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30/10/2007 - 19h03

"Enquanto existir o medo da morte, o terror viverá", diz cineasta José Mojica Marins no Bate-Papo UOL

Da Redação
O Bate-Papo com Convidados UOL desta terça-feira (30) recebeu, às 17h, o ator e diretor José Mojica Marins. Em conversa apresentada por Marcelo Tas, o cineasta falou da boa fase que vive em sua carreira e apontou a principal razão da resistência do gênero que o consagrou: "Existindo o medo da morte, o terror não acabará".

José Mojica concluiu em 2006 "A Encarnação do Demônio" - último filme de trilogia iniciada em 1964 -, finalizou este ano projeto da década de 80, "A Praga", e terá retrospectiva em sua homenagem em novembro, no CCBB, em São Paulo.

Em "A Encarnação do Demônio", o diretor contou com um orçamento alto, parte dele captada em Leis de Incentivo, e trabalhou com uma equipe jovem e renomada. Apesar de tantas novidades, Mojica garantiu que o filme é fiel ao seu estilo e que os profissionais respeitaram seu trabalho. "Eles aprenderam um tipo de cinema que não sabiam fazer", diz.

Famoso pelo personagem que criou no início da década de 60, Zé do Caixão, o diretor confessou que a maior fonte de inspiração de seu trabalho é a insônia - como toma muitos remédios para dormir, Mojica afirmou ser "um homem que vive de pesadelos" e que os anota, baseando os argumentos de seus filmes neles. Já seu único medo, o diretor confessou ser "o dia seguinte".



Leia a íntegra do bate-papo que contou com a presença de 617 internautas.

(05:23:22) José Mojica Marins: Boa tarde internautas...

(05:23:22) Marcelo Tas: Seu último filme como diretor havia sido "48 Horas de Sexo Alucinante" (1987). Agora, está previsto para Março de 2008, "A encarnação do Demônio", filme que completa a trilogia iniciada em 1964 com "À Meia-Noite Levarei sua Alma", seguido de "Esta Noite Encarnarei em Teu Cadáver", de 1967. É a seqüência da busca do personagem Zé do Caixão pela mulher perfeita para conceber um filho seu?
(05:25:10) José Mojica Marins: Foi o maior orçamento da minha vida. Juntando todos os filmes não daria o que foi gasto em "Encarnação do Demônio". Dá impressão que houve desperdício, é que ela foi muito cuidada. Foram quase 20 dias segurando os figurantes, condução, comida. Isto de repente ficou caro. Eu tive os melhores técnicos e atores. A cena de um purgatório é meio estranha, diferente. É um purgatório de carne. O diretor de fotografia deu tudo o que tinha. Eu dei chance para muita gente.

(05:26:47) Marcelo Tas: A produção captou verba em leis de incentivo e trabalhou com orçamento de cerca de R$ 3 milhões, sendo rodada no fim de 2006. Essa quantidade de dinheiro não te assustou? Não vai prejudicar o filme?
(05:29:10) José Mojica Marins: Não, porque na realidade eu tive carta branca e todo mundo lutou para que eu fizesse filme como se fosse em 1966. De repente eu me vi voltando no tempo, tudo foi trabalho artesanal, da maneira que eu sei fazer, não usamos computador. Me senti rejuvenescido. A equipe achou que eu não aguentaria 20 dias, mas foi o contrário. Trabalharam 10, 12, 14 horas. E eram pessoas de 20 a 30 anos. O Paulo Sacramento de repente me falou que estava cansado. Aí eu trouxe a energia para as pessoas. Há quem ficou meses sem trabalhar e eu continuei, depois ainda fiz "A Praga", que está para ser lançada.

(05:29:09) Marcelo Tas: A Praga é um filme seu inédito que vai ser lancado agora. Como esta fita ficou perdida por tanto tempo?
(05:32:40) José Mojica Marins: Dia 9 poderão ver a "A Praga" que foi feito entre 80 e 81. Havia um laboratório dos japoneses que queriam eu que fizesse um teste em super 8 e eles passariam para 35mm. Eu fiz, faltava só algumas cenas, mas como me candidatei, acabei esquecendo. Quando lembrei eles tinham falido. Então a fita ficou parada até agora...
(05:33:53) José Mojica Marins: Vai passar 45 filmes que eu dirigi em novembro.

(05:37:21) Marcelo Tas: Qual é a mulher ideal?
(05:37:30) José Mojica Marins: Na "À Meia-Noite...", o Zé mata o amigo e estupra a noiva, mas não dá certo. Em "Esta noite..." ele acredita que se a mulher for como ele o filho será como ele, mas ela morre no parto. No "Encarnação..." ele está preso, quando sai engravida sete mulheres... daí começa a trovejar, um raio cai em sua lápide...

(05:38:49) Moderadora/UOL:

José Mojica Marins fala de "A Encarnação do Demônio" (Crédito: Flavio Florido/UOL)

(05:40:17) José Mojica Marins: Eu sou um homem que foi casado várias vezes, viúvo... Tenho mais de 30 viagens para o ano que vem. "Reencarnação..." será falada em cada canto do Brasil, será um filme que você irá levar para os seus pesadelos. No filme estou mais charmoso porque tive o estilista Alexandre Herchcovitch. O figurino da morte está fora de série. A roupa do Zé Celso desapareceu, demorou 30 dias para ser feita. Gostaria que nos devolvessem.

(05:40:19) Marcelo Tas: E você, tem medo do quê?
(05:41:51) José Mojica Marins: Eu vivo numa boa, mas sempre tive medo do dia seguinte. Ainda mais nesta era de violência em que não sabemos se voltaremos ao sair de casa. Não gostaria de ter uma surpresa desagradável no dia seguinte. Eu sempre procuro saber se as notícias são diferentes, leio vários jornais para sair na rua preparado...
(05:46:03) José Mojica Marins: Sobre a internet: É mais a minha parceira que fica colocando para eu ver as coisas diferentes. Sempre procuro ver o tem na internet. Acho que a internet está evoluindo tão rapido que está perdendo a graça. Daqui a pouco as pessoas não saem mais de casa, ficam obesas e com problema de coluna. A coisa vai chegar a um ponto em que bastara apertar um botão... estou pensando realmente em fazer o que vem depois do computador... o fim. A sua matéria vai desintegrar e você poderá chegar a Marte, a Lua. Neste ponto a loucura não terá fim. Há mil anos fomos descobrindo várias coisas. E agora penso se temos um cérebro com capacidade para isso ou se não têm outros seres nos mostrando o que descobrir. Nós somos egoístas e achamos que somos os maiores, mas não somos. Temos muitas coisas para aprender.

(05:46:54) Moderadora/UOL:

Cineasta José Mojica Marins fala sobre retrospectiva de sua obra (Crédito: Flavio Florido/UOL)

(05:49:30) José Mojica Marins: Sobre os roqueiros: Eles se identificam comigo, quem sabe pelos meus trajes ou porque acham que sou satanista. Vou a MG levar dez músicas de rock, mas o que eu gosto é dos Beatles. Ainda vou tentar descobrir do que é feita a cabeça dos meus amigos metaleiros que ficam batendo a cabeça. Vou levar uma câmera porque se quebrar uma vai voar miolos. Eu curto metal porque como todo ator tenho o meu momento em que me transformo e viajo. Eu tive um momento com 7.000 roqueiros em que todos se ajoelharam...

(05:22:07) Minguita: SAUDAÇÕES MESTRE!!! É com muita emoção que estou aqui no chat diante de meu ídolo máximo!!! Gostaria que vc rogasse a tradicional praga do dia.
(05:51:32) José Mojica Marins: Minguinta, em homenagem ao filme "A Praga" jogo esta que eu fiz ao vivo em 1963 no programa do Valter Forster. Ele havia me perguntado se iriam gostar do Zé do Caixão: Que os vermes que habitam a sua carcaça devorem todo o seu cérebro e que você continue em vida por toda a eternidade sentido as dores da fornalha do inferno. Isto acontecerá se você não prestigar o meu trabalho.

(05:53:06) Moderadora/UOL:

José Mojica Marins fala sobre sua trajetória no terror (Crédito: Flavio Florido/UOL)

(05:51:35) Marcelo Tas: Você já tem em mente como vai ser a sua própria morte?
(05:55:06) José Mojica Marins: Eu sou um homem que vive de pesadelos. Sofro de insônia, tomo soníferos. Meu sono não é normal. Meus pesadelos são terríveis e quando acordo escrevo as minhas crônicas de terror. O problema de saber como vai ser a morte é difícil. Eu poderia dizer mais do que ninguém o que a morte é. Com certeza naquele segundo que você morre é dolorido, a morte pode ser o fim, mas esta passagem dói. Eu tive uma parada cardíaca em 1966, morri por 4 minutos, e o que eu vi era dor. Era um clarão branco que dói muito mais do que o escuro, o negro. Então a passagem dois, como eu voltei não posso dizer o que existe lá. Se puderem evitar o máximo esta passagem, evitem. Ninguém quer morrer e eu também não quero, mas no final todos iremos para lá. Por isso que acho que o terror existirá para sempre. Porque a morte existe.

(05:57:32) Moderadora/UOL:

José Mojica Marins fala sobre filme inédito "A Praga" (Crédito: Flavio Florido/UOL)

(05:25:44) Sara Coelho: O novo filme utiliza de técnicas novas, no campo dos efeitos especiais, ou não?
(05:57:57) José Mojica Marins: Sara Coelho, não diria técnicas novas. Procuramos fazer novidades... Teve uma cena com todo o tipo de baratas de verdade. Mesmo de laboratório, são baratas, um negócio terrível. Tambem sou coberto de aranhas, cobrem os meus olhos. E cobras também. Vocês verão todas estas cenas de caráter artesanal. O Spielberg fez uma menina de vermelho andando em preto e branco. Eu faço pela cidade as pessoas que o Zé matou andando em preto e branco no colorido, como um espectro. Esta novidade com certeza os americanos irão copiar do nosso trabalho.

(05:27:03) Oaxiac Odéz: Muito me honra estar hoje com José Mojica Marins meu mestre!!!!! Oaxiac Odéz, Zé das Penitências, fakir Ali Khan, Antônio, Gregório, professor Pearson, prefeito de Vila Velha, Seu Sete Encruzilhada, Rodrigo Napu, Lúcio Fera, Mad Priest, Dr. Honório, Morte e Josefel zanatas, o Zé do Caixão. Entre sua vasta galeria de personagens existe algum favorito? Oaxiac Odéz, Zé das Penitências, fakir Ali Khan, Antônio, Gregório, professor Pearson, prefeito de Vila Velha, Seu Sete Encruzilhada, Rodrigo Napu, Lúcio Fera, Mad Priest, Comendador Vitório Palestrina, Dr. Honório, Morte e Josefel zanatas, o Zé do Caixão. Entre sua vasta galeria de personagens existe algum favorito?
(05:59:39) José Mojica Marins: Oaxiac Odéz, entre os personagens que eu criei até o próprio personagem do Profeta da Fome veio um personagem muito forte que é o Finilis Homis, o que eu mais gosto de minhas fitas. Ele estará na retrospectiva com o "Quando os Deuses Adormecem".

(05:33:03) maninha: O que te inspira a criar esse tipo de filme?
(06:02:11) José Mojica Marins: maninha, queria ou não o Zé do Caixão nasceu de um pesadelo em 1963. Eu era arrastado para o meu túmulo. Parei o filme que estava fazendo, juntei dinheiro e resolvi bancar o filme, pois ninguém queria entrar na fita. No mesmo dia que nasceu o Zé do Caixão nasceu a praga que eu joguei no programa.
(06:04:26) José Mojica Marins: Sobre os pesadelos: Tenho pesadelos toda a noite. Às vezes recordo. Deixo um caderno com caneta, porque não posso confiar na mente. Tenho pesadelos terríveis, sou dependente de um remédio chamado Lorax. Eu tenho que parar seis meses para fazer um exame, mas não posso parar de trabalhar. Dependendo do meu estado tomo 4 pílulas.

(05:41:18) Minguita: Em "Encarnação do Demônio" vc teve muitos assistentes de direção, diretor de elenco, stand in, platô e mesmo um estilista num total 70 técnicos, e uso de som direto. Qual o maior desafio em trabalhar num esquema bastante diferente do que vc usava nos outros filmes?
(06:06:48) José Mojica Marins: Minguita, eu ganhei carta branca do Caio, do Fabiano, da Débora, do Gullar e o Paulo Sacramento falou para fazer o que você quisesse. o problema de uma equipe muito numerosa é que quando a ela chegava na idéia eu já havia filmado a cena. Todos me agradeceram porque aprendera muita coisa, um cinema que não sabiam fazer.

(05:43:55) JohannesKepler: Zé, o cinema brasileiro é mais careta?
(06:10:39) José Mojica Marins: JohannesKepler, no passado deu uma impressão de que o cinema iria se tornar adulto até chegar um tal de collor. Daí a coisa caiu de tal maneira a se começar tudo de novo. Hoje se usa muito dinheiro para fazer filmes que não comportam a gente. A minha fita não saiu cara porque usei efeitos caríssimos. Porque não usarmos o cinema pensando no que temos no Brasil? Temos as melhores matas do mundo. Temos macumba, umbanda, quimbanda. As nossas mulheres são as mais lindas devido a mistura de raças. Temos tudo para mostrar o nosso Brasil lá fora. Não temos que ficar igual a eles e sim ir devagar para aos poucos irmos nos igualando.
(06:11:36) José Mojica Marins: Sobre o "Tropa de Elite": Assistirei quando eu for para Minas, minha assistente me trouxe o DVD pirata. Infelizmente já perguntaram várias vezes e eu não havia assistido.

(05:56:52) h só papo: Tem alguma coisa de sua carreira na qual vc tenha se arrependido de fazer?
(06:14:25) José Mojica Marins: h só papo, no ano passado tive proposta de fazer um filme nos EUA, recusei. Mas não haveria problema. Também rejeitei uma proposta na França, isto me trouxe tristeza também. Na Espanha eu fiz um documentário e teria tudo para fazer um filme de terror lá. Isto foi no passado, agora, no presente, eu não sei se teria a energia suficiente que tinha antes. Tenho muitos roteiros como o "Adolescência em Conflito" que trata das drogas. Se não fizemos algo agora, logo teremos creches dando drogas de mamar para os nenens.

(05:58:47) Rogério (Campinas): Seu Mojica, ENCARNAÇÃO será o último filme com o ZÉ?
(06:16:48) José Mojica Marins: Rogério (Campinas), não. O "Encarnação..." encerra uma trilogia, mas não encerra a saga do Zé do Caixão. No ano passado eu fiz uma sinopse de cada trabalho que corresponderia a mais quatro fitas. Tem uma que tenho certeza que não vou ter tempo de fazer, é quando o Zé tem o filho perfeito, mas é morto por ele. Mas nunca haverá ninguém para ser o Zé do Caixão, pode ter filhos, sobrinhos, mas eu sou só um.

(06:04:04) Zico: VOCE FICA CHATEADO QUANDO OS CRÍTICOS ROTULA SEUS FILMES NA CATEGORIA "TRASH" ?
(06:18:32) José Mojica Marins: Zico, houve uma época que eu ficava chateado sim. Aí no Festival Fantasia no Canadá vendo as enormes filas para assistir ao meu filme, o diretor me falou para perdoa-los porque quem estava me prestigiando era o Primeiro Mundo. Agora os meus filmes de trash passaram para cult. Assim como passei do cinema para os quadrinhos...
(06:20:18) José Mojica Marins: Eu continuo com as minhas oficinas, a minha escola. Vou fazer um curta chamado "A Sacerdotiza" e por isso precisarei de muita gente estranha. Coisas diferentes. O tel. é 011 3337-4440 ou 6849-6434 no horário comercial.
(06:21:59) José Mojica Marins: Que a luz do cosmo infinito ilumine a todos que estão me vendo...

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