SÃO PAULO (Reuters) - Um ano depois de ser premiado em Gramado, o drama "Filhas do Vento" entra em circuito comercial em São Paulo e no Rio de Janeiro na sexta-feira. O longa-metragem, que ganhou oito prêmios no festival, entre eles melhor filme e diretor, marca a estréia na ficção do documentarista Joel Zito Araújo.
Estrelado por um dos maiores e mais competentes elencos de atores negros dos últimos tempos no cinema nacional, "Filhas do Vento" foge dos papéis estereotipados que esses atores são obrigados a fazer em cinema em TV. Neste filme, nenhum deles é marginal, escravo ou empregado da patroa branca.
Na verdade, um dos pontos centrais do filme mostra uma atriz veterana negra, chamada Cida (Ruth de Souza), que, apesar de conseguir sucesso, só teve esse tipo de papel nas novelas em que trabalhou.
A irmã de Cida, Ju (Léa Garcia), por sua vez, preferiu ficar no interior de Minas, cuidando do pai e depois dos filhos e netos, acompanhando a carreira da irmã de longe. Quando jovens, as duas tiveram uma briga séria envolvendo o pai, Zé das Bicicletas (Milton Gonçalves, também premiado no festival), e um namorado, o que estimulou Cida a ir embora da cidade.
O roteiro de Di Moretti (o mesmo de "Cabra Cega") traz um feito raro no cinema: centrar-se numa história protagonizada por mulheres que acompanha duas gerações de uma família.
Quando jovens, as irmãs são interpretadas por Taís Araújo e Thalma de Freitas, ganhadoras do prêmio de atriz coadjuvante no festival.
A segunda geração da família apresenta Selminha (Maria Ceiça), filha de Cida, que fez uma carreira militar de sucesso, mas agora enfrenta problemas com o namorado casado (Jonas Bloch) que não quer deixar a família.
A filha de Ju, Dorinha (Danielle Ornellas), quer seguir os passos da tia e ser estrela de TV, para decepção da mãe. Para isso, mudou-se para o Rio e raramente visita a família.
Essas quatro mulheres vão se reencontrar quando Zé das Bicicletas morre, e será preciso acertar as contas do passado para não comprometer o futuro da família.
REALIDADE INVADE FICÇÃO
Ao contar a trajetória da atriz negra que triunfa apesar dos preconceitos, Joel Zito Araújo faz referência à trajetória real da própria atriz Ruth de Souza, relegada a papéis de coadjuvante no passado. O diretor também usou o tema como um dos assuntos principais de seu famoso livro, "A Negação do Brasil", base de seu documentário homônimo.
Investindo na vertente do melodrama, "Filhas do Vento" pode ser parecido com uma telenovela, à primeira vista, mas um olhar mais detalhado destaca a sofisticação do filme ao tratar do racismo velado que existe no Brasil.
Com isso, busca a aceitação dos atores negros em papéis de heroínas e heróis românticos que muitas vezes lhe foram negados, tanto na televisão, quanto no cinema.
(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)