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"Dirão que, se não fosse por Charlie Wilson, não existiria o 11 de Setembro", disparou Tom Hanks quando questionado sobre o que esperava da reação a "Jogos do Poder", que o ator produziu e estrelou sob a direção de Mike Nichols. No filme, Hanks faz o papel de Wilson, deputado democrata do Texas que contribuiu para acabar com a invasão soviética no Afeganistão e, como conseqüência, ajudou a precipitar o desmantelamento da União Soviética. Wilson, um bonachão que gostava de uma boa causa, foi impulsionado por uma socialite anti-comunista, Joanna Herring (Julia Roberts), e ajudado por um veterano agente da CIA, Gust Avrokotos (Philip Seymour Hoffman). Adaptação do livro "Charlie Wilson`s War: the Extraordinary Story of the Largest Covert Operation in History", de George Crile, o filme revela os bastidores de um dos feitos mais inacreditáveis da história. Leia a seguir o que Hanks, Julia, Hoffman e Nichols falam sobre seus personagens e as visões políticas da América contemporânea. Veja também entrevistas da equipe e trechos do filme em vídeo.
Sr. Nichols, como acha que Charlie Wilson se sairia atualmente, com a capacidade que os jornalistas têm hoje em dia de expor o estilo de vida de alguns políticos? Mike Nichols: Acho que Charlie teria lugar em qualquer momento na história, porque ele faz algo que você não vê com freqüência na política: fala a verdade e fala a verdade sobre si mesmo. Acho que há poucos momentos na história, incluindo agora, em que algo seja tão surpreendente quanto um político que ataca primeiro a si mesmo. Ele sempre fez isso.
Tom, você acha que após o lançamento do filme alguns jornais podem culpar Charlie Wilson pelo 11 de Setembro? Tom Hanks: Posso garantir que haverá vários editoriais ou artigos escritos na blogosfera, na internet e nos jornais convencionais sobre isso. Dirão abertamente que se não fosse por Charlie Wilson, não haveria 11 de Setembro. Pode haver algumas pessoas nesta sala que estejam escrevendo um artigo desses. Mas este é o trabalho delas, o de facilitar as coisas. Encontrar alvos fáceis.
Tom, quando adquiriu os direitos do livro, o que atraiu sua imaginação? Talvez todos na mesa possam responder a esta pergunta: O que esta história significa para você? Tom Hanks: Bem, eu já falei.
Philip Seymour Hoffman: Não, e nem deve, mas é a vida. Eu já disse isso hoje e mantenho que o que me fisgou quando li o livro, assim como o roteiro, foi o fato de se tratarem de personagem cujos pontos fracos se tornam seus trunfos, que é como vejo. Suas deficiências se tornam seus bônus em outras. O fato de alguém ser capaz de guardar seus pontos fracos como uma carta na manga me tocou, a forma como as coisas são feitas me intrigou. O fato de o defeito deles ser o que no final os ajude.
Os outros podem responder rapidamente? Mike Nichols: O que é brilhante, verdadeiro e certamente atrai a nós todos são as coisas inesperadas sobre as pessoas e até sobre a vida. Coisas inesperadas que parecem reveses e, de alguma forma, se transformam em qualidades. Agora, mais do que em qualquer momento na história, é verdade que não se faz muita coisa, a não ser formar mais opiniões e expressá-las infinitamente. Derrubar a União Soviética foi algo importante. Não está aberto a interpretações. Claro que eles não fizeram sozinhos, ninguém está dizendo isso. Mas ver o desencadeamento dos acontecimentos na Tchecoslováquia, em Berlim, no resto do mundo e saber que eles tiveram um grande papel naquilo é fascinante.
Julia, você tem algum comentário a respeito? Julia Roberts: Eu não. Vocês podem falar um pouco sobre como foram inspirados por Charles Wilson e como podem fazer a diferença no mundo atual? Tom Hanks: Bem, o que é mais impressionante a respeito de Charles Wilson é sua falta de hipocrisia. Francamente, gostaria que ele ainda estivesse no Congresso. Se ele se candidatasse, eu votaria em alguém tão livre para enfrentar a hipocrisia quanto Charles Wilson. A certa altura eu perguntei para ele como conseguiu vencer aquelas eleições. Quero dizer, era notório que ele bebia, usava drogas, era mulherengo. E ele veio de um condado onde a bebida era ilegal. Ele veio de um condado abstêmio. Eles nem mesmo vendem álcool naquele condado do Texas. Como ele venceu? E ele disse: "Porque nunca menti sobre meu comportamento". Ele nunca fingiu ser algo que não era. Isto é uma coisa difícil. É preciso ser um homem de certo tipo de caráter para viver sua vida dessa forma, mas ele o fez e posso dizer que apesar de não ser nem um pouco como Charlie Wilson em muitas formas, eu gostaria de ser como ele neste aspecto.
E como se pode fazer a diferença? Tom Hanks: Você pode fazer a diferença chegando à conclusão do que é certo, do que é errado, e nunca abrir mão disso.
Julia Roberts: Acho que eles mostraram o poder do indivíduo de uma forma que é inspiradora no dia-a-dia e, como já disse, todos devem fazer o que é apropriado para suas vidas e encontrar sua compaixão. Para mim, isto está na minha vida doméstica. Tenho uma família e a diferença que tentamos fazer é basicamente local e ambiental, nós produzimos adubo e fazemos pequenas coisas. Esperamos que nossos filhos se tornem adultos com grandes idéias, convicções mais fortes e com uma dimensão mais ampla do que apenas a do lar.
Julia, você pode nos falar sobre a moda de sua personagem? Ela é loira como uma diva. Você trabalhou muito a sua imagem e foi decisão sua ficar loira? Julia Roberts: Bem, acho que nós fizemos tudo o que era possível para que eu me parecesse com Joanne Herring naquela época. Acho que chegamos bem perto de como ela se parecia naquela época, loira, uma mulher cheia de estilo. Ela foi nossa única inspiração.
Uma pergunta para todos os atores. Qual a dificuldade de interpretar um personagem real? Dois deles ainda estão vivos, eu suponho. Tom Hanks: Isso é um pouco mais fácil, porque eles se vestem da forma como se vestem e se parecem da forma como se parecem, de forma que você não precisa criar isso. Basta você estudá-los e recriá-los, o que exige muito tempo, mas é uma disciplina diferente. Acho que o mais difícil em interpretar alguém que está vivo é não errar suas motivações. Eles tiveram motivos para fazer o que fizeram. Algo os movia. E não se pode alterar isso visando fazer um filme diferente. Acho que é preciso descobrir o que os motivou a tomarem aquelas decisões e é preciso ser autêntico na representação destas motivações. O que não é fácil.
Julia Roberts: Só para acrescentar algo, porque concordo com tudo o que Tom disse. É preciso respeitar quem eles são agora. Ou seja, estamos falando sobre algo que ocorreu 20 anos atrás. E é preciso respeitar o que fizeram nos 20 anos seguintes, onde se encontra a mente e o coração deles agora, tentar ser autêntico com relação à história que estamos contando, respeitar ao mesmo tempo as pessoas que são agora. Se estão diferentes, se mudaram suas opiniões sobre as coisas, se suas motivações são diferentes agora na política ou não, é um equilíbrio entre quem foram e quem são agora.
Philip Seymour Hoffman: Prefiro olhar para todo personagem como se fosse de ficção. Não sei se isto ajuda, porque afinal trata-se de uma interpretação. Não posso ser o sujeito. Nunca serei o sujeito. E é algo que preciso descartar porque não sou o sujeito. Lembro de um professor de interpretação teatral dizer: "Se você fosse a pessoa, você ficaria louco". E acho que está certo. Sei que existem certos parâmetros como os citados pelo Tom, motivação e coisas assim. Assim, nas oportunidades em que interpretei alguém real, me ative a isso porque, em última análise, vou interpretar o que acho que a pessoa fez e sempre vai ser algo artístico. Que no fundo é o que faço com papéis de pessoas fictícias.
Como atores, vocês todos já fizeram filmes políticos e também viajaram pelo mundo e experimentaram pessoalmente outras culturas, outros sistemas políticos. O trabalho de ou a experiência que tiveram teve alguma influência sobre o seu ponto de vista político? Julia Roberts: Com base no clima mundial, a esta altura, você é forçado a se posicionar em relação a algo ou se afastar. Eu me considero uma pessoa ativa quando se trata de minhas convicções políticas, mas não necessariamente em um fórum aberto, porque tenho conflito em relação a qual seria o verdadeiro impacto ou qual seria o sentido de todo mundo saber no que acredito. Porque, como atriz, é preciso manter um mistério para as pessoas ficarem plenamente convencidas de que você é outra pessoa, com crenças e sentimentos próprios. Mas acho que vivemos em um mundo onde é preciso ser ativo. Ser passivo significa concordar com tudo e eu simplesmente não concordo.
Tom? Tom Hanks: Não se trata tanto do trabalho que fizemos, mas sim de viajar pelo mundo e filmar em outros locais. Aos 51 anos, fico surpreso com o fato de viver a política em que acredito. Não acho necessário que celebridades saiam apoiando causas. Nós vivemos nossa política. Pago muitos impostos e fico contente por poder pagá-los. Não sou um sujeito que diz: "Eu não devia pagar tanto". É claro que sou uma pessoa que tem que pagar mais que as outras. E dirijo um carro elétrico e, se olhar para meu estilo de vida, você provavelmente vai deduzir que sou um democrata que vota em candidatos liberais, em causas liberais. Acho que precisamos de um sistema de saúde melhor. Por que a América tem o pior sistema de saúde do mundo industrializado está além da minha compreensão. Nós somos a América, deveríamos ter o melhor. Bom, isto me torna um sujeito que tem pensamentos políticos, mas quanto a ser politicamente ativo, eu me considero politicamente prático. Vivo minha vida de uma forma prática, que acho representativa das minhas escolhas políticas.
Philip Seymour Hoffman: Nas viagens e no trabalho que faço, o aspecto que mais me fascina são as percepções. Sempre fui fascinado pela percepção que um país tem de outro. É o que mais me interessa quando vou a algum lugar e converso com as pessoas, que me dizem com vêem a América, outros países e a si mesmas. E como se deve ficar atento à comunicação. A clareza da comunicação é obscurecida pelos políticos, a mídia ou seja lá o que você queira citar. Esta é uma coisa muito fascinante para mim e sempre foi algo muito esclarecedor.
(Tradução: George El Khouri Andolfato)