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65o. Festival de Veneza - 2008

11/02/2008 - 15h32
"Tropa de Elite" leva realidade das favelas do Rio ao Festival de Berlim
Gemma Casadevall
Berlim, 11 fev (EFE) - O diretor José Padilha sacudiu hoje o
Festival de Berlim com o filme "Tropa de Elite", uma imersão na
guerra das favelas a partir da perspectiva policial, onde se fundem
a denúncia social e a identificação com agentes que combatem a
violência com mais violência e alimentam a espiral de corrupção.

A produção chegou ao festival envolvida na polêmica de até que
ponto o filme justifica a brutalidade policial na luta contra as
facções de traficantes que controlam as favelas do Rio de Janeiro.

"Tropa de Elite" começa com os preparativos para a visita que o
papa João Paulo II faria ao Rio de Janeiro em 1997, e a "operação
limpeza" implementada devido à intenção do pontífice de ficar,
durante sua estadia, na casa do cardeal-arcebispo, perto do Morro do
Turano.

A câmera de Padilha se transforma na sombra dos oficiais
encarregados da missão, que fazem parte do Batalhão de Operações
Policiais Especiais (BOPE) do Rio de Janeiro, e especificamente de
três de seus personagens - o capitão Nascimento e os aspirantes Neto
e Matias.

A partir desta perspectiva, narra tanto a batalha contra os
grupos fortemente armados que controlam as favelas do estado como
contra a própria corrupção policial.

"No Brasil, temos uma Polícia corrupta, que mata e extorque e a
qual o povo odeia", disse hoje o diretor, deixando claro seu
distanciamento em relação a uma corporação que entra nas comunidades
sob o lema "atirar primeiro para perguntar depois".

"Só no Rio, em um ano, houve mais mortos por violência policial
que na última Intifada", ressaltou. Mais dados: nos Estados Unidos
cerca de 200 pessoas morrem por ano por causa da violência policial,
enquanto no Rio o número sobe para 1.200.

Isso não quer dizer, no entanto, "que as facções que controlam as
favelas não sejam tão ou mais brutais, independentemente de que
entendamos o porquê de essa violência se originar, e que dentro das
favelas mesmo as ONG precisem pactuar com eles (os traficantes)".

É um círculo vicioso, disse Padilha, no qual a brutalidade dos
grupos e a corrupção policial se alimentam mutuamente e no qual um
idealista que deseje mudar a sociedade, como o aspirante Matias, se
depare com um sistema que gera e multiplica violência.

Os propósitos de denúncia do diretor ficaram claros, mas não os
resultados. "Tropa de Elite" é um filme que, antes de chegar às
salas de cinema do Brasil, já havia sido visto por 11,5 milhões de
brasileiros, devido a uma extraordinária disseminação de cópias
piratas.

"É um fato sem precedentes, que prejudica a produção, mas que
ilustra até que ponto havia sede por vê-la", disse o diretor.

Padilha também é autor do documentário "Ônibus 174", sobre a
história real do seqüestro de um ônibus no Rio de Janeiro, contada
de uma perspectiva diferente, procurando evidenciar o contexto que
levou o jovem seqüestrador a cometer o crime.

De acordo com o cineasta, "Tropa de Elite" pretende, sobretudo,
"convidar" à reflexão sobre esse círculo vicioso.

O resultado, no entanto, é um filme magistralmente filmado, com
um certo pulso de documentário, que deixa no ar a sensação de que as
ações dos agentes do BOPE se justificam, exaltando, algumas vezes, a
violência policial.

A imersão de Padilha nas favelas foi dividida no festival com uma
temática bem distinta: a feita por Doris Dörrie sobre uma família
tipicamente alemã em "Kirschblüten - Hanami", primeiro representante
da Alemanha na mostra.

Se "Tropa de Elite" deixa o espectador mergulhado por imagens e
eventos, Dörrie faz com que o público entre em um mundo onde o tempo
passa no ritmo em que as cerejeiras florescem.

Um homem com dificuldades para se comunicar com outras pessoas
perde sua esposa, que havia trazido à sua existência a pouca
fantasia que parecia disposto a aceitar devido à sua paixão pela
rotina e ao aborrecimento.

O homem, magnificamente interpretado por Elmar Wepper, até então
incapaz de viver fora de seu povoado bávaro, inicia, a partir do
desespero gerado pela perda, uma viagem ao Japão, país ao qual sua
mulher sempre quis visitar e no qual mora um de seus filhos, plano
eternamente adiado por ele.

Dörrie retrata pelas mãos de Wepper e Hannelore Elsner -uma
grande dama do cinema alemão - a falta de comunicação entre gerações
diferentes de tantas famílias alemãs, onde é mais fácil conversar
com a namorada lésbica de sua filha que com a própria, ou com uma
mendiga japonesa do que com o filho que mora no país.

O cinema alemão cumpriu, com isso, a obrigação de bom anfitrião:
ser agradável sem perturbar, estar correto e se deixar aplaudir, até
o ponto de poder ser alçado, sem posar de arrogante, a forte
candidato a um Urso.

Encerrou a rodada competitiva do dia "Sparrow", de Johnnie To,
que retrata Hong-Kong pelas mãos de um quarteto de batedores de
carteiras, transformados em personagens de um enigma intrigante.


26/11/2009