Saldo atual de 40 anos de "Star Trek": acompanhar os principais personagens saírem de cena na TV e filmes para o cinema, atores falecerem na vida real e ver a última série, batizada de "Enterprise" ser cancelada após quatro temporadas, em 2005.
Este novo "Star Trek", que estreia nesta sexta (8) nos cinemas do país, não é mais um filme baseado no universo criado por Gene Roddenberry. É uma tentativa de dar vida nova à franquia, que rendeu mais de 700 episódios e dez longa-metragens.
O diretor J.J. Abrams, que tem em seu currículo a série "Lost" e o longa "Missão Impossível III", não se deixou intimidar pela pressão dos fãs e assumiu o desafio. Abrams afirmou nunca ter visto episódio de "Star Trek", o que é difícil de acreditar após assistir ao filme. Também disse que o trekker pode se decepcionar, o que pode ser verdade, mas isso não tira o mérito do trabalho.
Velhos heróis em novas facesComo fã declarado, meus dois grandes temores no décimo primeiro filme eram a troca de atores, que assumem os papéis de meus antigos heróis, e se, na tentativa de agradar um público jovem, seria um longa visando também venda de bugigangas como naves espaciais e monstros alienígenas. Abro parênteses para pedir desculpas, caso ofendo, aos fãs de "Star Wars", que também aprecio.
Receios infundados, o "Star Trek" de J.J. Abrams tem o mérito de capturar parte da essência do seriado original e transportá-lo para a telona de forma irrelevante para quem não é familiarizado com a franquia. A história, baseada no seriado clássico, mostra como o capitão James T. Kirk (Chris Pine), o oficial de ciências Spock (Zachary Quinto) e o cirurgião médico McCoy (Karl Urban) se conheceram, ainda nos tempos de academia.
Outros personagens marcantes do seriado como a oficial de comunicação Uhura (Zoe Saldana), o navegador Sulu (John Cho) também entram em cena. Até mesmo Leonard Nimoy (o Spock original) tem papel fundamental no enredo. Os atores Anton Yelchin e Simon Pegg deram uma ar mais divertido ao alferes Pavel Chekov e o engenheiro-chefe Montgomery Scott, respectivamente. A escolha do jovem elenco foi muito feliz. Em determinados momentos, principalmente nas relações entre o trio principal, a sensação é de estar assistindo a um episódio do seriado clássico. Mas as semelhanças com a TV param por aqui.
Se os episódios para a TV abordam, de maneira geral, o altruísmo de uma raça humana que superou a pobreza e conflitos entre as nações, no cinema "Star Trek" sempre privilegiou a ação, com a tripulação tendo de enfrentar um vilão ou ameaça que pode pôr fim à raça humana. Não é diferente neste novo filme.
Jornada de efeitosNão passou pela cabeça dos roteiristas concorrer ao Oscar, mas nota-se que a história é bem intencional ao atender os interesses dos produtores. O foco do filme está nos personagens e no relacionamento da tripulação. Ele respeita e homenageia os fãs, mas foi concebido para quem não gosta ou conhece "Star Trek".
Os primeiros 40 minutos apresentam o vilão Nero (Eric Bana), passam pelas infâncias rebeldes de Kirk e Spock (espere algumas surpresas emocionais e ilógicas do vulcano) e culminam na catástrofe que reescreve a história de "Star Trek". Sempre em ritmo frenético. As explicações são breves e a ação volta com força total até a conclusão. Ou melhor, até "a falta de" já que os eventos indicam que uma continuação depende de quanto "Star Trek" irá arrecadar de bilheteria.
Anos-luz no futuro estão os efeitos especiais. Não é a primeira vez que a Industrial Light & Magic trabalha em parceria com a Paramount em um filme da franquia, mas certamente não com este orçamento. A mudanças não é só na quantidade de explosões e elementos de computação gráfica, mas na direção que eles tomam. É como se o futuro perfeito visualizado por Roddenberry, com cada parafuso em seu devido lugar, fosse esquecido para dar espaço a um universo caótico. Fãs vão reconhecer um ou outro efeito sonoro ou peça de mobília da série clássica, mas cenas de batalhas poderiam estar em qualquer filme da trilogia recente de "Star Wars". A diferença é que não há interrupções para explicar dilemas morais dos personagens.
A ideia de usar o cinema para ressuscitar o seriado não é nova e funcionou com "A Ira de Khan" (1982), mas não com tanta ousadia. Irônico que o melhor filme de "Star Trek" em 25 anos talvez desagrade uma ala mais purista da comunidade, mas seria difícil trazer a série ao século 21 sem estas mudanças. Possivelmente as sequelas que o enredo deixa na cronologia oficial não serão revertidas numa quase certa continuação. "Star Trek" de J.J. Abraham reescreve o universo e abre uma nova linha do tempo que deverá ser reescrita pela Paramount para uma nova geração.
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(O autor, que edita as estações de Jogos, Viagem, Crianças e Bichos no UOL, é fã declarado de "Star Trek" e diz também gostar muito de "Star Wars")