- Mais
- Novo filme de Zé do Caixão participará do Festival de Veneza
Não foi apenas para o Zé do Caixão que se passaram quatro décadas até o seu retorno triunfal em "Encarnação do Demônio", filme que encerra a trilogia do personagem. Mas o cinema do diretor José Mojica Marins mostra-se naturalmente transformado com o tempo e se atualiza com as tendências contemporâneas do cinema de horror.
Até pelo próprio orçamento, na casa dos milhões de reais, a continuação de "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" (1964) e "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" (1967) se apresenta mais como um cinema mais 'mainstream' que o caráter independente e marginal (quase artesanal) do início da carreira.
Mojica ao longo dos anos adquiriu o status de "cult" e, para concluir o seu projeto, contou não só com mais recursos, como conseguiu agregar parceiros que admiram seu trabalho e queriam contribuir para uma produção em grande estilo: a exemplo de Paulo Sacramento (produtor executivo), Dennison Ramalho (diretor assistente) e André Kapel (coordenador de efeitos especiais).
Kapel, conhecido como Kapel Furman, é um dos responsáveis pela modernização estética do filme, em que os requintes de violência e 'takes' escatológicos provocam mais as reações do público da geração "Jogos Mortais" que o horror psicológico e o suspense mitológico comum ao filmes de terror dos anos 60, quando surgiu a trilogia.
"Sem dúvida eu era o mais 'hardcore' da equipe, queria ver muito mais sangue e violência, e ficava até chateado com as ponderações do Mojica. Mas hoje, vendo o filme pronto, acho que as cenas de horror ficaram na medida certa, se fosse do meu jeito teria perdido a mão e o filme acabaria restrito a um público muito específico de terror", argumenta Kapel.
Entre as cenas mais fortes, destaque para as mutilações e torturas, como escalpelamento, suspensão (no estilo 'body art'), cenas com ratos, baratas e aranhas. O ponto alto: o "nascimento" de uma mulher feita de dentro de um porco. Tudo literal, já que os efeitos computadorizados na pós-produção quase não foram utilizados.
Kapel conta que apesar de o filme ter um tom extremado, o trabalho tem como influência o terror clássico, gênero em que os filmes utilizavam efeitos de set (feitos durante as gravações) com o uso de maquiagem, caracterização e direção de arte. O "mágico" dos efeitos relembra entre os momentos mais difíceis as tomadas de chuva de sangue, representação do purgatório e a cena em que uma das seguidoras do mestre Zé do Caixão devora a própria nádega.
"Foi muito interessante poder contribuir, sugerir algumas coisas que o Mojica nem pensava que eram possíveis. A grande vantagem de a gente fazer tudo no set é a resposta imediata do ator, ele vivencia a cena sem precisar imaginar o que está acontecendo, como nos filmes com efeitos digitais em que o elenco interage às vezes com um estúdio vazio. Além disso, o diretor acompanha tudo exatamente no ângulo, do jeito que ele quer. E nisso fomos bastante fiéis ao terror clássico", diz Kapel.
Kapel defende ainda que o gênero funciona como um ótimo portifólio, em que os efeitos especiais podem dar vazão à criatividade, já que permite um foco na parte visual com apelo sensorial. Entretanto, os efeitos devem caminhar em harmonia com o filme, que é o mais importante: "Se numa cena o efeito visual grita mais que outros elementos, como atuação, fotografia, etc, é por que é mal feito".
No caso de "Encarnação do Demônio", os exageros com a assinatura de Kapel favorecem o retorno de Zé do Caixão, o símbolo do terror nacional. O responsável pelos efeitos visuais do filme vibra com a participação do longa, já premiado no Festival Paulínia de Cinema,
no Festival de Veneza.
"É muito positiva a entrada em um festival de tanto prestígio, isso quebra o preconceito com o filme que erroneamente é chamado de trash - um subgênero do terror mal feito propositadamente e com certo discurso sócio-político - que nada tem a ver com o cinema do Mojica. O filme é maior que isso e merece ser visto por muita gente, além dos fãs de terror", avalia.