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15/12/2005 - 18h30
Documentário "Sou Feia mas Tô na Moda" mapeia o funk carioca; veja fotos

SÃO PAULO (Reuters) - O documentário "Sou Feia Mas Tô Na Moda", que estréia em São Paulo e Rio de Janeiro nesta sexta-feira, promove um passeio pela história do funk carioca, destacando a presença e a importância das mulheres no movimento.

Durante cerca de um ano, a diretora Denise Garcia e sua equipe percorreram bailes cariocas e no exterior, acompanhando o trabalho de diversos MCs (mestres de cerimônia) e coletando depoimentos de pessoas ligadas à cena e pesquisadores.

O filme conta o início do funk, inspirado no Miami Bass, gênero dos anos 1980, e passa pela transformação dos bailes violentos em bailes do prazer.

Chamados de "Lado A/Lado B", os bailes violentos eram marcados por corredores de briga, que dividiam o público em dois lados, e terminavam, muitas vezes, com a morte de participantes. Esse cenário mudou com os bailes que priorizavam a dança e as músicas com temas sexuais, os bailes do prazer.

"Sou Feia Mas Tô Na Moda" é o título de uma das músicas de Tati Quebra-Barraco, que no filme aparece aos oito meses de gravidez se apresentando em bailes lotados, rebolando e cantando letras sensuais, como "69 Frango Assado" e "Guerreira", acompanhada pelo coro feminino da platéia.

Apesar da referência direta a Tati, a personagem principal do documentário é Deize Tigrona, conhecida também como Deise da Injeção, responsável pela primeira música com letras explícitas, a "Discurti", sobre a liberalização sexual das mulheres no funk: "Tira onda pra elas é viver de sacanagem / os gatinhos até gosta / mas tu sabe como é / se eles pagam motel / elas faz o que eles quer", diz a letra.

No filme, ela caminha pela comunidade de Cidade de Deus e explica as mudanças pelas quais o funk carioca passou, apontando alguns representantes do baile do prazer: Cidinho e Doca, Bonde Faz Gostoso, Gaiola das Popozudas, MC Catra, entre outros.

FEMINISTAS SEM CARTILHA

Segundo o olhar da diretora e de seus entrevistados, o funk colaborou para uma postura menos submissa das mulheres, que dão voz aos seus desejos e lutam pela igualdade de direitos, principalmente sexuais.

"É feminista sem cartilha", explica o DJ Marlboro durante os registros de uma visita a Paris.

Ícones do movimento, as funkeiras tornaram-se desejadas por homens e admiradas por mulheres. Elas desempenham a função de educadoras, alertando as jovens para a prevenção de doenças ou de uma gravidez indesejada, como na música "Ginecologista", do grupo Juliana e as Fogosas.

O filme afirma ainda que no funk não há preconceito, exemplo disso é o sucesso de Lacraia, dançarino travesti que se apresenta ao lado de MC Serginho ("Eguinha pocotó"). De acordo com Deize, um dos problemas enfrentados pelos funkeiros é a discriminação social dos que estão fora das comunidades.

Por fim, o documentário acompanha a internacionalização do funk, estilo que conquistou espaço na Europa, com apresentações de Marlboro no festival espanhol Sonar e em casas noturnas na França, Inglaterra e Eslovênia.

O DJ aparece ciceroneado pela dupla brasileira Tetine, que mantém um programa de rádio em Londres dedicado ao funk carioca e lançou neste ano o disco "Bonde do Tetão", coletânea de funks originais, que inclui uma versão para "Discurti".

(Por Fernanda Schimidt)


09/02/2010