Por Kirk Honeycutt
HOLLYWOOD (Hollywood Reporter) - Em "Flores Partidas", que estréia nesta sexta-feira, o roteirista e diretor Jim Jarmusch envia o herói, interpretado com o costumeiro desembaraço por Bill Murray, a uma viagem de carro por sua vida -- um pacote que inclui a visita a quatro cidades onde ele deve encontrar seus antigos amores.
A jornada é quase cômica, por vezes ultrajante, perturbadora e um tanto surreal.
Jarmusch fez, de fato, um de seus filmes mais comerciais, que capitaliza a presença de Bill Murray com um interessante time de estrelas: Julie Delpy, Sharon Stone, Frances Conroy, Jessica Lange e Tilda Swinton.
"Flores Partidas" poderia tirar Jarmusch do time das artes, mas seus admiradores podem questionar a abordagem excessivamente convencional do filme. Todavia, a viagem é mais da metade da diversão, uma vez que os atores parecem interpretar com gosto seus personagens.
O que leva Don Johnston, personagem de Murray, a uma viagem de volta à sua vida é uma misteriosa carta que chega em um envelope cor-de-rosa à sua casa, na mesma manhã em que sua amante, Sherry (Julie Delpy), está escrevendo uma nota de adeus. De fato, os créditos de abertura nos levam a um minidocumentário sobre qual o caminho percorrido por uma carta nos Estados Unidos até chegar a seu destinatário. Mas quem será que a enviou e de onde?
Na carta, uma ex-amante anônima diz que ele tem um filho de 19 anos que em breve deve procurá-lo. Cinco candidatas podem ter postado a carta.
A vida amorosa de Don faz com se refiram a ele como Don Juan. Por sinal, ele está vendo "A Vida Privada de Don Juan" na TV, enquanto Sherry faz as malas. Isso é intrigante, mesmo para um hedonista com frequentes necessidades eróticas, que faz lembrar o estudo da letargia que Murray fez em "Encontros e Desencontros". Don raramente deixa seu quarto.
Seu vizinho de porta, Winston (Jeffrey Wright), um etíope de família grande e instintos naturais de detetive, sugere que ele procure saber quem enviou a carta. Quando Don falha na tarefa, Winston recorre à Internet para localizar suas mulheres. Uma delas morreu, mas Winston coloca Don em uma viagem para confrontar as outras quatro.
Don protesta, mas acaba cedendo e faz a viagem rumo ao passado, ainda que com sérias restrições. E o filme se afasta de qualquer realismo.
CENAS DE COMÉDIA
Considere essa premissa: talvez um homem possa ter se relacionado com cinco diferentes mulheres, todas aproximadamente ao mesmo tempo, 20 anos antes. Mas o que é estranho é que todas vivem em diferentes cidades. O que era ele, um caixeiro-viajante?
Há trechos de extrema comédia. Laura (Sharon Stone) é uma viúva que nunca perdeu sua sensualidade e estilo de vida pouco convencional. E ela tem uma filha (Alexis Dziena), que mais do que mereceria ter o nome de Lolita. Laura tem comida pronta e cama quente para Don mesmo antes de ele perguntar se Lolita tem algum irmão.
Dora (Frances Conroy), por sua vez, abandonou sua vida hippie para se tornar uma burguesinha artificial, membro do time dos casados que vivem em uma verdadeira casa modelo.
Dra. Carmen (Jessica Lange) é uma médica que vê pacientes com animais problemáticos, com uma relação mais do que suspeita com sua assistente (Chloe Sevigny).
Quanto a Penny (Tilda Swinton), digamos apenas que o encontro é breve e violento, sugerindo que mais do que um resíduo de mágoa sobreviveu após 20 anos.
Some-se a isso o fato de que as mulheres não poderiam ser mais diferentes umas das outras. Talvez "Flores Partidas" seja um filme a respeito de um homem que não consegue descobrir qual mulher faz realmente seu gênero.
O filme, feito em Nova York e Nova Jersey, usa locações que, a exemplo de "Estranhos no Paraíso", de Jarmusch, poderiam ser em qualquer lugar. De modo que não se pode saber onde estamos nem descobrir quem é Don Johnston. A viagem a seu passado não revela absolutamente nada sobre ele, apenas faz surgirem perguntas sem resposta sobre as mulheres.
Cada episódio leva uma atriz a desenvolver uma performance total, em contraste com o sonolento personagem de Murray. Não que Murray não faça rir. A cara que ele faz quando Winston parabeniza Don por ser pai não tem preço.
Mas o filme leva esse Don Juan dos subúrbios ao lugar onde ele começou -- um cara solitário que anseia por algo que não pode alcançar. Será que ele alcançará um dia?
Para um filme como esse, a cenografia e o figurino têm uma participação importante na composição dos personagens, e a equipe de Jarmusch fez um excelente trabalho. A música também desempenha seu papel, quando Winston dá a Don um CD para sua viagem que contém o que pode ser chamado de jazz de detetive.