"Hoje em dia, eu tenho medo de morrer", diz José Mojica Marins
ALESSANDRO GIANNINI Editor de UOL Cinema
No bairro de Santa Cecília, próximo do centro velho de São Paulo, fica a rua Dr. Frederico Steidel, paralela à avenida São João de um lado e do famoso Elevado Costa e Silva (o Minhocão) do outro. Bem no meio dessa via calma e isolada, fica um prédio baixo, construído provavelmente nos anos 40 ou 50, que abriga ao mesmo tempo a residência de José Mojica Marins e a produtora do criador do Zé do Caixão.
José Mojica Marins no papel de Josefel Zanatas, o Zé do Caixão: "Ele só acredita no poder da mente!"
O ambiente funcionaria bem como cenário de um de seus filmes de terror. Ao subir um lance de escada, o repórter entra em uma espécie de ante-sala formada por divisórias imitando madeira. Do lado oposto, as paredes brancas ostentam quadros com reproduções de reportagens e fotos de momentos históricos da carreira de Mojica, como o "primeiro corte de unhas" ou algumas das várias homenagens feitas a ele.
Depois de alguma espera, escutam-se vindo do corredor o som de passos fortes e, logo em seguida, da voz grave. Não demora muito para que Mojica se materialize. À paisana, ele não parece tão assustador. Os óculos grossos escondem olhos pequenos, a barba normalmente bem cuidada está grande, sem recorte e esbranquiçada. Faltam-lhe as indefectíveis cartola e capa pretas.
Mais de 40 anos depois de "Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver" (1967), o Zé do Caixão volta para se redimir de uma saída de cena nada honrosa. O coveiro que buscava pela "Mulher Superior", foi morto em um pântano, acuado pela população e arrependido dos males que fez. Na verdade, a cena final do filme foi mudada por pressão dos militares e da Censura da época. "Encarnação do Demônio", que entra em cartaz na sexta (8), vai corrigir esse erro e preencher lacunas na história.
UOL Cinema - Há pouco mais de um ano, foi feita uma grande retrospectiva de sua obra. Foi a primeira vez que fizeram algo assim tão completo? José Mojica Marins - Uma coisa completa foi a primeira vez. Fizeram muitas homenagens, mas sempre foi aos pedaços. Uma coisa com tudo que tenho, é a primeira vez. Recuperaram coisas que nem mesmo eu lembrava de ter feito. Fotos reportagens, muita coisa.
O que você não lembrava de ter feito? Teve muitas fitas que eu comecei e, por problemas de produtores que quebraram, não tiveram prosseguimento. Como teve umas vinte que aconteceu isso, a gente nem se lembra. Quem me dava sustentação financeira, quebrava. Mas não era culpa minha.
José Mojica Marins no papel de Josefel Zanatas, o Zé do Caixão: "Ele só acredita no poder da mente!"
Por isso que ganhou a fama de maldito? Teve um cara, do qual não me lembro o nome agora. Ele entrou, comprou 10% do "Ritual de Sádicos" na época. Em vez de se interessar pelos projetos, fazer o roteiro comigo, começou a se dedicar a outros projetos. No fim, fez quatro fitas no Rio, elas ficaram engavetadas e ele quebrou. Nenhuma foi pra frente. Quando tava com tudo pronto, cheguei pra ele e disse: "Então, Doutor" - era advogado. Ele me disse que estava quebrado. Podia pelo menos ter deixado uma grana pra fazer o filme?
Com "Encarnação do Demônio" parece que as coisas entraram nos eixos. "Encarnação" é uma fita difícil de bater. Uma produção grandíssima. Tem o Jece Valadão, é último filme dele. A equipe veio de filmes como "Central do Brasil", "Carandiru", "Cidade de Deus". A fotografia é forte. Na parte de efeitos, fizemos coisas que ninguém faz - e tudo artesanal, não tem nada de computador. E foi uma exigência que eu trabalhasse na fita, porque não queria trabalhar.
Onde esse filme se situa na cronologia do Zé do Caixão? É uma continuação [encerra a trilogia iniciada em 1964 com "À Meia-Noite Levarei Sua Alma" e levada adiante com "Esta Boite Encarnarei no Teu Cadáver"]. Em 66, quando filmamos, eu tinha 31 anos. Era muito complicado. A diferença era muito grande, mas os caras insistiram, queriam que fizesse o filme. Então, eu mesmo acabei achando uma solução. A fita ficou com uma lógica. Depois de dez anos no manicômio e mais trinta na prisão, o Zé do Caixão sai. Mas com os pés no chão, o fiel corcunda esperando ele na porta.
É o seu filme mais caro, não? Ficou na casa dos R$ 4 milhões [os produtores informam que oficialmente o valor do filme é de R$ 1,8 milhões]. O mais caro que eu fiz foi R$ 120 mil. Nunca imaginei isso. Se antes você me desse esse valor, eu era capaz de fazer umas dez, doze fitas com o dinheiro. Não foram poupados esforços. Vai fazer inveja aos americanos. É coisa nossa, brasileira. Não tem essa de lobisomem, múmia, dráculas da vida. Tenho certeza de que se amanhã eu morrer, o pessoal vai dizer que andava em vassoura, atravessava parede. O personagem não acredita em Deus, nem no Diabo. Não sei por que dizem que ele é satanista. Ele não acredita em espírito desencarnado, não acredita em p... nenhuma, a não ser na força da mente. Ele protege criança por causa da inocência. Não entendo porque dizem que ele tem pacto com o diabo, se ele desdenha do diabo, tira sarro do dele. Mas isso é só aqui, lá no exterior, não.
Não? Eu estava em um festival no Canadá. E o diretor chegou pra mim e disse: "Não fique triste porque aqui sabemos que o Zé do Caixão é uma criação e o José Mojica Marins, o seu criador. E aqui é o primeiro Mundo, lá é o terceiro. Então, você tem que perdoá-los. Não leva a sério". Isso me deu uma força muito grande. Tanto que, quando cheguei aqui de volta, já fazia muitas palestras em faculdade. Mas depois que cheguei, não parei mais. Toda semana faço palestras em faculdades.
Para passar realmente as minhas idéias, ajudar os jovens a surgirem como novos cineastas. E para ajudá-los a entrar nesse campo [o gênero de terror]. O Brasil é um país mais místico, gosta do gênero e não tem quem faça. Só eu. Então, estou incentivando a pegarem esse lado que nunca tem fim. Por que não tem fim e não tem época? Porque, enquanto existir a morte, vai existir o terror. A pessoa teme a morte, não sabe o que acontece do lado de lá. Então, fica vendo através do terror se acha um caminho pra ele. Fala: quem sabe atrás disso, eu vislumbro algo.
Essa é a grande força do gênero? É a maior força. Enquanto existir a morte, vai existir o terror. Então, a morte vai existir, que eu saiba, eternamente. E o terror nunca vai sair de moda, nunca vai sair.
O cara pode dizer diz que está doente, sofrendo horrores. Se você diz que ele vai morrer, aí ele não quer. Prefere sofrer as dores, mas não morrer. O cara diz que não tem medo da morte, mas se alguém enfia uma [arma calibre] 22 ou uma 38 na cara dele, já muda completamente. Ninguém quer morrer, é tudo papo-furado.
E você, tem medo de morrer? Houve uma época que eu era meio doidão. Mas através do tempo, você vai colocando os pés no chão. Eu tenho sete filhos, onze netos. Sou um homem que vivo agora e tenho medo do dia seguinte. Porque é tanta violência, tanta coisa.
Aí, você começa a pensar que tem uma família pela frente, e minha família é grande. E nem todos estão independentes. A impressão que tenho é que, se eu morrer, ninguém vai olhar por eles. Isso me mete um medo danado. Quando sinto qualquer problema, como agora, que estou fazendo uns exames, a primeira coisa que penso são os netos. E vem mais neto e, logo mais, bisneto. A coisa tá...
E você está bem de saúde? Eu só tenho um probleminha no olho esquerdo. Realmente só tô com o centro da visão. Fiz os exames, mas não recupero mais. Com os óculos posso chegar a 20% da visão. Só que o que aconteceu com o olho esquerdo ta começando o olho direito. O Paulo [Sacramento, produtor do filme] está preocupado com isso. Essa é a grande preocupação, agora.