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29/09/2005 - 16h32
Documentário resgata trajetória de Vladimir Herzog; veja fotos e trailer

São Paulo (Reuters) - Como o próprio cineasta João Batista de Andrade ("O Homem Que Virou Suco") deixa claro na introdução, "Vlado -- 30 Anos Depois" é um filme extremamente pessoal. O documentário, que estréia nesta sexta em São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Porto Alegre (e na próxima semana no Rio de Janeiro), conta a trajetória do jornalista Vladimir Herzog, de quem o diretor foi amigo e colega de trabalho.

João Batista afirma que o filme é uma dívida, "um filme que deveria ter sido feito há muito tempo". Longe de ser panfletário, o cineasta faz um registro emocionado de um homem que representou muito não só para a imprensa brasileira (foi diretor de jornalismo de TV Cultura, editor de cultura da revista "Visão", entre outros trabalhos), como também para o fim da ditadura militar no Brasil.

Herzog foi morto em 25 de outubro de 1975, após ser violentamente torturado no DOI-CODI (órgão da repressão política do regime militar). A versão oficial sustentava que Vlado, como era chamado pelos amigos, se suicidou -- o que não é verdade, conforme foi provado anos depois.

Embora existam algumas imagens de arquivo ilustrando a época e os acontecimentos, "Vlado -- 30 Anos Depois" encontra a sua força no depoimento de diversas personalidades que foram amigas do jornalista, além da viúva Clarice Herzog. São sempre depoimentos emocionados de pessoas que sentiram na pele os horrores de lutar para livrar o país da ditadura.

Momentos de tensão e dor vêm à tona com depoimentos de jornalistas como Paulo Markun, Alberto Dines, Mino Carta, Fernando Morais e Sérgio Gomes. Todos lembram os horrores da repressão vigente depois do AI-5.

Markun conta, entre outras coisas, o quanto era difícil não fraquejar ao saber que sua mulher estava sendo torturada na sala ao lado. Muitos concordam que ver amigos torturados é tão doloroso quanto ter o seu corpo agredido.

A morte de Vlado aconteceu num momento de alta tensão na vida política brasileira, quando houve um acirramento da luta interna de duas facções militares: de um lado, os generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, que estavam no poder e prometiam distensão; de outro, os representantes da repressão, tendo à frente Sílvio Frota, que eram totalmente contra a idéia da abertura.

Contando desde a infância difícil na Iugoslávia, de onde Herzog, de origem judaica, teve de fugir com a família, "Vlado -- 30 Anos Depois" chega ao ápice no ato ecumênico que reuniu diversos setores da sociedade paulista e cerca de 8 mil pessoas na Catedral da Sé, em São Paulo, uma semana depois da morte do jornalista.

No dia 31 de outubro de 1975, realizou-se o que foi caracterizado como um ato silencioso contra o regime. O documentário apresenta imagens inéditas do evento, que mostram líderes religiosos como o cardeal D. Paulo Evaristo Arns e o rabino Henry Sobel realizando o ato ecumênico, que representava toda a sociedade pedindo paz.

"Vlado -- 30 Anos Depois" é até limitado enquanto cinema -- na maior parte do tempo é uma câmera enquadrando os entrevistados. Mas é exatamente o que essas pessoas dizem que torna o filme poderoso. São testemunhos de uma época obscura de nossa história que merece ser lembrada e mostrada àqueles que não a viveram.

João Batista pergunta a meia dúzia de pessoas na Praça da Sé, em São Paulo, nas primeiras cenas do filme, se elas sabem quem foi Vladimir Herzog. A maioria não sabe. Um entrevistado chega até a dizer que a ditadura deveria voltar. "Vlado -- 30 Anos Depois" faz, assim, um grande serviço ao Brasil ao recuperar a memória histórica do que pode acontecer num regime de força e exceção.

IMAGENS ANÔNIMAS

Em um bate-papo informal com a imprensa depois da apresentação do filme em São Paulo, o diretor João Batista contou que não sabe quem registrou as imagens, de muito boa qualidade, aliás, do ato ecumênico.

"Começamos a produzir o filme em março. No início de maio, foram mandados para a minha casa, por alguém que não se identificou, alguns rolos com as imagens do ato da Catedral da Sé", explica.

Os depoimentos foram todos gravados em câmera digital -- mesmo suporte no qual o filme será exibido -- com uma câmera pequena e leve que propiciou maior intimidade entre diretor e entrevistados. "Eu estava a um palmo de distância das pessoas", conta o cineasta. "Queria essa aproximação que facilitava também o envolvimento emocional."

Como se pode perceber pela ausência de logotipos de patrocinadores no início do longa, "Vlado -- 30 Anos Depois" foi feito com dinheiro do próprio diretor. A distribuidora Europa Filmes entrou com a parceria na finalização e garantiu a distribuição do documentário em DVD.

Todos os entrevistados são amigos de João Batista, que, além de trabalhar com Herzog na TV Cultura, filmou um roteiro escrito pelo jornalista, e que acabou premiado em Gramado.

"Eles sabiam que falavam com alguém que conhecia o assunto, podiam falar do lado emocional, das experiências pessoais. Não precisavam contar a história como a gente faz para quem não está familiarizado com o assunto", explica.

(Alysson Oliveira, do Cineweb, especial para a Reuters)


31/01/2013