Se em seu longa de estréia "Redentor" o diretor Cláudio Torres tratou de problemas sociais do Brasil e de sentimentos como competição, inveja e cobiça, "A Mulher do Meu Amigo", que estréia nesta sexta-feira (21), quer ser "pura diversão" e sem grandes pretensões, segundo o diretor.
Inspirado na peça "Largando o Escritório", do dramaturgo e diretor de cinema Domingos de Oliveira, o filme conta a história de Thales (Marcos Palmeira), um advogado em crise existencial que decide repentinamente parar de trabalhar. Ele se apaixona pela mulher de seu grande amigo Rui (Otávio Müller), sem saber que o amigo mantém há anos um caso com Renata (Mariana Ximenes), sua própria mulher.
Os 15 anos de experiência de Torres na direção de comercias de TV influenciam nitidamente a estética do filme. O "arsenal de referenciais" - como diz o diretor - trazidos da publicidade está presente, por exemplo, na cena em que o personagem de Marcos Palmeira brinca com as crianças no jardim e quando toma uma caipirinha dentro da piscina. "Minha escola cinematográfica foi a propaganda. Foi lá que aprendi a me relacionar com a câmara. A diferença é que agora esses recursos estão a serviço de uma narrativa um pouco mais maldosa", explica.
Torres define essas influências da linguagem publicitária como um "efeito colateral involuntário" na busca por um filme "com luxo, visualmente atraente, com roupagem de cinema graúdo e que possa oferecer um espetáculo ao público", preocupações que não fazem parte da dramaturgia de Domingos de Oliveira, segundo o diretor. "Apropriando-me dos personagens ricos e conflitantes da peça e dando a eles uma roupagem hollywoodiana, ou publicitária involuntária, a gente fica com um filme macio de assistir".
A escolha do elenco pode causar surpresa. Segundo Torres, Mariana Ximenes e Maria Luisa Mendonça se invertem nos papéis esperados para cada uma. À primeira, normalmente associada a heroínas românticas de TV, coube o papel de moça mimada, sensual e um pouco histérica, enquanto Maria Luisa interpreta a frágil e ingênua Pâmela. "O Otávio [Müller] jamais seria escalado para ser o amante da Marina Ximenes", diz o diretor, que espera que o casal inesperado provoque um "ruído cômico" na platéia.
Com um filme feito sob medida para agradar as classes B e C, segundo Torres, o diretor não espera grande repercussão entre a crítica especializada, ao contrário do que aconteceu com seu último filme. Selecionado pelo Festival Internacional de Berlim de 2005, "Redentor" ainda lhe rendeu o título de melhor diretor no Grande Prêmio da Academia Brasileira de Cinema. "Fui chamado para fazer um filme popular e fiz o mais popular que consegui usando o máximo de sofisticação; os intelectuais não vão cair de amores por ele", diz.