue a viver até 1964.
O filme é alegre e descuidado. Kevin McNally e Sandra Nelson representam um casal que é amigo dos Porter durante toda sua vida, mas o filme mal registra a presença deles.
A vida de Cole como gay é retratada com reticência ou relutância. Ele é mostrado abraçando homens ou se vestindo, enquanto seu amante do momento está deitado numa cama desarrumada. Mas não se tem a sensação de qualquer paixão amorosa real.
Os números musicais são encenados com humor e estilo. Podem parecer discretos quando comparados ao brilho dos filmes de Baz Luhrmann, mas se harmonizam bem com o clima dominante nas canções de Cole Porter. Os figurinos e ambientes evocam de maneira belíssima as quatro décadas cobertas no filme.