Dia de visita. Detentos conversam com familiares sob lonas estendidas no pátio; outros se exercitam em uma academia de ginástica improvisada. Todos vestem calças amarelas, motivo de desconforto entre os presos, que reivindicam a volta do tradicional cáqui. Lúcia, uma professora de piano de classe média, chega e procura pelo filho Rafael, de 18 anos, preso depois de se envolver em uma briga que terminou em assassinato.
A cena é do filme "Salve Geral - O Dia em que São Paulo Parou", do diretor Sergio Rezende, inspirado nas rebeliões e atentados do PCC que paralisaram a capital paulista em maio de 2006. No longa, que deve estrear nos cinemas no fim do ano, Andréa Beltrão vive a professora Lúcia. Endividada e tentando proteger o filho (interpretado por Lee Thalor), ela se envolve com uma organização criminosa e passa a agir no limite entre o crime e a legalidade.
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UOL Cinema acompanhou um dia de filmagem no Complexo Penitenciário Frei Caneca, no centro do Rio de Janeiro, desativado há três anos. Durante uma pausa nos trabalhos, de chapéu e óculos escuros sob o calor de quase 40ºC em fevereiro, o diretor de "Zuzu Angel" e "Guerra de Canudos" conta que o drama pessoal de Lúcia abrange o período de um ano, entre o dia das mães de 2005 e o do ano seguinte - dia dos atentados. Além do drama, o filme terá também elementos de ação e de crítica social, segundo o diretor. "A ambição é conseguir equilibrar os três", diz Rezende, e explica que a ação do filme não é "a dos filmes de James Bond, e sim aquela que vemos todos os dias nos telejornais".
"Salve Geral" entra na lista dos filmes recentes que abordam a criminalidade urbana. Depois dos sucessos de bilheteria "
Carandiru" e "
Tropa de Elite", ainda serão lançados até o fim do ano "Rota Comando", sobre a Rota paulistana, e "
400 Contra 1", sobre a história do Comando Vermelho. Qual seria o motivo de tanta atenção ao tema? Andréa Beltrão, que também atua no thriller policial "Verônica", não acredita que o interesse por filmes que abordam organizações criminosas seja maior. "São simplesmente bons filmes feitos por bons diretores, por isso o sucesso", diz, antes de começar filmar a cena em visita o filho preso.
"Matéria sutil da própria vida"Como o filme se passa em São Paulo, a diretora de arte Vera Hamburger precisou dar um ar de presídio paulista ao local. "No Frei Caneca há menos intervenção dos presos, como as barraquinhas nos pátios e os aparelhos de ginástica improvisados" diz Vera, sentada sobre um tablado de alvenaria no centro do pátio construído especialmente para o filme.
Vera também precisou quebrar paredes para criar celas de seis presos, típicas do Carandiru, que lhe serviu de inspiração - as cenas filmadas no Frei Caneca se passam em uma prisão fictícia. "Precisávamos de um pátio para as cenas. Dava para encontrar uma fábrica e adaptar as janelas, trocando-as por grades, mas seria uma obra gigantesca, com um custo que o filme não tinha".
Os objetos feitos pelos próprios presos e abandonados no local, como bancos de madeira e armários de papel feitos com jornal enrolado, assim como colagens e pinturas nas paredes, puderam ser aproveitados nas filmagens. Mesmo assim, Vera é pragmática: "Como diretora de arte, poderia fazer isso tudo em estúdio. Tanto que em 'Carandiru' [em que trabalhou como cenógrafa] recriamos todas as celas", conta. "Construir do zero ou adaptar é apenas uma questão de tempo e dinheiro".
O diretor Sérgio Rezende vê a questão de outra forma: "Altera profundamente o trabalho [filmar em um presídio de verdade], porque somos seres humanos sensíveis. A cela do Rafa, por exemplo, tem a parede inteira com pinturas de armas. Ali, a realidade é mais poderosa que a imaginação", diz. "Isso tudo mobiliza a sensibilidade do ator. Ainda que o talento dos cenógrafos seja capaz de reconstruir aquilo tudo, no estúdio falta essa matéria sutil da própria vida".
Inspiração para o roteiroComo então transpor para o filme a sensação de pânico que acometeu grande parte dos paulistanos naquela segunda-feira dos atentados se nem o diretor ou a protagonista estavam em São Paulo no dia? Para Andréa Beltrão, não é imprescindível ter vivenciado o pânico para encontrar o tom da sua personagem. "O medo está dentro de nós", diz.
Rezende conta que a inspiração para o roteiro do filme surgiu por acaso, quatro meses depois dos acontecimentos que ele acompanhou pela televisão. "Estava dirigindo sozinho a caminho de Minas Gerais e no meio da estrada me caiu feito um raio essa história", lembra. "Estava procurando um assunto para um filme. Procurei o Joaquim Vaz [produtor], que ficou entusiasmado", conta Rezende, que assina a versão final do roteiro, em que também trabalhou Patrícia Andrade.
CalorComo as cenas filmadas no presídio se passam logo depois do inverno da capital paulista, o calor de verão do Rio de Janeiro incomodou. Atores e figurantes precisavam se vestir de forma adequada à estação do ano, e muitos sofreram com casacos, ternos e calças compridas. Nem Andréa Beltrão escapou, e precisou vestir um sobretudo por alguns momentos. Em outra cena, foi preciso uma pausa para secar os cabelos da atriz, molhados de suor.
Nem mesmo toda a água mineral fornecida pela produção impediu que um dos figurantes passasse mal no calor, e precisasse repousar à sombra por um tempo. Além do calor, a equipe de produção e os figurantes ainda tiveram que lidar com a falta de infra-estrutura de um local abandonado. Mato alto, mosquitos, falta de água e entulho por todos os lados.
As filmagens de "Salve Geral" começaram em outubro. Antes de passar pelo Rio de Janeiro, já tinham acontecido em Paulínia, Campinas e São Paulo. Em Paulínia foram construídos os cenários de estúdio, entre eles um dos principais do filme, que é a casa da professora Lúcia. As locações exteriores em Campinas e Paulínia foram a alternativa encontrada para representar a cidade de São Paulo nas telas, evitando todos os complicadores de se filmar na capital, conta a diretora de arte Vera Hamburger.
Mas também foram filmadas cenas em locações emblemáticas de São Paulo, como a avenida Paulista, que será mostrada completamente deserta. Sobre as cenas em Foz do Iguaçu, que seriam filmadas dali alguns dias, a diretora de arte prefere manter o suspense e não conta o que acontece. É esperar até o fim do ano para assistir nos cinemas.