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03/08/2005 - 22h55
"Trabalhar com abortos nos EUA é tão heróico quanto ser bombeiro", diz diretor Todd Solondz em entrevista exclusiva
THIAGO STIVALETTI
colaboração para o UOL

O cineasta independente americano Todd Solondz, 45, gosta de provocar o espectador com temas que ele não espera ver na tela. Seu primeiro filme, "Bem-vindo à Casa de Bonecas" (1995), mostrava todo o inferno na vida de uma adolescente suburbana que era o patinho feio da família.

O público brasileiro passou a conhecê-lo com o sucesso de seu segundo longa, "Felicidade" (1998), Prêmio do Júri na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O painel de personagens infelizes e desajustados do filme incluía uma jovem fracassada no amor e na carreira e um pai de família pedófilo.

O terceiro, "Histórias Proibidas" (2001), que trazia John Goodman no elenco, reunia duas histórias que desmascaravam a farsa do politicamente correto na sociedade americana. Os personagens fazem um esforço patético para varrer para baixo do tapete seus preconceitos contra negros, latinos e deficientes físicos.

Solondz acabou de visitar o Brasil como convidado do Festival Internacional de Cinema de Brasília, que se encerrou no domingo (31). Ele veio apresentar "Palíndromos", seu último filme. Leia a seguir a entrevista concedida ao UOL por telefone:

Em seu último filme, "Palíndromos", a protagonista é uma garota de 13 anos que quer engravidar a qualquer custo. Por que você decidiu mostrar essa situação?
Todd Solondz -
Os Estados Unidos são o único país do mundo onde a pessoa que trabalha com abortos é vista como um herói, da mesma maneira que os policiais ou os bombeiros. Meu filme é apenas uma resposta a sinais como esse que eu capto na sociedade americana.

Seus filmes se passam em geral nos subúrbios americanos. Como você vê esse universo e o compara às grandes cidades?
Solondz -
Passei metade da minha vida no subúrbio e a outra metade na cidade grande. A maioria esmagadora dos americanos vive nos subúrbios, portanto a pergunta certa seria "por que não fazer filmes passados lá?". O personagem americano por excelência é um suburbano. E é preciso lembrar que o crime, as drogas, a gravidez na adolescência e todos os problemas que se associam à cidade grande estão também nos subúrbios.

Os seus personagens guardam sempre um certo traço melancólico. Você se inspira em outros artistas americanos que trabalham com a melancolia?
Solondz -
Meu trabalho não tem muito a influência de artistas que eu considero admiráveis. Cresci no subúrbio em Nova Jersey, perto de Nova York, vendo televisão. Posso falar de filmes, livros e arte, mas foi a TV que permeou a minha infância como nenhuma outra arte.

Você gosta de lidar com o grotesco em seus filmes. Acha que o espectador está menos preparado para esse tipo de abordagem?
Solondz -
Não vejo as minhas histórias como grotescas. Muita gente me pergunta por que faço filmes com personagens tão feios, mas para mim eles não são feios. O que tento é expor uma certa verdade sobre o comportamento e a experiência humanos. Talvez os instrumentos que eu uso para isso sejam desconfortáveis para uma parcela do público. Meus filmes são concebidos para provocar, não de uma forma sensacionalista ou superficial, mas com uma certa profundidade.

Você acredita que os americanos ficaram mais conservadores depois do 11 de Setembro?
Solondz -
Temos que esperar os próximos 10, 20 anos para analisar bem. As coisas não parecem boas agora, mas na verdade elas nunca parecem boas em nenhuma época.


03/07/2009