Não existe nada pior que uma piada sem fim. Aliás, não existe nada pior que uma piada boa sem fim. Heath Ledger, infelizmente, é o protagonista de uma das piadas mais curtas e irônicas do cinema moderno. Indicado ao Oscar de melhor ator pelo papel do caubói gay de "O Segredo de Brokeback Mountain" em 2005, o astro australiano morreu em janeiro deste ano sem ver o resultado final de sua versão perturbadora do Coringa em "Batman - O Cavaleiro das Trevas", que pode lhe render a estatueta mais cobiçada de Hollywood e, de quebra, acabar com a resistência da Academia em premiar filmes baseados em histórias em quadrinhos nas categorias principais.
O elenco da seqüência de "Batman Begins" (2005), reinvenção do Homem-Morcego de maneira mais sombria e realista pelas mãos do cineasta Christopher Nolan ("Amnésia"), evita falar sobre prêmios, mas assume que o colega entregou algo especial como o novo vilão do Batman. "Sabia que estava na presença de alguém incrível quando contracenava a seu lado", recorda o veterano Gary Oldman, hoje mais conhecido pelo papel de Sirius Black na série "Harry Potter". "Heath era como uma estação de rádio, sintonizado numa freqüência que ninguém mais captava. Seu Coringa está em um nível diferente, como Al Pacino em 'Um Dia de Cão' (1975) ou 'Angels In América' (2003), e Jack Nicholson em 'Um Estranho no Ninho' (1975)." O comissário Gordon de Oldman tem apenas uma grande cena com o Coringa, mas Christian Bale, dono do manto negro do Cavaleiro das Trevas e a outra grande força do filme, divide a opinião. "Era algo magnífico vê-lo atuar", exalta o galês, que começou a carreira como o menino perdido na China da Segunda Guerra Mundial de 'O Império do Sol' (1987), dirigido por Steven Spielberg. "O comprometimento e a emoção de Heath eram fenomenais. Reconheci nele o mesmo prazer e satisfação que tenho ao atuar. Seu Coringa será lembrado por muitos e muitos anos."
A rasgação de seda pode ser encarada pelos mais céticos como um último ato de respeito e promoção da máquina marqueteira de Hollywood. Afinal, qual ator iria falar mal de um colega recém-falecido, vítima de uma overdose acidental de tranqüilizantes e analgésicos, às vésperas do lançamento de seu triunfo final? A pulga na orelha logo desaparece. Christopher Nolan não poupa o espectador do Coringa psicótico e anarquista, abrindo "O Cavaleiro das Trevas" com a seqüência de seis minutos de um roubo estrelado pelo palhaço assustador de Ledger, que não faria feio em "Onze Homens e Um Segredo". "Não precisei mudar nada na montagem", afirma o diretor. "Você sempre tenta respeitar o ator na hora da edição e fazer que sua interpretação floresça. Claro que neste caso, a pressão foi multiplicada. Mas já estou aliviado ao perceber a reação das pessoas."
E a reação do cinema era exatamente o que Heath Ledger queria provocar quando perseguiu o papel do Coringa. Ele e Nolan tentaram trabalhar em outros projetos, mas foi somente depois de assistir à atuação do astro em O "Segredo de Brokeback Mountain" que a parceria tomou forma. "Heath foi o primeiro do elenco a assinar o contrato para o filme", revela a produtora Emma Thomas, mulher de Nolan. "Mesmo sem o roteiro, ele sabia o tom que Chris (Nolan) estava procurando desde "Batman Begins" e suas idéias se encaixavam exatamente com a nossa." O diretor confirma: "Nosso conceito do Coringa era igual. Ele precisava ser assustador, um elemento de puro caos e anarquia".
Se o cidadão mais famoso de Perth, cidade do litoral oeste da Austrália, levava a sério o conceito do personagem, sua encarnação nas filmagens era ainda mais intensa. "No momento em que colocava a maquiagem e a fantasia, Heath automaticamente se transformava em outra pessoa", revela Aaron Eckhart, dono do papel trágico de Harvey Dent, promotor público que vira o vilão Duas Caras. O problema é que a imprensa sensacionalista começou a insinuar que Heath Ledger teria ficado tão perturbado ao submergir no Coringa que isso o teria levado à morte. "Isso é baboseira", rebate Gary Oldman, que segue a mesma escola de interpretação de Ledger. "Ninguém fala sobre a intensidade de Christian Bale no papel do Batman, apesar de seguir os mesmos métodos. Veja Daniel Day-Lewis. Ele se transformou em Daniel Plainview em "Sangue Negro" e ainda está vivo, não é?"
"Quando Heath removia maquiagem, ele era uma companhia maravilhosa", esclarece Christian Bale. "Sentávamos juntos e contávamos piadas o tempo todo. É um trabalho ridículo este que temos e, quanto mais a sério levamos, mais divertido fica." Oldman confirma a história: "Nos intervalos, íamos fumar juntos e ele falava sobre sua filha, Matilda. Para ser contaminado pelo Coringa, a pessoa precisaria ser bastante desorientada. E Heath estava longe de ser desorientado. A mídia gosta de histórias sombrias". No meio de tanta testosterona e atores consagrados, Maggie Gyllenhaal, que substitui a sra. Tom Cruise (leia-se, Katie Holmes) na pele da assistente da promotoria Rachel Dawes, grande amor de Bruce Wayne, alter ego do Batman, é mais doce. "Acho que Heath fez algo importante para um ator quando assume um papel assim", diz a atriz. "Ele pegou alguém que parece ser o mais puro mal e conseguiu fazer transparecer pitadas de bondade, dor e sensualidade no personagem. Isso permite uma certa compaixão da platéia pelo Coringa."
Compaixão por um assassino que cantarola risadas histéricas enquanto centenas de pessoas morrem em Gotham City no filme de quadrinhos mais pesado da história? A afirmação só perde em improbabilidade para a campanha para primeiro Oscar póstumo desde 1977, quando Peter Finch levou como melhor ator por "Rede de Intrigas". A interpretação de Heath Ledger em "Batman - O Cavaleiro das Trevas" é um espetáculo detalhista (do modo de falar ao jeito curvado de andar) e desperta boatos de prêmios a cada exibição para a imprensa, que aplaude seu nome nos créditos sem a menor cerimônia. A indicação não deve ser difícil. O Oscar dependerá do humor dos sempre conservadores acadêmicos. Mas nada como um palhaço para mudar essa história.