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26/01/2007 - 17h23
Maias questionam "Apocalypto", filme de Mel Gibson sobre sua civilização
CANCÚN, México, 26 jan (AFP) - O comentado filme "Apocalypto", do diretor americano Mel Gibson, "é uma degradação do pouco que resta de nossa cultura", queixou-se um líder da etnia maia, enquanto a estréia do longa despertou elogios e críticas do público.

O filme de Gibson é "um jogo com o acervo cultural da etnia" maia, disse à AFP Feliciano Chan Ake, general maia que preside a instituição o Grande Indígena Maia A.C.

Chan Ake criticou ainda a participação de maias no filme rodado no sudeste do México.

"Para quem faz o filme, é um prêmio, um reconhecimento, dinheiro. Mas para os maias, nos fere. Quem vende nossa cultura, vende nossas crenças, vende nossa gente", acrescentou o líder maia do estado de Quintana Roo, onde se situa o famoso balneário de Cancún.

Participaram das filmagens de "Apocalypto" pelo menos 12 indígenas maias, entre eles Isidra Hoil, de apenas 8 anos, que interpretou uma menina afetada por uma doença contagiosa que pressagia o fim da grande civilização peninsular.

Totalmente falado em maia, o filme conta a história de um jovem que, após ser capturado, consegue fugir e reencontrar a família. A trama é entremeada por cenas sangrentas e muito violentas, que se sucedem durante as mais de duas horas de projeção.

Sobre os sacrifícios humanos exibidos no filme, o dirigente maia sentenciou que foram muito exagerados.

"Existiu, sim, um tipo de sacrifício às divindades, mas os maias são pacíficos, não buscavam lutas, embora seja certo que não se deixaram dominar pelos espanhóis ou pelos astecas. O maia é livre", afirmou.

Ele explicou que o conselho que preside integra uma organização nacional que abrange 56 etnias do México, sustentando que em Quintana Roo "há cerca de 10.000" maias. Embora tenha dito que também existem outros, ele lamentou que "nem todos busquem preservar o pouco que nos resta de nossos acervos". A estréia do filme em Cancún foi um sucesso absoluto, mas muitos espectadores concordaram com as críticas sobre o tratamento dado à cultura maia, enquanto outros o consideraram apenas "um bom filme de ação".

"Viemos por curiosidade porque é o filme da moda", disse à AFP Francisco Tun Tuz, que disse ter gostado do filme como uma produção hollywoodiana, embora tenha se queixado da violência e da má dicção da língua aborígine.

Devido a que sua língua natal é o maia, Tun Tuz assegurou que só a menina e o velho da tribo "falam verdadeiro maia, os outros tentam, mas não dão a entonação adequada, não alongam as vogais onde devem fazê-lo".

Ele insistiu que o filme "é pura ficção, nada histórico, é um filme mais comercial, nada que nos eduque sobre nossas raízes".

Rolando Pérez, outro espectador, lamentou que "com a riqueza, a complexidade da cultura maia, o filme se centre apenas em um aspecto sanguinário de nossos ancestrais".

"O sentido bélico dos maias foi engendrado quando fizeram contato com os toltecas, mas sua cultura foi muito mais rica e significativa", disse, opondo-se às cenas de violência.

Na capital mexicana, os espectadores divergiram sobre a superprodução, qualificando-a simplesmente como "uma porcaria" ou "muito realista". "É uma porcaria, apresenta os maias como animais. Ou Mel Gibson é incompetente ou queria nos denegrir", disse, indignado, à AFP Luis Galicia, ao sair de uma sessão no primeiro dia de exibição.

Para Marco Gonzalez, ao contrário, o filme "é a verdade, é muito realista. Se você ler os livros, (verá) que foi assim, não há por que se escandalizar", acrescentando que "todos os sacrifícios tinham uma justificativa".


31/01/2013