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15/05/2008 - 14h00
Eduardo Escorel conta a descoberta de um cabra marcado para viver
EDILSON SAÇASHIMA
Da Redação
Um dos principais nomes do cinema brasileiro, o diretor, montador, roteirista e ensaísta Eduardo Escorel foi colaborador de cineastas do Cinema Novo como Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman. Entre seus trabalhos, fez a montagem de "Terra em Transe", "Cabra Marcado para Morrer", de Eduardo Coutinho, e do recente "Santiago", de João Moreira Salles.
Com uma carreira vigorosa no cinema documental, Escorel conta nesta entrevista ao UOL como encontrou Genivaldo Vieira da Silva, o ex-militante do MST que é o personagem de "O Tempo e o Lugar", seu mais recente trabalho. Também comenta as comparações com "Cabra Marcado para Morrer", faz um paralelo entre a trajetória de Genivaldo e lembra a história de um adivinhador de água. Leia os principais trechos da entrevista.
O primeiro encontro Eu era um dos diretores de "Gente que Faz", uma série de vídeos institucionais para um banco. Em dois anos fiz entre 20 e 30 vídeos da série. Um deles foi com o Genivaldo. Eu não o conhecia e não participei de sua seleção.
Para fazer o seu episódio, passamos sete dias em Alagoas. Nesse período, nas conversas durante os intervalos e nas viagens, ele começou a revelar uma história que o "Gente que Faz" não estava tratando. Eu senti que ele era um personagem que tinha uma história que deveria ser contada, mas ainda não sabia exatamente de que forma.
No último dia, antes de embarcar para o Rio de Janeiro, propus uma gravação de áudio com o seu relato de vida. E voltei com cerca de duas horas de gravação em fita cassete.
Nessa época, em 1996, algumas coisas ele contou por alto. O seu nível de atuação no MST e nas ocupações, ele só revelou em 2005, quando passei cinco dias lá, praticamente três só conversando.
Do advinhador ao Genivaldo Inicialmente me fascinou muito um episódio específico: a história de um andarilho que um dia apareceu no sítio de Genivaldo se oferecendo, mediante uma boa soma de dinheiro, para indicar um local onde se encontraria água. Ficaram desconfiados. Era muito dinheiro que estava em jogo. Mas aceitaram um contrato de risco: se o andarilho achasse água, eles pagariam. No dia seguinte, o andarilho saiu por aquela região, indicou um lugar, eles cavaram e, cinco metros abaixo, encontraram água potável que durante dez anos abasteceu uma região que nunca tinha tido água e que os técnicos do governo diziam que não tinha água.
Achei essa história muito interessante. Por muito tempo alimentei a idéia de fazer um documentário que seria a procura desse adivinhador. Ainda penso em fazer um.
Em 2005, voltei com um objetivo determinado de completar aquele primeiro depoimento e escrever um roteiro, mas não levei o projeto adiante. Até que em 2006 decidi fazer o documentário sobre Genivaldo.
Reencontro Foi difícil reencontrá-lo nove anos depois. Eu não tive nenhum contato com ele depois de 1996 e só o reencontrei graças a uma pesquisa no Google. Apareceram duas indicações: uma sobre sua candidatura a prefeito em 2000 e um seminário que ele tinha participado alguns meses antes. Entrei em contato com os organizadores do seminário, que me passaram o seu contato.
Ele ficou espantado. Achou que nunca iria voltar a nos ver. Combinei de voltar e fui com uma câmera. Talvez já tivesse de alguma forma com a idéia de fazer um documentário.
Decepção com o governo O que mais me surpreendeu neste reencontro, em fevereiro de 2005, foi a profunda decepção de Genivaldo com o governo Lula. Essa decepção ocorre muito cedo. Mal tinha completado dois anos do primeiro mandato, não tinha havido ainda o escândalo do mensalão, o episódio do José Dirceu, nada disso tinha acontecido. E um pequeno agricultor familiar com uma trajetória de militância já se dizia decepcionado com o Lula. Isso foi muito surpreendente para mim.
Paralelo com o Lula Para mim, um dos grandes interesses da história do Genivaldo é o fato de ser uma trajetória paralela ao do presidente Lula, com alguns pontos comuns e uma série de opções e de caminhos completamente diferentes.
Uma das maneiras de ver a história do Genivaldo é observar quais foram as escolhas que ele fez e quais foram os resultados, e pensar nas escolhas que o Lula fez e em seus resultados.
O interessante na história do Genivaldo é notar que não é preciso tomar o poder do Estado para atuar politicamente. Ele continua fiel à sua vocação de militante político. Teve desejo de seguir a carreira política em alguns momentos, mas já se curou disso.
Ele talvez tenha conseguido preservar uma integridade que os políticos que fizeram determinadas escolhas não conseguiram manter para chegar ao poder.
Cabra marcado para viver Eu nunca tinha pensado numa relação com "Cabra Marcado para Morrer" até o meu filme ficar pronto. Foi o Amir Labaki (crítico e idealizador do festival de documentários É Tudo Verdade) quem disse pela primeira vez que "O Tempo e o Lugar" tinha muito a ver com Cabra. Eu pensei e então disse: "É, talvez o meu filme poderia se chamar 'Cabra Marcado para Viver'".
Tem uma série de relações entre os dois filmes, com as devidas mudanças. O João Pedro Teixeira (protagonista de "Cabra Marcado para Morrer") é um herói trágico. O Genivaldo é um herói, digamos assim, realizado. Ele está vivo, atuante, não precisou morrer para ser herói. Genivaldo foi resgatado de um provável esquecimento. Temos um exemplo de alguém que não precisou ser assassinado para se transformar em um herói.
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