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23/02/2007 - 19h07

Sem favorito para melhor filme, Oscar pode ir para "Miss Sunshine"

Rubens Ewald Filho,
colaboração para o UOL

Divulgação

Cena de Pequena Miss Sunshine

Cena de Pequena Miss Sunshine

Não custa repetir: o Oscar é um prêmio honesto. Pode ser com freqüência injusto, mas não pode ser comprado, nem por dinheiro, nem por negociação. Simplesmente porque os votantes nunca se encontram, votam secretamente na casa de cada um, pelos quatro cantos do mundo, inclusive no Brasil, onde temos votantes como Fernando Meirelles, Walter Salles, Hector Babenco, Bruno Barreto e César Charlone. Ou seja, não acontece como no Congresso, ou num júri de festival, onde se pode parlamentar e chegar a um acordo tipo toma-lá-dá-cá.

O prêmio reflete sempre o inconsciente coletivo da Academia naquele determinado momento. Por isso é tão difícil de prever. As campanhas publicitárias podem ajudar apenas a tornar o filme conhecido, mas há regras estritas a seguir, impedindo presentes que possam ser vistos como suborno. Este ano até os presentes para os apresentadores foram proibidos, já que estavam sob suspeita do Imposto de Renda. No máximo, disponibilizam os DVDs para cada um poder assistir em casa o filme que não viu nas salas de cinema.

Não se pode desprezar a dificuldade de assistir a tantos filmes. Então os votos são com freqüência dados por simpatia, amizade ou exclusão. Continua a ser difícil explicar a derrota de "O Segredo de Brokeback Mountain" em 2006, a não ser por um inconfessado preconceito que estaria sendo "reparado" agora pela escalação para mestre de cerimônias de uma lésbica assumida como a excelente comediante Ellen DeGeneres. São coisas de um clube fechado como a Academia.

Este ano a mesma coisa pode se repetir porque simplesmente não há um favorito para melhor filme. "Babel" seria, pela lógica, o filme que tem panca e ambição para uma premiação dessas. Mas além de longo, foi pouco visto e um fracasso comercial nas salas de cinema. "Os Infiltrados" já perdeu seu momento e deve se contentar com o prêmio para Martin Scorsese pela direção, e talvez roteiro e montagem. "A Rainha" é um filme menor, muito bem-feito, mas que carrega a pecha de parecer feito para a TV. "Cartas de Iwo Jima" é legendado (falado em japonês) e também foi ignorado pelo público. Resta o que parecia azarão, "A Pequena Miss Sunshine", que levou o prêmio do Sindicato dos Produtores (o que é muito signifcativo), foi sucesso e está em DVD há alguns meses, ou seja, todo mundo deve tê-lo assistido. Além de tudo isso, é divertido, simpático, independente e original. Ou seja, pode ser ele a surpresa.

Melhor ator

A vitória de Forest Whitaker por "O Último Rei da Escócia" parece certa depois de levar todos os prêmios até agora. Além de ser um bom ator e uma pessoa querida pela comunidade cinematográfica (inclusive como diretor), Whitaker pode receber o prêmio como correção de uma injustiça histórica, porque ele não foi sequer indicado por "Bird", de Clint Eastwood, que lhe deu o prêmio de ator em Cannes em 1988.

"Vênus" é certamente o canto do cisne do ilustre Peter O`Toole, que está frágil e doente. Ele já levou um Oscar especial e deve passar à historia como o maior perdedor de todos os tempos. Mas seu trabalho é obra de mestre num filme delicado sobre a velhice, que nunca é um tema popular. Ryan Gosling é um jovem promissor mas ninguém deve ter visto seu filme inédito no Brasil, "Half Nelson", independente e difícil, no qual ele faz um professor viciado em crack, barra-pesada e desagradável. Will Smith confirmou seu prestigio e simpatia com "À Procura da Felicidade", que só existe e deu certo por causa dele e sua popularidade. Não tem fôlego para ganhar mas vai acumulando pontos para uma vitória daqui a certo tempo. Por fim, um filme que caiu nas graças dos brasileiros mas foi ignorado pelos americanos, "Diamante de Sangue", deu a indicação a Leonardo DiCaprio. Ele teve a infelicidade de concorrer contra si mesmo (em "Os Infiltrados"), mas deve estar contente porque finalmente limpou sua barra. Não é mais o galãzinho de "Titanic" e sim um ator sério e competente.

Melhor atriz

Outra barbada: Helen Mirren por "A Rainha", merecidamente, porque é uma atriz esplêndida. Além de interpretar Elizabeth 2ª no longa dirigido por Stephen Frears, este ano também teve forte presença num telefilme em que fez o papel de outra rainha Elizabeth, a 1ª. O que há de notável nessa categoria é que este ano houve ótimos papéis femininos, e algumas atrizes ficaram de fora, como a excelente Annette Bening em "Correndo com as Tesouras". Todas as indicadas têm grandes interpretações: "dame" Judi Dench por "Notas sobre um Escândalo" (ela nem vai à festa, será operada do joelho, mas esta talvez seja sua melhor atuação no cinema); Meryl Streep (recordista de indicações) por "O Diabo Veste Prada"; a espanhola Penélope Cruz por "Volver", que lhe deu o papel de sua vida, e a sempre excelente Kate Winslet por "Pecados Íntimos".

Coadjuvantes

Também parece certo que os vencedores serão dois atores negros, ambos por "Dreamgirls - Em Busca da Fama". O melhor ator deverá ser Eddie Murphy, que nunca havia sido indicado por nada antes -- em parte porque fez muito filme ruim, em parte por ser antipático e alérgico à imprensa. Mas, depois de 25 anos de carreira, parece estar em seu grande momento, fazendo um personagem calcado no recém-falecido James Brown. Concorrem com ele o veterano Alan Arkin ("Pequena Miss Sunshine"), Jackie Earle Haley, que foi ator juvenil e depois ficou anos esquecido, por "Pecados Íntimos", e o ótimo ator africano Djimon Hounsou ("Diamante de Sangue"). Finalmente, há uma indicação absurda para Mark Wahlberg em "Os Infiltrados".

Jennifer Hudson é a estreante que deve levar o prêmio de atriz coadjuvante, com uma história de Cinderela. Rejeitada no programa de calouros "American Idol", ela aparece em "Dreamgirls" fazendo um solo de lamentação e dor. Jennifer tem um certo encanto ingênuo e desajeitado que talvez não dê margem a novos papéis de qualidade. Mas neste momento ela parece imbatível. Competem ainda a menina Abigail Breslin ("Miss Sunshine"), cuja naturalidade foi confundida com interpretação; a mexicana Adriana Barrazza ("Babel"); a sempre excepcional Cate Blanchett ("Notas sobre um Escândalo"), que só não deve ganhar porque foi premiada há dois anos e parece estar em tudo o que é filme recentemente. E ainda há Rinko Kikuchi ("Babel"), prova de que fazer pouco ou quase nada sempre resulta bem.

Diretor

Como foi dito, Scorsese deve levar o prêmio, até porque fez seu melhor filme em muitos anos. Concorre com Clint Eastwood, que já foi premiado demais, com o inglês Paul Greengrass, que dá um show em "Vôo United 93", mas é um filme que pouca gente viu; o mexicano Alejandro González Iñárritu ("Babel"), e o sempre menosprezado Stephen Frears ("A Rainha"). Se Scorsese perder de novo, vai virar piada e a Academia não gostaria disso. Seus membros se levam muito a sério.

Filme estrangeiro

As regras mudaram, mas a Academia continua fazendo bobagem, como prova o esquecimento do espanhol "Volver", de Pedro Almodóvar. É fraco o francês "Dias de Glória" (que concorre pela Argélia). Seu feito mais notável foi ter conseguiu corrigir injustiças com as pensões dos veteranos de guerra na França. Mais fraco ainda é o dinamarquês "Depois do Casamento", de Susanne Bier, realizado em digital. "Water", de Deepa Mehta, é um caso estranho porque foi feito por uma diretora indiana que se naturalizou canadense. Concorre pelo Canadá, mas é todo passado na Índia. Sua história é triste e bonita, mostrando que ainda resistem tradições religiosas pelas quais viúvas são condenadas a serem mortas-vivas ou até queimadas junto com o marido. O Oscar deve ficar com um dos dois outros concorrentes -- o mexicano "O Labirinto do Fauno", de Guillermo del Toro, que tem contra si o fato de ser quase um filme de terror, e o alemão "As Vidas dos Outros", de Florian Henckel von Donnermarsck, que descreve como os habitantes de Berlim Oriental eram vigiados pela polícia secreta e presos a qualquer pretexto -- uma história perturbadora e muito bem contada.

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