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13/10/2005 - 16h58
Meirelles capta universo de Carré em "Jardineiro Fiel"; veja fotos e entrevista com o diretor

Por Kirk Honeycutt

HOLLYWOOD (Hollywood Reporter) - Os romances de John le Carré têm tramas densas envolvendo espionagem, corrupção moral e forças do mal que operam em várias partes do mundo. Quando transpostos para o cinema, frequentemente perdem força: as tramas ficam gravemente truncadas e as nuances se perdem. Diretores tentam extrair dos livros trechos "cinematográficos", mas é difícil separá-los da textura da vida dos personagens e do comportamento detalhado dos vilões, governos e multinacionais. "O Jardineiro Fiel" é uma feliz exceção.

Uma razão disso pode ser a inspirada escolha do brasileiro Fernando Meirelles, indicado ao Oscar por "Cidade de Deus", para dirigir a adaptação. Seu estilo de direção impressionista e guerrilheiro funciona surpreendentemente bem para capturar a urgência hipnótica da ficção de Le Carré.

Além disso, seu ponto de vista é mais terceiro-mundista e menos britânico. Existem momentos estranhos, provocados pela obrigação de passar correndo por uma trama cheia de detalhes. Além disso, os personagens periféricos não ganham vida completa. Mas "O Jardineiro Fiel" capta toda a essência da história de Le Carré.

Com Ralph Fiennes e Rachel Weisz à frente de um trabalho inequivocamente apaixonado, o filme parece ser perfeito para entrar na corrida pelo Oscar. A bilheteria deve ser boa, mas sem valer ao filme o status de blockbuster.

Assim como o romance, o filme começa com a morte de uma das personagens principais. A incansável ativista política Tessa Quayle (Weisz) é encontrada morta, brutalmente assassinada, num local isolado do norte do Quênia. Seu marido, mais velho do que ela, é Justin (Ralph Fiennes), um diplomata de carreira ligado ao Alto Comando Britânico em Nairóbi mais preocupado em cuidar de seu jardim e manter as aparências.

De início, Justin recebe a notícia com o sangue-frio de um verdadeiro aristocrata britânico. De fato, é seu sócio, Sandy Woodrow (Danny Huston), e não Justin, quem vomita quando vê o corpo mutilado de Tessa no necrotério. Sua reação é complicada pelas indicações que o assassinato pode ter sido um crime passional, já que o médico queniano (Hubert Kounde) com quem ela viajava desapareceu e é dado como o principal suspeito do crime. Então Justin começa a fazer descobertas que podem fundamentar os boatos sobre outras infidelidades de sua jovem esposa. Entretanto, o que ninguém na comunidade britânica de Nairóbi esperava era o amor profundo que esse homem ainda sente pela mulher que não chegou a conhecer muito bem, já que seu casamento durou tão pouco.

A história avança de maneira não linear, e Justin passa a empreender uma busca ferrenha por uma explicação para a morte de Tessa. Então, em flashbacks, ele começa a examinar mais de perto quem foi de fato sua mulher. À medida que confronta o que tinha evitado enxergar, se aproxima de Tessa, começa a compreender seu ponto, entender o que importava para ela e a amá-la ainda mais.

Essa odisséia o arrasta para o mundo obscuro das multinacionais farmacêuticas, ou "farmas", como são conhecidas as gigantes do setor. Tratam-se de organizações com recursos e poder econômico tremendos, praticamente nações, que não pensam duas vezes antes de testar drogas novas nas miseráveis populações do Terceiro Mundo.

A investigação de Justin sobre o que pode ter levado alguém a mandar matar sua mulher o conduz até um território assustador e sinistro, onde as pessoas não se sentem mais seguras sob o sol do meio-dia do que na escuridão misteriosa da noite.

Ele visita Kibera, a maior favela da África subsaariana. Em Londres, o governo britânico confisca seu passaporte. Ele viaja a Berlim com passaporte falso para entrevistar o assustado diretor de um grupo de fiscalização das farmas. Voltando ao Quênia, confronta pessoas que têm sangue nas mãos, e depois vai ao Sudão, onde encontra refugiados vivendo em condições aviltantes. A viagem chega ao fim no local estranhamento belo onde sua mulher morreu.

Vale observar que, apesar de o governo queniano ter feito muitas críticas ao livro e ao filme, o mesmo governo autorizou Meirelles a rodar o filme em seu território.

A maior decepção do filme acontece quando Justin enfrenta vilões, espiões, criminosos, empresários corruptos e funcionários desonestos de Sua Majestade. Eles são representados por atores maravilhosos como Bill Nighy, Pete Postlethwaite, Nick Reding e Gerard McSorley. No entanto, são tipos demasiado familiares. Com certeza realmente correspondem à realidade, mas John Le Carré -- cujo livro é adaptado para a tela pelo roteirista Jeffrey Caine -- é capaz de criar personagens dotados de bem mais sutileza e mais dimensões.

O que desvia nossa atenção de tudo isso é o estilo fascinante de Meirelles, que cria um ritmo instigante. Voltando a trabalhar com o diretor de fotografia César Charlone, o diretor superexpõe algumas cenas, produzindo uma espécie de branco sobre branco. Enquanto isso, as favelas e aldeias, assim como acontecia com a favela em "Cidade de Deus", são um festival de cores profundamente saturadas. A câmera salta e tenta focalizar, como se o filme estivesse sendo rodado por uma equipe de documentaristas. O pano de fundo é dado pela música de Alberto Iglesias, contendo ecos de rock africano.


07/11/2009