Em entrevista ao jornalista Marcelo Tas, atriz Dira Paes faz um paralelo entre a profissão mais antiga do mundo e a do ator. Afirma que a prostituta e o ator tem um quê suicida. "Suicida no bom sentido. Que se atira e não sabe o que vai acontecer. Essas mulheres não têm idéia de quem será o próximo cliente. Elas se lançam ao mundo. Na dramaturgia é a mesma coisa, você lê o roteiro, mas nunca sabe como será na hora de gravar".
A desenvoltura com que Dira Paes fala das prostitutas vem do laboratório para compor a personagem Dora, prostituta de "Baixio das Bestas", novo longa de Cláudio Assis que estréia nesta sexta (11). Por causa do filme, Dira Paes freqüentou um bordel e passou a entender a necessidade das "pessoas comuns" que se tornam prostitutas --profissão, em sua opinião, necessária para a sociedade. "Elas deveriam carteira assinada e a profissão regulamentada", afirma.
Apesar de ter trabalhado muito mais no cinema do que na televisão, Paes ganhou destaque com a personagem Solineuza, de "A Diarista", da Globo. Além de "Baixio das Bestas", os trabalhos mais recentes na telona foram "Dois Filhos de Francisco", "Ó Pai, Ó" e "A Grande Família".
Leia a seguir a
íntegra do bate-papo que contou com a participação de 1071 internautas.
(05:33:07) Marcelo Tas: alo meninada, sejam bem vindos, por favor digam de onde teclam, vamos começar........
(05:35:27) Dira Paes: Obrigada por ter me convidado. São 26 filmes ao todo. E o meu último filme é "A Festa da Menina Morta". Eles têm uma mistura, são leves e mais engajados em um cinema reflexão e atitude.
Eu nasci em Abaetetuba, cidade de meus pais, mas fui criada em Belém. Eu dei sorte de começar em "Floresta das Esmeraldas", pois me deu a bagagem inicial para começar a minha carreira no Rio de Janeiro.
Eu acho que eu que tenha o maior número de filmes rodados da minha geração, pois me dediquei a vida inteira e tenho me dedicado. Quem me acompanha sabe que eu sempre fiz cinema. Em "O Boto" eu fiz o meu primeiro filme brasileiro. Foi em 86, quando teve um significado definitivo para eu decidir ser atriz.
Eu fiz pouca televisão em minha carreira. Em "A Diarista" estou há mais tempo. Fiz muito cinema fora do eixo Rio-São Paulo onde consegui fazer uma gama de diretores que desejavam trabalhar comigo. Eu sou produtora executiva associada de alguns filmes, é uma maneira de viabilizar a produção. Tenho 22 anos de carreira e 26 filmes, isto me dá um alicerce, um chão.
O Cláudio Assis é muito sincero, não faz concessões. Não deixa de falar para agradar alguém. Em sua arte isso se expande de maneira maravilhosa. Em "Baixio das Bestas" eu estou encantada com o cinema dele. Acho importante ver a outra face da moeda, um cinema engajado. "Baixio" mostra a degradação da terra e a degradação do homem. Um paralelo da terra e o homem.
Baixio é uma depressão geográfica. Tem um lugar que ficava na fronteira de Pernambuco, Ceará e Bahia que se chamava Baixio das Bestas. Depois foi mudado o nome deste lugar. Baixio é toda a vez em que se está entre montes. Mas tem a ver com o filme. Um baixio é um lugar onde nada acontece. Um lugar comprimido, de falsa esperança.
Acho importante não ficar imune ao que acontece ao seu redor. Quando isso acontece é porque você desistiu de alguma coisa. Eu sou inquieta. O que me paralisa me faz ter vontade de mudar. Eu não sou uma pessoa que acha que tudo acabou. A vida é outro enlevo. É preciso ficar atento para não ser engolido. É preciso que abra espaço, que expanda para ver o que tem de bom.
(05:48:57) Vitor: O que te atrai no cinema de Cláudio Assis?(05:52:26) Dira Paes: Vitor, o Cláudio Assis é contundente. É uma prática de pessoas eloqüentes. Como o Glauber era de certa forma. Ele é muito carinho, concentrado... Sabe o que faz e o que não quer. Ele quebra o contrato social dizendo apenas "olá". O cinema dele é corajoso e sem concessões. Ele pensa sua arte como resultado da sua formação social.
O trailer é do Beto Brant. Foi filmado na Zona da Mata. É um maracatu rural. Com os agroboys, a cada sábado, é uma loucura. Em um sábado atropela uma pessoa ou taca fogo em um índio, uma barbárie. Sobre minha infância, não acredito mais em cidade pequena, qualquer cidade é metrópole. Uma pessoa que comete uma barbaridade contra a outra deve pagar limpando as latrinas, fazendo serviço social, trabalhando com suor. Tem que ter uma revisão do que seria uma prisão para fazê-los trabalharem por nós. Mas não sou a favor da pena de morte.
(05:53:38) Dira Paes: Sobre estupros em Baixio, que aparecem são dois. Aqueles atos que tocam são os que estão na cabeça das pessoas. Como a sugestão de um avô explorando uma menina de 11 anos. Você se coloca no lugar do avô.
Quando se fala do Nordeste se fala do sertão. A cana-de-açúcar explora os cortadores de cana há mais de 300 anos. Eles não têm opção. Continuam sendo escravos. O filme faz o ciclo da cana e nestes quatro sábados acontecem as orgias e brincadeiras dos agroboys.
(05:49:07) Vitor: Ainda não tive acesso ao filme "Baixio das Bestas", mas na época do Festival de Brasília muito se falou de uma cena de estupro da qual você participa. É mesmo uma cena forte como disseram? Você aceitou o papel de imediato ou pensou mais calmamente? Por quê?(05:57:34) Dira Paes: Vitor, eu pensei calmamente porque vinha de um volume de trabalho muito grande. Eu sabia da dificuldade de fazer este personagem. Depois eu achei que tomei a decisão certa de fazer este filme pela qualidade dos atores e do filme. Achei que me dava o direito de fazer uma coisa mais contundente. Esta cena tem um desgaste emocional e físico, mas neste caso foi feito com tanto cuidado que quem assistir vai perceber o que estou querendo dizer. Estou nua, mas não aparece e tem bordaduras.
(05:50:34) Aninha: Diraaa.. Fala com aquela voz igual da Diarista!!! vc imita algum artista ?? Imita aí pra gente verr !! menina vc eh show de bolaa!!!(06:01:27) Dira Paes: Aninha, se eu confessar que sou muito tímida... Tem que ser dentro daquela caixinha. Todo o ator tem o seu palhaço escondido dentro de si. Uma das técnicas de ator é deixar que o seu palhaço se aflore. Se for fazer um curso de palhaço verá que só tem um dentro de você. O perfil da Marinete já estava definido, então resolvi fazer a burrinha. Mas queria trazer para a Solineuza uma coisa brasileira. Aquilo de ficar feliz porque fez a unha. E acabou dando certo por ter uma lógica infantil e ao mesmo tempo acabou tendo aquele espaço, é a burra, mas decora o texto em uma tarde. Sobre A Diarista não tenho o que reclamar, pois dá para fazer um trabalho menor. Enquanto faço outros filmes.
(05:50:45) MINGO-PE: Por que o filme não entrou no Festival PE?(06:02:08) Dira Paes: Mingo, o Cine PE tem capacidade para 3.000 pessoas por noite. Então acabaria com metade dos telespectadores.
(05:51:31) tryste_anjo: ola tudo bem? Olha sobre esse filme q fala de um tema forte, como vc fez pra conseguir entrar no papel, fez algum laboratório antes ou coisa parecida?(06:05:56) Dira Paes: Tryste_anjo, tive que fazer um laboratório sim. Cada ator tem o seu jeito. Eu estive no baixo meretrício na Zona da Mata onde pude freqüentar um bordel que a meninas trabalhavam. Como Dira, para não me expor. Existem vários motivos para se tornarem prostitutas. Em um panorama normal as pessoas que se prostituem são pessoas normais. A maioria se prostitui porque são mães muito jovens. Já havia feito uma prostituta meio fictícia antes em "Incuráveis". Existe um quê de suicida em uma prostituta assim como em um ator. Mas no bom sentido. É aquele que se atira, isto é, não sabe o que vai acontecer. Eu me identifiquei com aquele "se lançar no mundo". Estas pessoas têm riqueza de vida. As prostitutas são necessárias em uma sociedade. E não se pode fechar olhos para isso. Tem que regulamentar.
(05:54:54) Thais: Dira, você não acha que o filme é um pouco apelativo? Eu assisti e achei que a intenção era realmente chocar, mas achei que poderia ser um pouco mais sutil! O que você acha dessa apelação?(06:07:27) Dira Paes: Thais, acho que é para ser apelativo no bom sentido da palavra, não é gratuidade. É para causar o incômodo da reação. Neste sentido acho bom que exista. Em momento algum acho bom isto sendo gratuito. Um filme bom não é só aquele te divertiu, que te fez rir ou ficou ficar emocionado. É também aquele que te deixa inquieto.
(05:57:37) erick: erick caldas novas goias! Dira sua personagem Sol é d+! tenho uma amiga q a apelidamos d poia! Emocionei muito com sua personagem Dona Helena, do filme "Dois Filhos de Francisco", e queria saber o q vc faz pra se preparar para seus diversos personagens?(06:09:52) Dira Paes: Erick, eu procuro perceber o universo ao redor dos meus personagens. Então tudo o que vem para o personagem é o olhar de vivência. Em "Dois Filhos..." eu optei por não conhecer a Dona Helena. Quis fazer um tipo de mãe universal. Com o sentimento de uma mãe com os seus instintos divididos entre os dez filhos. Com a essência de maternidade. Como o Francisco era o louco visionário, alguém tinha que ter o pé no chão. A Dona Helena deve ter uns 60 anos. E quando a encontrei, ela me abraço e quando ela saiu disse para a filha: "filha, eu era assim".
(06:01:57) Marcelo: Drica acompanhei seus trabalhos nos filmes , neles acho que você sempre mostrou uma ótima atuação , porém sinto que nas novelas você ainda não teve um papel que marcasse, minha pergunta é Você acha que os autores acham que você é mais para cinema, do que para a televisão? o que você pensa disso?(06:11:13) Dira Paes: Marcelo, sabe que eu não sei. Talvez sim. Eu fiz a segunda versão de "Irmãos Coragem" como a Potira. E não fiz mais novela. Vamos ver se vai pintar um personagem para mim. Eu nunca busquei em minha carreira ou ansiei por estrelar uma novela. Eu sempre fui para onde os bons personagens me levaram.
(06:06:54) Ednilson: Dira você é uma grande atriz, mas na "A Diarista" você é demais, qual será o seu novo trabalho, já está definido?(06:12:16) Dira Paes: Ednilson, continuamos neste ano com a Diarista. Em cinema, tenho alguns projetos indefinidos. Estou em cartaz em "Ó Pai, Ó", "A Grande Família" e agora "Baixio das Bestas".
(06:10:11) DrupH: O que vc aprendeu com o personagem do novo filme, a prostituta Dora?(06:13:40) Dira Paes: DrupH, o que aprendi é que ela é vítima de si mesma, assim como nós. É uma pessoa que tem ambição e vontade de acontecer a qualquer custo. Nós não sabemos o que é certo ou errado, mas sabemos quando temos um desejo ruim que é passar por cima das pessoas. Minha personagem de certa forma queria e teve o que quis.
(06:10:45) Simone: vc poderia falar um pouco do filme "Ó Paí Ó"?(06:16:23) Dira Paes: Simone, eu faço a Psilene, que é uma baiana que vai ao exterior e volta com uma mão na frente e outra atrás. Ela finge que teve uma experiência maravilhosa e se deu bem, mas é só para impressionar os outros. Todo ator quer o desafio da versatilidade, ninguém gosta de ficar batendo na mesma tecla. Em o "Baixio das Bestas" é um desafio. O "Ó Pai, Ó" me deu um desafio incrível. Foi um sucesso estrondoso. O Lázaro Ramos me convidou. E o meu personagem deu certo porque ela é dali e ao mesmo tempo não é mais. É um filme que mostra a alegria e a baianidade que a gente conhece e dá uma pincelada no Pelourinho.
(06:11:40) ítalo: Dira você é otima atriz de drama. Vc mostrou isso em "Dois Filhos de Francisco", e também é maravilhosa em comédia. Prova disso é a pôia da Solineuza. Dira Qual é o seu tipo de personagem preferido?(06:19:36) Dira Paes: Ítalo, é difícil falar. É como se desvirginar. Você se despudoriza, acaba vivendo o seu ridículo, como em Solineuza. Esta série foi para mim uma pós-graduação, um mestrado. Eu nunca fiz um personagem próximo de mim nestes 26 filmes. O mercado tenta te localizar e eu tentei fugir disso ao fazer filme no Brasil inteiro. O que eu vejo é que a minha paciência estabeleceu o que eu sou realmente. A versatilidade. Eu quero ser uma atriz brasileira. O meu tipo físico demorou em ser enquadrado no cenário brasileiro. Você vê abertura para negro, por exemplo, mas não vê para índio.
(06:12:17) nandagv: qual o filme que vc mais gostou de fazer e qual deu mais trabalho em compor a personagem?(06:20:28) Dira Paes: nandagv, "Corisco e Dadá", que foi filmado no sertão do Cariri, ali era uma situação inóspita que fez com que tivéssemos muito controle de nossa integridade física.
(06:14:04) botero: Sou seu fã. Além de versátil e heroína do cinema, você é uma das mulheres mais lindas do Brasil. Tenho dito.(06:14:15) Aninha: Meninaa !! que corpão hein ?!!!(06:15:20) luan: TAMBEM ASSISTI O FILME ,MULHERES DO BRASIL E VC DA UM SHOW DE INTERPRETAÇAO(06:21:11) Dira Paes: luan, muito obrigada.
(06:17:18) zuza: Vc vai para a grande família definitivamente ou será só uma pequena participação? (06:22:07) Dira Paes: zuza, foi uma pequena participação que muito me honrou. Porque fui convidada pelo Maurício para fazer a colega de repartição com o Lineu e contracenar com o Marco Nanini me fez me sentir inspirada. E qualquer participação em "A Grande Família" seria uma honra.
(06:19:45) Adriana/UOL: Caros internautas, infelizmente não é possível publicarmos todas as mensagens que estão sendo enviadas ao convidado. O número de participantes é muito grande. Agradecemos a compreensão de todos. Tenham um bom papo.(06:20:53) Fã da padaria: Qual foi o seu papel mais difícil de encontrar o ponto certo, isto é, o personagem dentro de você?(06:23:05) Dira Paes: Fã da padaria, o personagem difícil de encontrar é aquele que não tem um objetivo. É aquele passivo e é muito difícil de fazer. Às vezes uma participação é mais difícil do que um personagem inteiro. Em "A Grande Família" foi difícil.
(06:21:13) Fernanda M: Dira, vc sonha em fazer cinema fora do Brasil?(06:24:50) Dira Paes: Fernanda M, eu não sonho em fazer um cinema fora do Brasil, mas desejo fazer ótimos personagens. Eu estou estudando espanhol. Falo francês e inglês. Fiz filmes para a TV francesa e a BBC de Londres.
(06:22:40) Baiano Fã N.1: Oi,, Polha!!! sou seu fanzão aqui da Bahia e queria saber se vc tem raízes aqui,parentes, sei lá, pois em "Ó paí, Ó" vc tava mais baiana do que nunca minha linda, beijão!(06:25:46) Dira Paes: Baiano, eu não tenho parentes em Salvador. Não fiz curso de baiano, mas fiquei com o ouvido bem atento. Ali foi difícil também. Mas o difícil é não se doar. Como diz o poeta: "dar não dói, o que dói é resistir".
(06:22:54) AILTON: Olá Dira, vc chegou a participar de alguma produçao ainda no Pará? Como andam as produções por lá? Ainda deixam a desejar em relação às do Sudeste?(06:26:36) Dira Paes: Ailton, ainda não, mas o Pará recebeu a visita de grandes cineastas. Eu fiz um filme em 97 chamado Lendas Amazônicas onde faço um episódio de "O Boto".
(06:23:43) Vitor 1: Nos últimos anos você vem mesclando trabalhos em um cinema mais popular ("Dois Filhos de Francisco", "Ó Pai Ó", "A Grande Família") e filmes mais alternativos (Baixio das Bestas, Incuráveis, Celeste e Estrela). Você acha importante essa mistura na sua carreira? Por quê?(06:24:36) Vitor 1: Você tem um biotipo que, se não tivesse cuidado, poderia facilmente ser uma atriz marcada por papéis como de índias, por exemplo. Mas, você tem uma coleção de personagens diversos. Como você acha que conseguiu isso? E até hoje você ainda é muito chamada para fazer índias (no cinema ou na tv)?(06:28:33) Dira Paes: Vitor 1, acho que sim, pois tenho que abranger o meu cenário cultural. Não posso ficar acomodada em uma grande distribuidora e fazer só filmes que alcancem o grande público. Sou uma jovem velha atriz pois ainda quero conquistar muita coisa na vida. Não sou chamada para fazer índias, não dá para ficar me repetindo. Não preciso e tenho a possibilidade de escolher. Eu tenho negado. É tão bom aprender a dizer não. Não digo para convites, mas para se colocar.
(06:25:24) Geraldo: De onde você tirou aquela expressão que a Solineusa faz com as mãos quando está ansiosa?(06:29:38) Dira Paes: Geraldo, eu acho que toda mulher quando está afetada faz isso. A Solineuza tem uma coisa de gay e uma coisa de infantil. Tem muitas coisas que eu não falo, é o corpo dela que fala. Por exemplo, ela tem o pescoço duro, ela não vira.
(06:26:20) bibi: Dira tenho que sair mais fica um grande beijo pra vc e sorte(06:29:28) karolayne: sou sua fan numero 1.pede a marinete pra ter mais paciencia contigo rsrsrsrsrsr(06:30:48) anna: adoro a diarista(06:31:14) Dira Paes: Obrigada, e quero agradecer a todos que participaram. Recebo isto com carinho e muito amor no coração.
(06:31:25) Adriana/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Dira Paes e de todos os internautas. Até o próximo!