O diretor participou do Bate-papo UOL desta segunda (15) para conversar com os internautas e com o jornalista
Marcelo Tas sobre o filme estrelado por Gael García Bernal,
"O Passado". Conservando certo tom de indignação, Hector Babenco disparou: "Cansei da minha indignação. Quero ser mais sábio, menos gladiador".
"Filmes não tem poder terapêutico. Queimei meu pavio da indignação. O Brasil não muda, por isso quero falar das coisas que importam para mim. Tenho 60 anos, dei minha cota de sacrifício em uma arte polêmica e engajada. Nem leio mais jornal. Só a capa para ter idéia do que acontece no mundo e, vez ou outra, o obituário para me divertir. Agora só me interessa o gesto poético, o belo. Afinal, só a arte fica. O resto, a barbárie do homem come", afirmou ainda ao comentar suas produções passadas, em especial "Carandiru".
Entre outras coisas, Babenco contou como se aproximou e convidou o astro mexicano para ser o protagonista da película, criticou os atores que fazem parte da "geração gatorade" e jogou lenha na briga Argentina e Brasil ao dizer que "a barbárie brasileira é muito mais divertida que a chatice argentina".
O nono, mais pessoal e feminino filme de sua carreira abre a 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e, segundo o próprio, conta a história de como homem e mulher lidam com a separação quando ela é consensual; fala também do amor que permace apesar do rompimento.
Leia a seguir a
íntegra do bate-papo que contou com a participação de 223 internautas.
(08:17:06) Marcelo Tas: Entre outras coisas estamos aqui para falar do novo filme dele: "O Passado", com Gael García Bernal e Analia Couceyro. Filme que abre a Mostra Internacional de Cinema de SP no próximo 18 de Outubro. Estréia em todo país dia 26 deste mês de Outubro.(08:17:55) Hector Babenco: Muitas mulheres, todas muito gostosas, muito talentosas. Estréia dia 18 de outubro. Ele tem um gênero e história que eu nunca havia contado antes. É uma surpresa porque ele trás uma proposta em seu tema muito inusitada, um tema nunca antes abordado.
(08:19:21) Marcelo Tas: Babenco, consta que o filme nasceu num momento difícil para você. Sua mãe doente em Buenos Aires. Numa das idas e vindas você comprou o livro de Alan Pauls no aeroporto. A história amorosa de um homem que amava várias mulheres... O que exatamente te fisgou na leitura do livro?(08:23:34) Hector Babenco: Quando eu compro um livro para ler não estou procurando situação para filme e sim porque eu gosto de ler. Sou de uma geração que cresceu lendo, não tinha TV a cabo e só vi televisão quando tinha 12 anos. Também não sou nenhum maluquinho da leitura. O Alan Pauls havia feito uma entrevista comigo uns anos antes e por isso me interessei quando vi o livro. No filme a separação em vez de ser a consequência da história é o começo da história. Ele começa com um casal dizendo que viveram juntos por 12 anos e estão se separando, mas de uma forma ajuizada. Foram morar juntos aos 20 anos, uma coisa de descoberta de juventude. E a partir da separação o filme começa e aí começa o inferno na torre. Esta mulher não consegue aos poucos ir aceitando a possibilidade de que aquele homem com quem ela construiu uma relação se separasse. E vai se desvairando de uma forma inesperada, causando sempre uma pequena tragédia doméstica no momento existencial do seu ex.
(08:34:15) Geovanna/UOL:
O cineasta Hector Babenco conversa com Marcelo Tas antes do início do Bate-papo (Derek Sismotto/UOL) (08:25:16) Marcelo Tas: Rimini é um homem arrastado por uma correnteza de amores, de mulheres lindas e fortes. Sofia, Vera, Carmem. Aparentemente, ele que deixa suas mulheres. Mas a gente percebe que o tempo todo ele é que é o controlado por elas. A única mulher que dá o pé na bunda dele é a menos interessante de todas. Uma perua de academia...(08:25:21) Marcelo Tas: O filme, que é estupendo, mostra o quanto nós homens somos primitivos em relação as mulheres. Não há o que fazer senão nos entregar? Nosso destino é totalmente controlado por esses seres incríveis e poderosos, las mujeres?(08:29:01) Hector Babenco: Eu esperava outra pergunta. Acho que o personagem do Rímini é um homem como nós, só que muito mais jovem. Na Argentina ainda há um resquício muito forte de uma educação conservadora, diferente do Brasil, é difícil que o Rímini aconteça em São Paulo. O filme lida com arquétipos, ele se separa da ex uma herança amorosa. Mas respondendo a pergunta, eu achava que era uma história que conta como permanece o amor na mulher e no homem quando acaba uma relação, a partir do momento em que um casal decide racionalmente se separar. No livro não há broncas de separação como traição. Então fala do amor que permanece no futuro deles separados. Ela continua o amando, mesmo sabendo que não o tem mais. Em nenhum momento ela reclama o retorno, mas de qualquer forma ela aparece constantemente para perguntar a ele como ele tem a ousadia de continuar vivendo com outra pessoa.
(08:30:20) Marcelo Tas: Sempre temos em mente que a ex é a materialização do demo, do ódio, do antagonismo, do conflito... No filme, você parece querer dizer que pode ser a permanência do amor, com todas os suas dores e delícias.(08:32:01) Hector Babenco: Eu nunca tive uma mulher assim. Eu percebo que as mulheres estão sempre se referenciando ao ex com todos. Eu nunca fiz isso. Para elas nós ficamos vivos muito mais tempo porque nós ficamos no mundo do real enquanto elas ficam no mundo do inconsciente. Elas não ficam com a gente, mas sabem com quem estamos saindo. Eu me lembro de estar com uma pessoa e a minha ex-mulher me ligou às 4h da manhã em Nova York. Não consegui fazer nada naquela noite. Eu não sei o que acontece, nesta história eu sinto que os homens se identificam muito enquanto que não sabem como acontece.
(08:38:33) Geovanna/UOL:
Hector Babenco fala sobre o filme "O Passado" (Derek Sismotto/UOL) (08:32:20) Marcelo Tas: Sem dúvida alguma, é o seu filme mais feminino, mais sensível. Há alguma virada na sua vida que possa ser atribuída esse momento na vida artística?(08:36:56) Hector Babenco: Não. Durante muito tempo eu fui muito motivado, meu fogo se acendia muito, digamos que o meu signo era a indignação. Sempre tinha a ver com a exclusão, com o homem sem limites. Me cansei porque vejo que o Brasil não melhora e os filmes não têm poder terapêutico nenhum. Cansei e resolvi mostrar um pouco mais do meu lado sensível, me colocando mais como homem, minha idade, sensibilidade e vontade de ver o mundo. Quero falar das mulheres com carinho, de coisas que são mais importantes que as injustiças que existem neste mundo e não vão me levar a nenhum lugar. O Brasil vai continuar o mesmo, vai explodir a qualquer momento porque é um bujão de gás sem tampa. Então resolvi falar de coisas que para mim são importantes. Quanto a indignação, eu não leio mais nada, só a página de cultura e o obtuário para me divertir um pouco. Só me interessa o belo, a arte, o cinema, a música, a dança. A mim só interessa o gesto poético, a arte. O resto, a bárbarie do homem come. Agora quero ser mais sábio e menos gladiador.
(08:36:59) Marcelo Tas: Como Gael entrou no filme?(08:43:33) Hector Babenco: Sobre o Gael García Bernal: Um dia li no jornal que ele estava fazendo o Garcia Lorca e o convidei para tomar um café. Falei sobre o roteiro e que não sabia se ele seria o ator, que não o conhecia, apenas vi o seus filmes. Ele disse que se interessava. E quatro meses depois ele me pediu o roteiro, mas não enviei. Nos encontramos em Buenos Aires, conversamos e ele leu o roteiro e disse que estava disponível independente de qualquer coisa. Perguntando porque ele queria fazer o filme, ele respondeu que o que interessava era o diretor, pois aos 14 anos os pais haviam o levado para assistir "Pixote".
(08:37:56) Hector Babenco: Sobre Moro Anghileri (a Vera do filme): Ela é linda de morrer, um tipo bem argentina, moreninha argentina que mistura um pouco do branco com um pouco do italiano. Muito boa atriz.
(08:37:55) Marcelo Tas: O personagem principal deveria ser Rodrigo Santoro? E Betty Faria, não ia ser uma das mulheres? Conte um pouco porque o filme, com exceção de Gael e Paulo Autran, se tornou um filme de atores argentinos, excelentes por sinal?(08:41:12) Hector Babenco: O Rodrigo Santoro é o único ator que não é tão velho, nem faz parte da "geração gatorade", ele tem a idade ideal para o personagem, um homem jovem. Aliás, pra mim quando o personagem está na academia é a depressão, a falta de interesse absoluta, a decadência dele. Voltando ao Rodrigo, vi que não havia espaço na mente dele para ser fisgado por absolutamente nada naquele momento, ele estava deslumbrado, no bom sentido, com a história da sua participação no "Lost". Nosso relacionamento continuou maravilhoso e o trabalho dele é bárbaro.
(08:46:14) Geovanna/UOL:
Hector Babenco fala sobre a participação de Paulo Autran em "O Passado" (Derek Sismotto/UOL) (08:43:16) Marcelo Tas: Confirma que ele vetou Penelope Cruz? Por quê?(08:44:59) Hector Babenco: Ele não vetou. Chegamos ao acordo que ela iria descaracterizar o filme. Nós queríamos conservar o filme não tão com cara de enlatado, não filme de dupla, que não fosse tão gritante. Ela ficou louca com o roteiro e com a possibilidade de trabalhar com o Gael. Foi muito difícil para mim dizer não para ela.
(08:30:38) Minguita: Em "El Passado", nosso querido Paulo Autran encerra com chave de ouro uma carreira cinematográfica brilhante. Como foi dirigir o mestre no último trabalho?(08:49:12) Hector Babenco: Era um sonho trabalhar com o Paulo. Eu sabia que ele estava doente. Era um sonho reprimido, mas não tinha papel. Só tinha um professor aloprado que falava coisas sem nexo. A conferência era uma desculpa narrativa apenas para que o Rímini estivesse com as três mulheres, era um ringue super legal. Então convidei o Paulo para fazer o filme, mas não havia personagem. E ele respondeu que não existe história sem personagem. Isso me interessou na hora. Eu disse queria um personagem entre o do professor aloprado do Jerry Lewis e o Jacques Tati. Ele preferiu este último e se vestiu e inventou a forma de andar e de se vestir.
(08:30:59) Presente: Sonia Braga fez carreira internacional após "O Beijo da Mulher Aranha"... Alguns atores brasileiros têm sido chamados para atuar lá fora. O q vc acha desse intercâmbio?(08:51:09) Hector Babenco: Presente, não é um intercâmbio. Quando um ator vai trabalhar lá fora tem que ser muito cuidadoso porque lá não é entretenimento, é arte. A Sonia Braga teve um papel infeliz lá fora, fui subaproveitada, sempre fazendo papel de rameiras etc. O Gael tem trabalhado internacionalmente, mas tem escolhido muito bem os projetos assim como o Rodrigo Santoro. Depende de sua capacidade de escolha, não há regras para nada.
(08:50:23) Geovanna/UOL:
Paulo Autran participa do filme "O Passado", de Hector Babenco (Divulgação) (08:31:09) Oaxiac Ddéz: Com filmes como "Lucio Flávio, Passageiro da Agonia" e "Pixote, a Lei do Mais fraco", vc foi pioneiro na temática de sucessos de hoje como "Tropa de Elite", "Carandiru" (com sua direção) "Cidade de Deus" e "Cidade dos Homens". Vc tem outro roteiro nesse estilo em vista?(08:51:41) Hector Babenco: Oaxiac Ddéz, não só não tenho como não pretendo mais visitar estes territórios.
(08:39:07) Minguita: Jack Nicholson, Meryl Streep, Daryl Hannah, Willlian Hurt, Raul Julia, Fred Gwynne, Norma Aleandro, Gael García Bernal e muitos outros astros estrangeiros atuaram sob sua direção. Tem muita diferença entre trabalhar no Brasil ou em Hollywood?(08:54:08) Hector Babenco: Minguita, filmes hollywoodianos são produzidos e gerados por grandes empresas de Hollywood como Warner, Disney etc. Estes filmes que fiz com estes atores são independentes, feitos em inglês. Aliás, eu nunca fui empregado de Hollywood. Uma das coisas que me fez não ficar na América é que lá é muito difícil sobreviver. E não quis perder a minha liberdade para ter um emprego fixo, preferi manter a minha liberdade para poucos.
(08:52:26) euzinha: Babenco, na sua opinião, qual a principal diferença na maneira de homens e mulheres amarem?(08:55:35) Hector Babenco: euzinha, eu não sou um guru do amor, sou simplesmente um homem que passou por várias situações. Não tenho como te responder isso. Só digo que abençoo quem inventou vocês. A diferença que posso dar seria que eu tenho uma coisinha entre as pernas e vocês têm outra coisinha entre as pernas.
(08:54:08) Geovanna/UOL:
Hector Babenco e Gael García Bernal conversam durante as filmagens (Divulgação) (08:55:52) Marcelo Tas: Você nasceu em Mar del Plata na década de 40. Naturalizou-se brasileiro em 1977. Completa 40 anos de naturalidade verde-amarela este ano. Talvez seja a pessoa ideal para responder por que nós brasileiros não só somos ignorantes como nos orgulhamos da nossa ignorância em relação à América Latina?(09:01:06) Hector Babenco: Eu me naturalizei para fazer o filme "Lúcio Flavio". O fato de ter sido colonizado pelos portugueses e não pelos espanhóis já é uma grande diferença. Os portugueses nunca tiveram um plano político de ocupação. O Brasil tem uma peculiaridade que difere dos outros países que é a miscigenação e isto o torna muito melhor que os outros países da AL. Eu não estou perdendo o meu tempo revisitando a Argentina, mas também lá me faltava coisas que o Brasil me deu. Eu sou um exilado, que teve que se adaptar a outra situação. Eu nunca mais voltarei a ser apenas uma pesssoa, tendo duas nacionalidades.
(08:54:21) pollengo: O Hector, vi em uma entrevista que você concedeu a revista "Bravo!" dizendo que "os jovens brasileiros ao terminar a faculdade de Cinema, geralmente nao têm o que dizer". Qual seria o caminho alternativo para fazer cinema sem se perpassar pela universidade?(09:02:02) Hector Babenco: pollengo, lendo muito e vendo muito filme, se fazendo muitas perguntas e trabalhando e acordando cedo. Entrar em firmas e trabalhar carregando caixas de cinema, nada melhor do que o trabalho.
(08:59:48) Rimini: Hector, Parabéns! Sophia e Rimini repaginam o amor eterno, mesmo separados... Seria uma versão contemporânea de Romeu e Julieta da nossa era? Morrendo vivos?(09:03:11) Hector Babenco: Rimini, na novela eles terminam junto sangrando. No filme eles não acabam juntos, quis salvar os personagens...
(09:03:25) Hector Babenco: Obrigado a vocês...
(09:03:28) Geovanna/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Hector Babenco e de todos os internautas. Até o próximo!