Cultuado diretor de clipes musicais, vídeos virais e do longa-metragem "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças", o francês Michel Gondry chega a São Paulo hoje para inaugurar "Rebobine, por Favor - A Exposição", inspirada no seu filme mais recente. Exibido no encerramento do Festival de Berlim, em fevereiro, e no festival do Rio e na Mostra de São Paulo, conta a história de dois amigos, Jack Black e Mos Def, que apagam acidentalmente todas as fitas de uma videolocadora. Para não prejudicarem o dono, interpretado por Danny Glover, eles resolvem "refazer" todos os filmes de forma caseira. E as "cópias" fazem sucesso no bairro.
A exposição, inaugurada no início do ano em Nova York, na galeria Deitch Projects, proporciona aos participantes a experiência de fazer um filme com poucos recursos e muita imaginação, como fazem na tela os personagens de Black e Def. Gondry escreveu um livro, "You'll Like This Because You're in It: The Be kind Rewind Protocol", em que reproduz um workshop dado aos espectadores inscritos para participar da experiência interativa. Os grupos se reúnem, criam uma história e usam treze cenários customizáveis para fazer seus filmes usando câmeras e computadores com programas de edição fornecidos pela organização.
Os workshops serão oferecidos diariamente em dois horários. A exposição é gratuita e os filmes realizados poderão ser vistos em um dos cenários que recria a locadora do filme de Gondry. E alguns deles também poderão ser vistos na área de vídeos de
UOL Cinema e na
TV UOL. Para participar, é necessário fazer cadastro no site:
www.rebobineporfavorexposicao.com.br. O público poderá participar a partir de terça (2) e até 11 de janeiro de 2009, no Museu da Imagem e do Som.
A seguir, Gondry conta em entrevista por telefone ao
UOL Cinema, de sua produtora, em Nova York, qual a expectativa em relação ao que o público irá produzir em São Paulo. E de sua percepção sobre o cinema comercial hoje.
UOL Cinema - "Rebobine, por Favor - A Exposição" é mais uma experiência comunitária do que cinematográfica, certo?Michel Gondry - Completamente. A exposição é muito mais uma experiência comunitária. As pessoas que fazem parte do grupo aprendem a contribuir para uma produção criativa. Da forma como o "protocolo" é montado, todas têm oportunidade de participar, todo mundo tem um papel. E o resultado é sempre diferente. Dirigir um filme é uma experiência ditatorial. Todo mundo que participa obedece a uma voz única, a do diretor.
UOL Cinema - Mas você é um diretor.Michel Gondry - Sim, faço isso para sobreviver. Mas isso não significa que as pessoas [comuns] não podem ter uma experiência semelhante. Ir a um dos parques [de diversões] da Universal e participar daqueles "tours" não significa que você vai aprender o processo de filmar. Isso é uma bobagem. Os estúdios fazem isso para ganhar dinheiro. É só no que eles estão interessados.
UOL Cinema - Você considera que existe uma crise criativa no cinema?Michel Gondry - É interessante que as pessoas estejam se perguntando isso. O grande problema é o conteúdo dos filmes. Os estúdios querem agradar ao público, então, fazem pesquisas, sessões-teste e mudam as histórias, os finais. Tudo em nome de deixar o espectador mais à vontade. Mas isso não é verdade. Eles só fazem isso pensando em ganhar mais dinheiro. Esse é o meu problema com o sistema: eles não querem mais nada que seja pessoal e original. E o que é pessoal e original faz bem para o público. Faz com que os espectadores trabalhem [a cabeça].
UOL Cinema - Como foi a resposta do público à exposição em Nova York?Michel Gondry - Por isso estou muito curioso com o que vai acontecer em São Paulo. Em Nova York, tivemos a participação de pessoas de todas as idades, origens e classes sociais. Brancos, negros, hispânicos. No começo, tivemos que resolver um problema: havia muitos que se inscreviam para participar e queriam impor suas idéias. E queríamos que outras pessoas participassem, justamente para evitar a repetição desse modelo instituído. Boas idéias estão em todos os lugares.
UOL Cinema - Como foi a exposição em outros países?Michel Gondry - Fizemos uma versão nos subúrbios de Paris, mas sem os cenários. Adaptamos o protocolo para que os grupos fizessem os trabalhos na rua. Os resultados foram muito interessantes. Tivemos uma versão em Tóquio e queremos fazer em Londres também.
UOL Cinema - Você é um cineasta estabelecido, reconhecido e com uma carreira sólida dentro do sistema que critica. Pode explicar isso?Michel Gondry - Eu tenho muita sorte de fazer o que faço para viver. E acho que me sinto plenamente satisfeito. O problema do sistema é que existe uma espécie de rede de proteção em torno das pessoas que fazem parte da indústria. Ou trabalha-se com os amigos ou com pessoas que não ameaçam a posição de quem está contratando. Não há uma renovação natural.