Há poucas décadas, o pai de Will Smith, o dono de um negócio de refrigeração da Filadélfia, decidiu derrubar um muro de tijolos do lado de fora de sua loja. Então, ele entregou a Will alguns tijolos soltos, lhe disse para procurar seu irmão e lhes deu a tarefa de reconstruir o muro.
"A gente levou um ano para reconstruir aquele muro", lembra Smith. "Mas o fizemos tijolo a tijolo. No calor do verão, no frio do inverno. Depois que ficou pronto meu pai disse: 'Nunca mais me digam que não podem fazer algo, jamais'".
A lição foi aprendida. Smith, um ator indicado ao Oscar, rapper ganhador do Grammy e um dos artistas mais conhecidos do mundo, um homem cujos filmes renderam mais de US$ 4 bilhões nas bilheterias e cuja esposa, a atriz Jada Pinkett-Smith, é uma das mulheres mais bonitas do mundo.. bem, ele nunca diz "nunca".
"Eu sou o sujeito mais otimista que você conhecerá. Se me der um problema, eu lhe darei uma solução."
"Eu simplesmente adoro viver. Eu acho que é contagiante. É um sentimento que não dá para fingir. Sou feliz por cada dia que estou aqui. Acho que até a câmera consegue sentir que sou um sujeito feliz, que está empolgado por fazer o que está fazendo para ganhar a vida. Acho que na tela grande isto é captado inconscientemente pelas pessoas que assistem meus filmes."
Se ao menos seu personagem em "Hancock" pudesse ver as coisas deste modo.
Em "Hancock", que estréia dia 2 de julho nos Estados Unidos (e dia 4 no Brasil), Smith interpreta um super-herói irascível, cheio de problemas e sarcástico que é repudiado pela população. Ele contrata um profissional de relações públicas (Jason Bateman) que, auxiliado por sua esposa cética (Charlize Theron), tenta mudar a imagem de Hancock.
"Eu sou um super-herói alcoólatra. É tão bizarro. Michael Mann desenvolveu um roteiro sobre um super-herói alcoólatra, que para mim era ótimo por ser bem diferente. Há muitas tramas que você vê recicladas repetidas vezes, mas esta era realmente criativa."
Em uma entrevista separada, Theron - que já trabalhou com Smith no filme de golfe "Lendas da Vida" (2000)- concorda.
"Eu ria tanto", lembra a atriz sul-africana. "Eu nem consigo me lembrar do que aconteceu, mas a certa altura até chovia. Eu acho que a culpa foi de Smith. Não parava de rolar lágrimas, de tanto que ríamos."
Desta vez nenhum dos três filhos de Smith aparece em "Hancock". Nem Jaden, que interpretou o filho de seu personagem no aclamado pela crítica "À Procura da Felicidade" (2006), nem Willow, que teve um papel em "Eu Sou a Lenda" (2007).
"É interessante", diz Smith ponderadamente. "Jada e eu debatemos a antiga questão de natureza contra criação. Porque dois atores foram ao México, beberam muita tequila e fizeram um bebê, aquela criança vai querer ser ator? Isto torna um bebê um ator? Ou é o fato dele ou dela ter crescido em uma casa onde isto faz parte da rotina? Ou é apenas a vida e experiência que ele ou ela conhece?"
"Willow e Jaden adoram atuar. Eu me lembro, quando estávamos filmando a seqüência da ponte com Willow no meu último filme, havia um prédio com um painel que mostrava a temperatura. Ao entardecer estava provavelmente -1ºC. Então observamos a temperatura cair para -17ºC e continuar caindo. Willow estava vestida em seu figurino e estava com frio. Ela olhou para mim e disse: 'Pai, não importa quanto frio fique. Eu vou terminar'."
"E eu disse: 'Que bom, querida, porque o papai vai embora se baixar mais um grau'."
"Ela viu o irmão Jaden trabalhar comigo em 'À Procura da Felicidade' e pensou, 'Eu quero isso'. Na noite em que dissemos para Willow que ela ganhou o papel após o teste, Jaden estava sentado diante dela. Nós sempre reunimos a família para anunciar as coisas boas que acontecem com todos na casa. Todos têm que compartilhar. Então Willow estava lá -Jaden e eu à frente, e Willow atrás dele."
"Nós dissemos, 'Todo mundo, temos que parabenizar Willow. Ela conseguiu o papel em "Eu Sou a Lenda"'. Willow imediatamente se virou para Jaden, sorriu, colocou as mãos no quadril e fez um silencioso 'Ha, ha, ha, ha!'"
Na verdade, diz Smith rindo, as duas crianças são muito diferentes em sua abordagem à interpretação.
"Jaden é Johnny Depp. Ele apenas quer fazer um bom trabalho -ele não se importa com dinheiro, ele adora interpretar. Mas Willow é Paris Hilton: Willow quer aparecer na TV."
"Nós estamos empresariando estes dois em nosso lar!"
Smith também começou cedo, tendo trabalho constantemente desde que começou como o rapper adolescente chamado The Fresh Prince, se apresentando em clubes da Filadélfia. Isso levou a vários CDs de sucesso para Smith e seu parceiro, o D.J. Jazzy Jeff, que por sua vez gerou várias ofertas de papéis -um deles o principal naquela que viria a se tornar a série de sucesso "The Fresh Prince of Bel-Air" (Um Maluco no Pedaço, 1990-1996).
Após superar as adversidades da transição do estrelato musical para o da televisão, Smith logo voltou seus olhos para a tela grande. Ele fez sua estréia no cinema em "Feita por Encomenda" (1993), surpreendeu os críticos com seu talento dramático em "Seis Graus de Separação" (1994) e obteve um sucesso modesto com a comédia policial "Os Bad Boys" (1995).
Então veio o enorme sucesso de "Independence Day" (1996), e repentinamente Smith era um dos grandes astros de Hollywood.
"Em 6 de julho de 1996, 'Fresh Prince' acabou. Era a segunda-feira seguinte à estréia de 'Independence Day'. Foi a primeira vez que alguém me chamou de 'sr. Smith'. Eu pensei, 'Que raios?' Antes disso, todos me tratavam por 'The Fresh Prince'. Agora eu estava ouvindo, 'Bom dia, sr. Smith!'"
"Foi muito bizarro."
Smith então trabalhou em uma série de grandes sucessos, incluindo "Homens de Preto" (1997), "Ali" (2001), "MIB -Homens de Preto II" (2002), "Bad Boys 2" (2003), "Eu, Robô" (2004), "Hitch: Conselheiro Amoroso" (2005) e "À Procura da Felicidade". Até mesmo "As Loucas Aventuras de James West" (1999), geralmente considerado seu maior fracasso, rendeu mais de US$ 200 milhões nas bilheterias.
Como ele consegue?
"Eu nunca pensei em mim mesmo como alguém particularmente talentoso. Eu sou apenas ligeiramente acima da média. Onde me destaco é na minha ética de trabalho."
Ele está sempre buscando sacudir um pouco as coisas, ele acrescenta, o motivo de estar planejando um retorno sério como rapper, retomando a parceria com o D.J. Jazzy Jeff.
"Jeff e eu nos apresentamos umas duas vezes por ano", diz Smith. "Nós vamos sair com mais força em julho próximo. Nós estamos escolhendo alguns lugares ao redor do mundo para fazer grandes shows. Se trata de retomar a era dourada do hip-hop. Está começando a ocorrer um pequeno ressurgimento."
A família é que liga tudo: seu casamento com Pinkett-Smith, os dois filhos do casal e seu filho Trey, de um casamento anterior. Astro do cinema ou não, diz Smith, ele é um pai dedicado.
"Jaden e Trey são bem simples. Willow apenas quer roupas -ela se veste sozinha desde que tinha 4. Ela é muito específica em relação ao seu estilo. Jaden apenas gosta de ter sua família por perto. Qualquer coisa que mantenha a família junta é tudo o que ele quer."
Isto inclui esforços específicos para salvar seus filhos da síndrome do "Hollywood Brat" (pirralho de Hollywood).
"Nós viajamos com as crianças para que possam ver e experimentar outras coisas", diz Smith. "Nós as levamos para a África do Sul. Nós tentamos fazer com que experimentem como outras pessoas vivem. Nós queremos que acreditem em um conceito de servir à humanidade."
(Tradução: George El Khouri Andolfato)