Em uma das raras entrevistas que concedeu, o documentarista francês Chris Marker, ao explicar porque recusa o rótulo de cineasta engajado, disse que seu maior interesse é a história. "A política me interessa apenas na medida em que carrega a marca da história no presente", disse ao jornal francês "Liberation", em 2003. Tentar entender de que "história" fala Marker é um ponto de partida para compreender os filmes que compõem a retrospectiva "Chris Marker, bricoleur multimídia", que acontece no Rio de Janeiro (26 de maio a 7 de junho), Brasília (16 a 28 de junho) e São Paulo (24 de junho a 5 de julho), e traz 33 trabalhos do documentarista.
O filme "O fundo do ar é vermelho" ("Le fond de l'air est rouge", 1977), um dos trabalhos exibidos, por exemplo, dá munição tanto para aqueles que veem Marker como um cineasta engajado, como para os que adotam o ponto de vista do cineasta. O documentário é um grande painel das transformações políticas que ocorreram de 1967 até 1977.
Marker passa pelo conflito do Vietnã, pela Primavera de Praga, Maio de 68, a morte de Che Guevara e o golpe militar no Chile que derrubou Salvador Allende. O resultado final é um painel crítico sobre a esquerda da época. O filme é um retrato de dez anos de história política feito com a junção de uma série de imagens e que não está isento de posicionamento.
É nesse ponto que podemos compreender a escolha do termo "bricoleur" para o nome da mostra. A expressão francesa é associada à ideia de bricolagem, como o trabalho que resulta em uma colcha de retalhos. Pois essa é uma metáfora para "O fundo do ar é vermelho", uma reunião de material de arquivos reorganizados para sugerir um sentido novo.
Essa construção de sentido é a proposta de Marker sobre uma determinada maneira de se compreender o que é história. Não se trata de um olhar isento, mas uma construção que leva em conta fatores como o tempo, a memória e o indivíduo. Assim, "Sem Sol" ("Sans Soleil", 1982), que será exibido na mostra, é um bom exemplo das preocupações estéticas e éticas de Marker.
Nesta crônica, uma voz em off lê cartas de um viajante que passou pelo Japão, Guiné-Bissau, Islândia e França, enquanto vemos imagens desses locais na tela. Mas não são apenas de ilustrações do que se ouve. Marker constrói "Sem Sol" de tal forma que coloca em jogo a relação entre o que se ouve e o que se vê, entre si mesmo (as cartas) e o outro (as imagens), da estrutura da memória e da sua reconstrução. Seria, em última instância, a própria concepção de como é construído a noção de história.
Seguindo essa pista, o curta "E-CLIP-SE" (também na programação da mostra) contribui para explicitar a história como uma construção com enormes variantes. Ele é construído não com a imagem do eclipse total do sol, que ocorreu em 11 de agosto de 1999, mas das pessoas que tentam ver o fenômeno. Marker nos propõe um outro olhar no momento em que todos os olhos estão voltados para o sentido contrário, como se rompesse paradigmas. O título já traz uma sugestão disso. Ao ser dividido em sílabas, o que se destaca é o "clip", que em francês se refere a um objeto utilizado para prender coisas. Marker nos aponta para uma maneira engessada de olhar, que nos cega, como durante o eclipse do sol.
A possibilidade de romper com relações estabelecidas e propor novas abordagens é uma das características dos trabalhos de Marker. Em "Chats Perchés" (também apresentado com o título em inglês "The case of the grinning cat", 2004), que está na retrospectiva, por exemplo, o cineasta segue os rastros do grafiteiro Monsieur Chat pelas ruas de Paris, mas acaba por traçar um painel dos fatos políticos dos últimos anos.
O constante questionamento é o segredo de uma carreira de mais de 50 anos e com mais de 60 trabalhos feitos, entre cinema, vídeo e séries de TV, além da produção como fotógrafo, escritor e artista multimídia. Na entrevista ao "Liberation", Marker disse: "eu continuo a me perguntar como as pessoas conseguem viver neste mundo". A mostra traz 33 tentativas de responder a essa questão.