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07/05/2009 - 10h07

"Import Export" choca ao mostrar o comércio dos valores morais na Europa

EDILSON SAÇASHIMA
Da Redação
O filme "Import Export", que integrou a mostra competitiva do 60º Festival de Cannes, aborda as fronteiras que são ultrapassadas. Uma delas é evidente. Trata-se da passagem dos personagens de um país a outro, do trânsito entre o Oeste e o Leste europeu, entre a rica e a pobre Europa. Mas há também a fronteira moral. São nesses momentos em que o cineasta austríaco Ulrich Seidl propõe revelar o rompimento dos limites morais que o filme ganha cores perturbadoras.
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    "Import Export" choca ao mostrar o comércio dos valores morais na Europa

Ulrich, diretor de "Dog Days", ganhador do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza de 2001, parece se questionar o quanto é possível abdicar da dignidade e de outros valores morais em nome do trabalho, ou seja, do modo de sobrevivência do homem moderno. Para isso, o cineasta conta a história de dois personagens, a ucraniana Olga e o austríaco Paul, que jamais irão se encontrar no filme.


Olga é uma enfermeira e mãe solteira que vai tentar a sorte na Áustria. Seu primeiro emprego será em um site de sexo virtual. Diante de uma webcam e de uma tela de computador, ela faz striptease e se masturba ao comando do internauta. Depois torna-se empregada doméstica em uma casa na Áustria onde é humilhada por uma criança e demitida logo que a dona da casa percebe que seus filhos começam a se aproximar de Olga . No trabalho seguinte, ela faz a limpeza de banheiros públicos e, por fim, torna-se faxineira em uma clínica geriátrica.

Paul é alguém sem sorte no trabalho. Torna-se segurança, mas é humilhado por um grupo de baderneiros. Depois, junto com seu padrasto Michael, segue rumo à Eslováquia para onde exporta máquinas de videopôquer. Em seguida, os dois partem para a Ucrânia, onde irão usufruir noites de bebedeira e sexo.

Seria fácil, talvez até reconfortante, classificar a trajetória desses personagens como uma derrocada moral. Mas o cineasta austríaco não parece interessado em julgamentos de valor. Ao contrário, a imagem que Ulrich mostra parece incomodar justamente pela sua crueza. O que choca aqui é a amoralidade de todas as imagens, a ausência de valores.

Vale destacar, por exemplo, a cena entre Paul, seu padrasto Michael e uma prostituta. Nesta seqüência, um Michael bêbado humilha a prostituta. A cena, como todo o filme, flerta com o documental, e, segundo o jornal inglês Independent, a garota não é uma atriz, mas uma prostituta na vida real. Esses elementos tornam a sequência ainda mais intensa.

O apelo ao sexo talvez seja o recurso mais óbvio para se questionar a perda do caráter humano nas relações interpessoais. Talvez por isso o filme tenha logo em seus primeiros minutos, como uma espécie de cartão de visitas, a seqüência na empresa de sexo virtual, onde o sexo das garotas é exibido explicitamente, sem pudores, numa relação sem contato humano, mediada pela internet.

Mas essa talvez não seja a maior provocação do cineasta. É igualmente perturbadora a segunda parte do filme, quando Olga trabalha em um asilo para idosos. Nessa fase de "Import Export", vale ressaltar a proposta de casamento de um idoso em estado terminal à Olga. Seria mais uma troca comercial: ele teria alguns momentos de prazer e ela teria o direito de permanecer na Áustria.

No filme, a ausência de valores é perceptível nas relações que são estabelecidas entre as pessoas. Todas as relações humanas são baseadas no trabalho ou na troca comercial. No mundo de "Import Export", os sinais de afetividade são motivos de desagregação e atrito. E os valores morais se tornaram mercadoria para ser vendida, importada e exportada.

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