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19/05/2008 - 19h26

Indiana Jones envelheceu, mas continua o mesmo em "O Reino da Caveira de Cristal"

ALESSANDRO GIANNINI

Editor de UOL Cinema
"Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal" vem sendo antecipado desde o segundo semestre do ano passado, quando começaram a surgir as primeiras informações, fotos e cenas das filmagens do quarto segmento da série. Meticulosamente planejados, esses vazamentos de "novidades" criaram uma grande curiosidade em torno da nova aventura de Indiana, ainda na pele de um Harrison Ford mais velho, carcomido, cheio de plástica e botox. Talvez por isso muita gente que cresceu se entusiasmando com as peripécias do arqueólogo não gostou tanto assim do que viu na primeira sessão de imprensa para os jornalistas brasileiros, na segunda (19), em um cinema de São Paulo.

Harrison Ford envelheceu, sim - ele está com 65 anos. O cabelo está mais branco, os traços endureceram e as plásticas e o botox gritam. Bem, berram, na verdade. A tradicional cena do ator sem camisa, que fazia parte da fórmula criada por Lawrence Kasdam em "Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida", não dá o ar da graça. Nem por isso, sente-se falta dela. A verdade é que não se pode culpar Ford por eventuais falhas ou limitações do filme. Se existem, estão mais na forma do que no conteúdo - essencialmente o mesmo em todos os filmes da trilogia que precedeu esta quarta aventura. E isso diz mais sobre como envelhecemos do que sobre os valores apregoados pelo professor Jones ao longo de sua carreira como herói de uma geração.

A estrutura dramática não mudou. Traduzindo em linguagem leiga, a historinha é a mesma. Há um prólogo em que Indiana conhece os vilões e perde a parada. De volta à universidade onde leciona, algo acontece que o leva de volta a estrada - sofre um revés, ou recebe uma pista. No caminho, conhece alguém, uma mulher em geral, que o acompanha. Depois de conhecer uma nova cultura, enfrentar perigos e ser perseguido novamente, ele desvenda os mistérios envolvendo o tesouro que quer encontrar e, em geral, coloca a mão nele. Com as devidas variações, o fim também é sempre uma grande celebração.

Faça o teste, preencha as lacunas, tire a prova dos nove e você verá que não há grandes novidades. Em "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal", estamos em plena Guerra Fria, o rock come solto e os segredos do governo americano estão escondidos em um grande depósito no deserto de Nevada conhecido como "Área 51". Os russos são os inimigos da vez, aqueles que irão perseguir e atormentar Indy, personalizados na sensual e autoritária Irina (Cate Blanchett). O alívio cômico surge multiplicado em diversas figuras: o vira-casaca Mac (Ray Winstone), o estouradinho Mutt (Shia LaBeouf) e o siderado Ox (John Hurt).

Mas a mulher desse episódio é um caso à parte. Trata-se na verdade de um déja vu: Marion (Karen Allen, que não envelheceu tão bem quanto Ford), de "Os Caçadores da Arca Perdida". A aparição dela explica muitas coisas e cria ganchos para o estabelecimento de uma nova fase na franquia. Não dá para revelar muito, mas se você leu algo sobre o assunto nos últimos meses não terá dificuldade para ligar os pontos, somar um mais um ou qualquer outra coisa para descobrir do que se trata. Quem imaginaria que George Lucas e Steven Spielberg iam deixar de explorar uma mina de ouro como essa?

Está tudo no lugar, inclusive a tal caveira de cristal do título, que tem que ser devolvida ao templo maia encravado na floresta amazônica de onde foi tirada e que tem o poder de dar "todo o conhecimento" a quem o fizer. O que difere "O Reino da Caveira de Cristal" dos antecessores, no fundo, é a constatação de que o artesanato, o truque, os efeitos mecânicos, o grande cinemão, enfim, deu lugar à tecnologia, aos efeitos de computador. O que os filmes da primeira trilogia tinham em comum era uma característica artesanal, que o colocava no mesmo patamar das primeiras grandes aventuras filmadas por Cecil B. De Mille ou de épicos como "E o Vento Levou...", um prodígio dos grandes estúdios. Isso não existe mais.

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