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21/12/2006 - 22h28
Bate-papo UOL: João Moreira Salles fala sobre o lançamento em DVD de "Entreatos"
Da redação

Divulgação

João Moreira Salles comentou o lançamento em DVD de Entreatos

João Moreira Salles comentou o lançamento em DVD de Entreatos

Documentarista João Moreira Salles conversou com internautas na tarde desta quinta-feira (21) sobre o lançamento em DVD de "Entreatos", um documentário que mostra os bastidores da campanha de Lula à presidência, em 2002.

Salles falou também sobre a revista "Piauí", em que jornalistas, escritores e humoristas brasileiros contam histórias sobre pessoas e fatos do país e do mundo.

Leia a seguir a íntegra da conversa que contou com a presença de 236 pessoas.

(06:02:51) flo: João, por que vc não quis lançar o "Entreatos" antes das eleições?
(06:03:04) Joao: flo a velha pergunta.... "Entreatos" foi exibido nos cinemas e ficou cinco meses em cartaz. Em seguida passou em quase todas as universidades do país. Nunca houve restrição quanto à exibição do filme. O que aconteceu é que na época do mensalão o PFL quis fazer uma projeção pública - e evidentemente política - do filme. Achei melhor dizer não.

(06:04:35) adri: Olá João, queria saber em qual número está a revista "Piauí"? E como está sendo a repercussão da revista?
(06:06:23) Joao: adri, a revista está no seu terceiro número. No dia 2 de janeiro chegará às bancas o quarto número. Estamos vendendo em torno de 25 mil exemplares em banca e já temos perto de 10 mil assinaturas. Esse resultado deixou o pessoal aqui da redação muito espantado - e feliz.

(06:06:29) lana: Oi João, quais são os colaboradores da revista "Piauí"?
(06:08:30) Joao: lana, são muitos. Assim de cabeça eu não saberia dizer o número certo. Tem gente de todas as idades. É isso que faz com que a revista seja tão variada. Acho muito difícil que qualquer leitor não encontre algum matéria que o interesse em qualquer número da "Piauí". Vamos de governo LuLa a videogame.

(06:08:44) carola: olá, João. Como foi acompanhar a campanha do presidente Lula?
(06:10:29) Joao: Interessantíssimo. É dessas coisas que só acontecem uma vez. A história passando diante de você, e você com a oportunidade de registrá-la. Gostando ou não do Lula, é inegável que aqueles dias de 2002 foram únicos na história do país.

(06:11:12) vika: qual o propósito de vc ter feito este documentário??
(06:12:49) Joao:Curiosidade, desafio. Repito: não é sempre que um documentarista tem uma oportunidade como essa. Às vezes a gente filma pela simples razão de querer testemunhar alguma coisa. Acho que foi por isso que eu filmei.

(06:12:56) paulo: li outro dia (não lembro onde) que a "Piauí" se assemelha à "New Yorker" só que com menos foco no jornalismo. O que vc acha dessa opinião, concorda?
(06:15:08) Joao: Não. Quer dizer, não concordo que ela se assemelhe a "New Yorker". Seria uma bobagem ter essa pretensão. A "Piauí" é uma revista brasileira que na medida do possível tenta refletir o seu tempo. Ela é muito mais anárquica do que a New Yorker. Na verdade, como ela não tem editorias fixas, ela tem a liberdade de ser inteiramente diferente a cada número.

(06:15:16) gmm: João, em entrevista você disse que não fará mais documentário. Para nós isso é uma grande perda. Por que você tomou essa decisão? Foi o trauma pós "Entreatos"?
(06:16:59) Joao: Divertido. Quer dizer que eu sou um traumatizado? Eu acabei de fazer um documentário. Nos próximos dois anos é provável que eu não faça mais nenhum mas isso só até que a revista se estabilize.

(06:17:02) Cine Cremoso: Os Filme Peões, do nosso mestre Eduardo Coutinho, é um filme irmão de "Entreatos"?
(06:18:17) Joao: É. Foram pensados juntos. Eu diria que "Entreatos" mostra o Lula sem as suas circustâncias; Peões, tem as circustâncias que produziram o Lula, mas não tem o Lula. Nesse sentido os dois filmes se completam.

(06:18:25) fadinha: Por quê "Entreatos"?
(06:19:51) Joao: Porque o filme é feito apenas com as cenas de intervalo da campanha. Ou seja, as salas de espera, os elevadores, os quartos de hotel, as viagens de avião. Não tem comícios, nem carreatas, que seriam os grandes atos de uma campanha. Por isso, "Entreatos".

(06:20:01) dudu: João, como voce acha que poderemos, no Brasil, aumentar a produção audiovisual sem incentivos governamentais? Será que a partir dos fundos privados? que tipo de incentivo existe hoje que nao sejam os oficiais?
(06:23:54) Joao: Os fundos privados podem ser um instrumento importante, mas só para um determinado tipo de cinema, aquele capaz de levar muita gente às salas. Isso é importante, mas é preciso levar em conta que existe um tipo de produção audiovisual que, por sua própria natureza, jamais terá êxito comercial. Para esse tipo de cinema - filmes de arte, a maioria dos documentários, etc - só mesmo incentivos fiscais. A questão é discutir se faz sentido ou não apoiar com recursos públicos um tipo de cinema que será sempre assistido por um número reduzido de pessoas. É uma boa discussão.

(06:24:02) flo: Li uma carta no nº 3 de um leitor reclamando do tamanho da revista. vcs pensam em repensar isso?
(06:26:20) Joao: Não. Acho (ou pelo menos espero) que as pessoas se acostumem com o formato. Uma banca de jornal tem perto de cinco mil títulos, todos do mesmo formato. O formato maior nos torna diferentes. Mas não é um formato novo. A Realidade era assim, a Manchete, e lá fora, o New York Review of Books.

(06:26:24) Cine: A sua revista "Piauí" pode ser considerada um documentário em papel?
(06:28:14) Joao: Talvez. No fundo eu continuo lidando com a não ficção e com o Brasil. Muda apenas o instrumento. Sai a imagem, entra o texto. Digamos que a mudança não representou uma viagem muito distante. Não mudei de continente, no máximo mudei de estado. Nem precisei de passaporte.

(06:28:26) gmm: João, por que a escolha do nome Paiuí? É uma contraposição a New York, ou seja, contra a cidade "mais rica", a cidade mais pobre? Isso não estigmatiza a revista?
(06:30:39) Joao: De jeito nenhum. A palavra "Piauí" foi escolhida porque ela é muito bonita. Pelo menos é o que eu acho. É uma palavra cheia de vogais, e como dizia o Gilberto Freire, as vogais amolecem as coisas. É a razão do nome. E porque nos chamamos "Piauí", nos obrigamos de vez em quando a cobrir o Estado. Já publicamos pelo menos três histórias sobre o "Piauí". Todas elas afetivas.

(06:31:05) RodrigoRPL: queria q vc falasse um pouco sobre a revista "Piauí"... qdo teve a ideia, como foi o convite das pessoas etc
(06:33:49) Joao: Tive a idéia há uns dois anos. De lá para cá discuti muito a "Piauí" com amigos jornalistas. Quando tomei a decisão de ir em frente, as primeiras pessoas convidadas foram meus interlocutores. Daí para frente, contratamos pessoas que eram diferentes de nós: mais jovens, com outros interesses, que pudessem trazer novas pautas. Veio gente de blog, veio gente da "Trip". A redação é muito variada, e essa é a graça de vir para cá todo dia.

(06:33:59) corupá: Como foi seu contato com a equipe do Lula para poder fazer o "Entreatos"?
(06:37:11) Joao: Três meses antes de começar a filmar, tive um encontro com o Lula. Eu não o conhecia. Em meia hora expliquei o projeto. Duas semanas depois, através de um assessor, ele mandou avisar que concordava. Quando as filmagens começaram, as negociações - pedidos de acesso, etc - já não eram mais com ele. A gente negociava com quem tinha a autoridade para nos abrir a porta. Às vezes era um secretário particular, às vezes era o Duda Mendonça, às vezes era um líder regional. As negociações eram constantes e a cada vez o interlocutor era diferente.

(06:37:24) Cine: vocÊ diria que existem registros de algum ato ilegal de qualquer político no material não divulgado de "Entreatos"?
(06:37:41) Joao: Não.

(06:37:53) Pri®...!!!! fala para Joao: Boa tarde. Eu sou do Piauí. Adorei a revista, não só pela opção do nome, mas pela linha editorial mesmo...mas me mate essa curiosidade: Voce conhece o Piauí?
(06:39:26) Joao: Boa. Fui ao Piauí uma vez, quando era muito menino. Eu tinha uns 11 anos e fiquei duas semanas. Não me lembro muito. Nós mandamos um repórter nosso a Terezina há dois meses. Ele ficou uma semana e trouxe boas histórias.

(06:39:38) Java: Me divirto um monte com a revista. Na de novembro, especialmente com a seção "Esquina". Mas às vezes me bate uma certa dúvida: é jornalismo ou pura ficção? (Por favor não ria da ingenuidade...)
(06:42:04) Joao: Sobre a seção Esquina eu posso falar com autoridade, pois sou eu que edito. Ali tudo é real. Um dos pré-requisitos para alguém escrever uma esquina é ir até o lugar e ter contato direto com o assunto em questão. Ou seja, não dá para fazer esquina no google.

(06:42:10) Ernesto: Seu irmão Walter disse em evento de lançamento de "São Paulo S/A" em DVD que a elite brasileira é caricata e por isso difícil de retratar nas telas sem que pareça ridícula ou surreal. Concorda com ele?
(06:46:34) Joao: Caramba! O Waltinho me põe em cada roubada. Olha, sei não. Eu tenho um certo receio das generalizações. Tem a elite caricata, mas também tem a elite sóbria. Do mesmo modo que a gente pode fazer um filme simplista sobre a pobreza, também corremos o risco de simplificar demais as pessoas que detém o poder econômico e político no país. Tudo é sempre mais complexo.

(06:46:45) Duda: Você pensa em fazer os últimos 30 dias do governo Lula em 2010?
(06:47:37) Joao: Adoraria. Assim eu teria filmado os 30 dias que antecedem o poder, e os 30 últimos dias de poder. Seria interessante.

(06:47:59) Barbie: Depois de tantos escândalos envolvendo as pessoas que acompanhavam Lula, vc acha que o filme ainda pode refletir uma realidade?
(06:48:36) Joao: Sem dúvida. Basta assistir. Nesses três anos o filme virou outra coisa.

(06:48:43) Flô: Sei que você se interessa muito por política, tanto que os filmes da Coleção VideoFilmes são na sua maioria documentários políticos. Com base nisso, acredito que sua opinião sobre o futuro do nosso país tenha peso pra muita gente. Você acha que o Brasil tem jeito ou tá tudo perdido?
(06:50:04) Joao: Se eu soubesse aplicaria na bolsa. Realmente não faço idéia. Agora, a torcida é para que dê certo. Mas leva em conta que eu sou botafoguense. A gente está acostumado a não ganhar.

(06:50:10) cassavetes: João, vc filma a chegada do primeiro partido e governante de esquerda no Brasil. Vc acha que a conjuntura atual (agora depois do primeiro mandato) desse governo com as "enrrascadas" em que entrou refletem algum tipo de postura política? Daria outro documentário os mensalões e demais acusações de corrupção, além dos afastamentos de líderes de esquerda, como o Zé Dirceu?
(06:51:29) Joao: Acho que não. De certa maneira, o que se viu foi um governo que não conseguiu inventar algo novo. Ficou tudo muito parecido. E o que é parecido geralmente não rende documentários interessantes.

(06:51:42) Rodrigo: A "Piauí", por ser uma revista com pautas que têm a proposta de fugir do eixão Rio-SP e mostrar um pouco mais do Brasil continental, sem claro cair nos clichês de Brasil profundo, é uma forma de acreditar no país? De ter um pouco mais de fé nesse gigante, que muitos dizem adormecido?
(06:52:49) Joao: Fé eu não diria. Curiosidade sim. Talvez a curiosidade seja um modo menos edificante da fé.

(06:53:16) Carlos Albuquerque: João, diferentemente da eleição passada, esta última foi marcada por uma cobertura da mídia certamente desigual, o que fez com que seu filme recebesse, inclusive, outra avaliação. Como você imagina que será a recepção neste lançamento em DVD?
(06:55:20) Joao: Espero que as pessoas tenham curiosidade de saber como o Lula chegou ao poder. Não faz tanto tempo assim, mas é impressionante como as coisas mudaram. "Entreatos" registra o momento da inocência, quando o Lula ainda não tinha entrado em contato com as impurezas do poder.

(06:55:32) socorroacioli: João, você esteve em Aracataca para fazer uma pesquisa sobre García Márquez. Há algo em vista? Acabei de chegar de Cuba onde estive na oficina Como contar um conto, com Gabo.
(06:56:15) Joao: Eta! Alguém esteve lá dizendo que era eu. Nunca fui a Aracataca.

(06:56:56) fcelen: João, quem era o Lula para você à época do filme? Quem é hoje o Lula, do seu ponto de vista?
(06:59:01) Joao: O Lula de 2002 era alguém que chegava ao poder como ninguém antes na história do país. Por isso era interessante. Minha opinião era a de alguém que permitiu que um filme como o meu pudesse ser feito. Ponto para ele. O Lula de hoje eu não conheço. Minha opinão vale tanto quanto a tua.

(06:59:31) Joao: Muito obrigado e até o próximo número da "Piauí". Bom fim de ano.

(06:59:44) Geovanna-UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de João Moreira Salles e de todos os internautas. Até o próximo!


07/11/2009