UOL CinemaUOL Cinema
UOL BUSCA
65o. Festival de Veneza - 2008

04/05/2006 - 12h34
"Caché", com Juliette Binoche, traz família burguesa atormentada por segredo; veja trailer e fotos

Por Kirk Honeycutt

LOS ANGELES (Hollywood Reporter) - Michael Haneke, o diretor austríaco que em geral filma em francês, provavelmente rejeitaria a noção de que seu último filme é um thriller. Mas, com certeza, "Caché" funciona como um.

Ao desvendar um segredo quase esquecido na vida de um intelectual francês satisfeito consigo mesmo, Haneke mergulha fundo em questões envolvendo culpa, comunicação e amnésia deliberada.

Com Daniel Auteuil e Juliette Binoche, "Caché" estréia na sexta-feira e é um dos filmes mais acessíveis do diretor.

Auteuil interpreta Georges, apresentador de um programa da TV sobre literatura -- um homem, que ficamos sabendo mais tarde, nasceu em meio à riqueza e teve as coisas de modo muito fácil na vida.

Binoche interpreta sua mulher, Anne, que também tem uma carreira profissional movimentada como editora. O filho deles, Pierrot (Lester Makedonsky), encontra-se na difícil idade dos 12 anos e precisa mais ou menos se virar.

O que perturba a calma burguesa da vida dessa família é o envio anônimo de uma série de pacotes misteriosos e telefonemas vistos por Georges como ameaçadores. Os pacotes contêm fitas de vídeo gravadas secretamente a partir da rua da frente da casa confortável da família, sugerindo que eles estão sendo observados.

De forma gradual, as fitas e desenhos infantis que as acompanham dão pistas de coisas cada vez mais pessoais, coisas que levam Georges a acreditar saber quem é o autor das mensagens. Curiosamente, ele se recusa a compartilhar o que sabe com Anne. Com efeito, ele até tenta esconder isso, mas o observador secreto consegue desmascará-lo.

Isso provoca um grande constrangimento entre marido e mulher. O filho percebe o estranhamento e reage ficando fora de casa durante a noite inteira sem avisar os pais onde está. Os pais entram em pânico, achando que ele pode ter sido sequestrado pelo observador misterioso.

CULPA COLETIVA

Dar mais detalhes do enredo estragaria as surpresas, uma delas um tanto horripilante. No centro do mistério, repousa um ato cometido na infância de Georges na qual ele trai um menino argelino da sua idade. Isso volta agora para assombrá-lo.

Mas a sua reação, de novo curiosa, é negar-se a reconhecer qualquer culpa. Ele explode de raiva, briga com a mulher e acaba em prantos em determinado momento. Mas não aceita nenhuma responsabilidade pessoal.

Há algumas cenas com o círculo de amigos do casal, que parecem não ter conseqüência, mas falam de uma determinada complacência burguesa. O filme trata de maneira apenas indireta da questão da culpa coletiva francesa com relação à antiga colônia Argélia e o tratamento dispensado aos argelinos vivendo na França. Mas a questão étnica do conhecido da infância de Georges não é acidental.

O filme aparentemente foi filmado em vídeo, o que nos leva a ter dúvidas se a cena é a câmera observando o comportamento de Georges ou a fita de vídeo feita pelo vigia misterioso.

Dessa forma, Haneke repercute o tema de "Janela Indiscreta", de Hitchcock. Fazer filmes é em essência um ato de voyeurismo. Em segredo, examinamos a vida das pessoas em cada filme.

Neste, entretanto, há uma câmera escondida, um filme dentro do filme como se estivesse nos forçando a observar um personagem ao lado de um estranho misterioso.

A equipe de Haneke por detrás das câmeras faz um trabalho esplêndido ao evocar uma vida contente e plena que sofre uma transformação súbita.


27/11/2009