Nos dois últimos dias de filmagem de "À Deriva", terceiro longa-metragem de Heitor Dhalia ("Cheiro do Ralo"), a equipe aparentava sinais de cansaço. Apesar do sobe e desce de morros e encostas, em Búzios e Arraial do Cabo, no litoral do Rio, foi uma produção mais difícil do que apenas exigente do ponto de vista físico. Assista a reportagem em vídeo:
Em um dos intervalos de filmagem, enquanto esperava a novata Laura Neiva e Débora Bloch para uma cena, Dhalia explicou porque a piada interna comparava o filme a "Lost in La Mancha", documentário de Terry Gilliam sobre sua malfadada adaptação do clássico de Cervantes, interrompida logo no início por conta de estouro nos prazos, no orçamento e falhas na logística.
"Nunca imaginei que filmar na praia fosse tão complicado", disse ele, óculos escuros estrategicamente colocados e a tez mais morena do que o normal por causa da longa exposição ao sol. "Com as mudanças de temperatura, a gente tinha que adaptar o plano de filmagem diariamente. Por muito pouco, a gente não se encontrou na mesma situação que o Terry Gilliam."
"À Deriva", que traz no elenco duas estrelas internacionais, o francês Vincent Cassel (Senhores do Crime) e a americana Camilla Belle (10.000 A.C.), é o primeiro de cinco longas-metragens previstos num contrato de co-produção entre a O2 Filmes e a Focus Filmes (braço independente da major Universal Filmes). Ambientado no fim dos anos 80, conta a história do fim de uma relação visto pelo olhar de uma pré-adolescente.
Dhalia se inspirou vagamente na própria experiência de vida para criar a personagem de Filipa (Laura Neiva), que nas férias de verão de seus 14 anos enfrenta a realidade sobre o casamento de seus pais e, ao mesmo tempo, descobre a sexualidade. "Não é uma história semi-autobiográfica", adianta ele. "Eu vivi muitos anos na praia, meus pais se separaram na minha adolescência e também descobri muitas coisas nessa fase da minha vida. Mas é só isso."
A Filipa dos sonhos de Dhalia, Laura Neiva, foi encontrada na internet, no site de relacionamentos Orkut. Ana Luísa, assistente de casting da produção, entrou em contato com a menina por meio da ferramenta de recados na página do perfil dela. "No início, eu achei que era brincadeira e nem dei bola", contou Laura, já no quartel-general da produção, um hotel em Búzios, depois de um dia inteiro de trabalho. "Mas depois, ela insistiu e eu acabei falando com os meus pais. Essa foi a parte mais difícil."
Apesar dos contratempos durante as filmagens, Dhalia está satisfeito com os resultados. E entusiasmado com as possibilidades que esse filme pode alavancar para novos projetos e para sua carreira internacional. Entre os filmes que o cineasta quer realizar, está um drama de guerra envolvendo as tropas de Paz brasileiras enviadas para o Haiti.