SÃO PAULO (Reuters) - "Casa de Areia", o quarto filme de Andrucha Waddington (diretor de "Eu Tu Eles"), mostra a história de um desbravador Vasco (Ruy Guerra), que arrasta sua mulher grávida Áurea (Fernanda Torres) e a sogra Maria (Fernanda Montenegro) para uma inóspita duna no Maranhão, em 1910. Neste ambiente abrasador e solitário, o personagem central encontra a morte e deixa as duas mulheres sob uma nova realidade.
Mulheres acostumadas ao conforto das grandes cidades, Áurea e Maria fazem o duro aprendizado da adaptação, trocando pertences -- agora inúteis -, como louças, toalhas de mesa e móveis, por comida. Esta e outras lições vêm de Massu (Seu Jorge), morador do quilombo local, que se transforma em um protetor informal das duas. O único contato com o mundo exterior é Chico (Emiliano Queiroz), velho comerciante que traz no lombo de um burro o sal e algumas encomendas.
As duas mulheres vivem assim, governadas por necessidades básicas -- comer, beber, dormir, cuidar da recém-nascida Maria, que é a única barreira capaz de impedir Áurea de retornar à metrópole. Essa vontade de se reencontrar com o velho estilo de vida alimenta o filme, sempre guiado pelo ponto de vista da protagonista Fernanda Torres.
Ao lado da filha, Fernanda Montenegro faz o tempo todo o contraponto, apresentando um personagem prático e distante dos sonhos. O cantor e músico seu Jorge (cujo personagem Massu, em idade avançada, é vivido por Luiz Melodia) é o elemento masculino desta vida selvagem.
O diretor Andrucha Waddington fez seu filme mais pessoal e rigoroso, sem o apelo musical do documentário "Viva São João" nem o humor de "Eu Tu Eles". Por isso, a obra exige mais do público e talvez alcance menor sucesso de bilheteria, apesar da qualidade de sua produção e roteiro.
(Neusa Barbosa, do Cineweb, especial para a Reuters)