UOL CinemaUOL Cinema
UOL BUSCA
65o. Festival de Veneza - 2008

18/06/2008 - 12h46
Falta a "Agente 86" subversão da série clássica dos anos 60
ALESSANDRO GIANNINI
Editor de UOL Cinema
Criado nos anos 60 para satirizar James Bond e os filmes de espiões, "Agente 86", a série clássica, tinha como alvo também um tema espinhoso para aquela época, a Guerra Fria. Buck Henry e Mel Brooks, criador e principal roteirista do programa, identificaram todos os clichês da disputa pelo poder entre os blocos ocidental (representado pelos EUA) e oriental (liderado pela União Soviética) e os transformou em uma grande piada. Esse senso de humor subversivo, que marcou a trajetória tanto de Henry quanto de Brooks, não está presente no filme"Agente 86", que entra em cartaz na sexta (20).

O filme de Peter Segal ("Corra Que a Polícia Vem Aí - 33 1/3") retoma o período de formação de Maxwell Smart antes de ele se tornar o Agente 86, um dos principais quadros do Controle, a agência super-secreta do governo que imita a CIA. Uma sacada e tanto, creditada pelo próprio Segal ao ator Steve Carell, que reinventa o personagem imortalizado por Don Adams. Segundo o diretor, o projeto só decolou de verdade quando Carell passou a trabalhar próximo aos roteiristas. De fato, a idéia de criar uma "prequel" funciona como trama, mas não ajuda a transformar o filme em algo mais consistente e contundente.

Logo nas primeiras seqüências, o clima de nostalgia toma conta da tela. Antes de descer à sede super-secreta do Controle, que fica no subsolo de um Museu de História, Smart passa pela ala da "extinta" agência de espiões do governo americano. Estão em exposição alguns dos itens mais simbólicos da série: o Sunbeam Tiger Conversível do agente, o terno preto envergado por ele, o Cone do Silêncio, o Sapatofone e vários outros itens que hoje não parecem tão inacreditáveis. Esse sentimentalismo costura toda a trama e esvazia qualquer possibilidade de humor subversivo. Dá-se boas risadas, mas é só: não se extrai nada disso.

Carell e sua "cara-de-pau" funcionam a contento nessa ressurreição de Maxwell Smart. Anne Hathaway dá vida a uma nova 99, menos doce e mais impaciente com o parceiro do que aquela criada por Bárbara Feldon. Há velhos personagens, como o Chefe, interpretado por Alan Arkin; o líder da agência concorrente Kaos, Siegfried, participação especialíssima de Terence Stamp, e Shtarker, o eterno assistente de Borat, Ken Davitian. Ou o onipresente Agente 13, outro convidado celebre, o ator Bill Murray. E há novos personagens, como os pândegos Bruce (Mais Oka, de Heroes) e Lloyd (Nate Torrence). Nenhum deles, no entanto, com a verve de Adams, Bárbara ou Edward Platt.

Com tantas apostas altas em Hollywood, a possibilidade de "Agente 86" vir a se tornar uma franquia são esquálidas. De qualquer forma, os estúdios sempre acham uma maneira de espremer um pouco mais de seus produtos. Nesse caso, inclusive, Bruce e Lloyd, os técnicos responsáveis pelas traquitanas de Smart, já conseguiram um "spin off" que sairá diretamente em vídeo. Palavra do diretor.


28/08/2008
27/08/2008