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04/06/2009 - 14h57

"Eu nem queria ler o roteiro de 'O Exterminador do Futuro - A Salvação'", diz Christian Bale

ROBERTO SADOVSKI
Colaboração para o UOL
No amanhã retratado em "O Exterminador do Futuro - A Salvação", não há espaço para bordões espertos ditos por astros de ação. Também está ausente o embate visceral do mundo que nos cerca com a tecnologia que sequer foi criada. E o destino da humanidade repousa nas mãos de um homem: John Connor. Mesmo que este homem não seja o mesmo que ajudou a criar uma das séries de ação e ficção científica mais festejadas do cinema. É Christian Bale ("Batman - O Cavaleiro das Trevas") quem assume o manto de protagonista na quarta encarnação da franquia iniciada por James Cameron em 1984, quando Arnold Schwarzenegger tornou-se astro no papel do ciborgue assassino que viaja de um distante 2029 para assassinar Sarah Connor (Linda Hamilton), que um dia seria mãe do líder da resistência contra o domínio das máquinas no planeta.

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    Christian Bale ("Batman - O Cavaleiro das Trevas") assume o papel de protagonista no quarto segmento da série "O Exterminador do Futuro", iniciada em 1984 por James Cameron

Em "O Exterminador do Futuro", John Connor é uma promessa, que só ganharia forma em "O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final". No filme de 1991, Connor, papel de Edward Furlong, é uma criança de pouco mais de dez anos, e se torna alvo de mais um matador do futuro: um robô feito de metal líquido, o T-1000. Para protegê-lo, a resistência - na verdade o próprio John, mais velho, interpretado por Michael Edwards - envia um modelo obsoleto, o mesmo que tentou assassinar sua mãe antes. Foi em "T2" que Schwarzenegger consolidou seu status como senhor do cinema de ação da década passada e espelho da série. Afinal, ele retomaria o papel do ciborgue em "O Exterminador do Futuro 3 - A Rebelião das Máquinas", sem James Cameron no comando e ao lado de um John Connor mais velho (papel de Nick Stahl), amargurado pelo conhecimento da guerra iminente e de seu papel nela.

ASSISTA AO TRAILER DE "O EXTERMINADOR DO FUTURO - A SALVAÇÃO"

"A Salvação" tira de Connor sua aura de coadjuvante e o coloca em 2018, como soldado na batalha contra as máquinas, que aperfeiçoam o extermínio da humanidade. Na frente das câmeras, a briga é de Christian Bale, que deixa o capuz do Homem-Morcego para trás e coloca em seus ombros a tarefa de guiar a série para o futuro, como ele conta na entrevista a seguir.

UOL Cinema - Você me parece atraído a filmes que não são só entretenimento, que sob a superfície têm algo a dizer. É assim que você enxerga "O Exterminador do Futuro - A Salvação"?
Christian Bale -
Eu acho que tive essa experiência ao extremo com "Batman - O Cavaleiro das Trevas". Chris Nolan é um mestre em adequar sua visão a um produto comercial sem perder o controle. McG também traz essa qualidade, especialmente no que diz respeito a manter a integridade da história que pretende contar. Em "Exterminador", havia uma diferença, que era respeitar a cronologia e os eventos dos filmes anteriores. Nesse sentido, é um filme mais complicado do que "Batman Begins" e "O Cavaleiro das Trevas". Nossa primeira decisão foi nos livrar dos bordões, que precisam do tom certo para não soarem desnecessários. Eles pertencem a outros filmes, e talvez retornem no futuro. Mas não tinham espaço nessa história. O trabalho era passar a mitologia a limpo, começar de novo, com respeito mas sem amarras.

UOL Cinema - Mas existe, então, uma linha onde a platéia precisa navegar para levar um filme assim a sério...
Christian Bale -
É um filme sobre robôs que viajam no tempo! Até que ponto podemos levar a sério? [Risos] Mas, sabe, vamos então levar as coisas a sério. Eu acho que pode ser mais divertido quando a gente encara dessa forma. Vamos mergulhar nessa história, abraçar o absurdo e ver até que ponto podemos construir algo que, por que não, pode ser levado a sério, não importa o quão fantástico. Eu acho preguiçoso quando alguém diz: "Ah, é só Exterminador, não leve a sério". De forma alguma! As pessoas então pagando o mesmo preço no ingresso por isso e por um filme de arte - elas merecem mais!

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    Bale incorpora Batman em "O Cavaleiro das Trevas" em cena com Heath Legder no papel de Coringa

UOL Cinema - "O Cavaleiro das Trevas" quebrou vários estereótipos, até dentro da indústria. É um produto, mas também é um filme montado em seus personagens, de quase três horas, que ainda assim faturou um bilhão de dólares. Você sente alguma mudança na perspectiva de quem investe nestes espetáculos?
Christian Bale -
Eu acho que isso é perceptível em diversos aspectos nessa indústria. Ontem eu fui ao cinema com minha filha, e percebi que a animação se tornou muito sofisticada nos últimos anos. E é só um pequeno pedaço das mudanças. Acho que existe de verdade uma mudança no estilo dos filmes feitos por grandes estúdios nos últimos anos, no sentido de criar obras mais sofisticadas. Claro que existe espaço para a diversão pura e simples, mas eu acho um grande avanço ver que as pessoas que fazem os filmes acontecerem não estão nivelando por baixo.

UOL Cinema - E em relação a você, o homem que é o Batman, que está na ponta de um filme de tanto sucesso. Sente que mais roteiros estão chegando a você, como é essa mudança?
Christian Bale -
Sim, claro que o fluxo aumenta. Mas eu sei o meu papel num filme, que é ser ator e contribuir para a qualidade do trabalho. Mas eu não sou o sujeito que quer controlar tudo, este ainda é o papel do diretor. Ninguém precisa de dois pontos de vista num set, do contrário é o caos. Claro que filmes são trabalhos coletivos, mas cada um tem de saber onde está sua força e contribuir - um ator não precisa se preocupar com o trabalho do diretor. Ele sabe como montar uma equipe.

UOL Cinema - Como "O Exterminador do Futuro - A Salvação" chegou até você?
Christian Bale -
Para ser franco, eu nem queria ler o roteiro. [Risos] Meus agentes insistiram, eu li e tive a certeza do por que eu não queria fazer o filme. Conversei com McG, ele tinha coisas maravilhosas a dizer sobre o projeto, eu agradeci mas disse que o que ele queria também não estava no papel. Do jeito que estava, John Connor não tinha mais que dez páginas, para mim seria uma semana de trabalho. Foi quando ele me sugeriu que poderíamos reescrever o roteiro, começar sob uma nova perspectiva, respeitando a mitologia mas trilhando um novo caminho. E foi bizarro, já que eu chamei um bom amigo para reescrever o roteiro e ele acabou fora dos créditos. [Risos]

UOL Cinema - Jonathan Nolan.
Christian Bale -
Exato. O sistema que a Associação de Roteiristas utiliza é bizarro, além de meu entendimento. Basicamente quem teve a primeira idéia fica com o crédito, mesmo que o texto que está no filme não seja dessa pessoa.

UOL Cinema - Você vê a franquia, por assim dizer, continuando depois de "A Salvação"?
Christian Bale -
Eu espero que sim. Veja só. "O Exterminador do Futuro 3", para muita gente, foi o fim. Tivemos então a oportunidade de fazer este novo filme. Se a gente não tiver feito um bom trabalho, se as pessoas não tiverem interesse, então é mesmo o fim dessa mitologia. E seria uma pena, porque temos mesmo uma boa história. No fim das contas, o público não se importa com quem trabalho dezoito horas por dia, com toda a complicação técnica, com o roteiro reescrito - o que importa é que o sujeito que paga dez dólares num ingresso tem de sair satisfeito. Se nós tivermos essa aceitação, então poderemos seguir com um próximo filme, espero que sem problemas como greve de roteiristas e coisas que atrapalham uma produção.

  • Bale em cena do inédito "Inimigos Públicos", de Michael Mann, filme no qual faz um agente do FBI

UOL Cinema - Depois de "O Exterminador do Futuro", você foi trabalhar com Michael Mann em "Inimigos Públicos". Como as experiências se comparam?
Christian Bale -
Ah, foram trabalhos radicalmente diferentes. Radicalmente. Michael rodou nas locações onde os fatos realmente aconteceram, e eu te garanto que para um ator isso faz diferença. Eu conheci a família do personagem que interpreto, Melvin Purvis, visitei os lugares onde ele morou, onde trabalhou. E foi curioso trabalhar com um diretor que faz mais pesquisa do que eu. [Risos] Eu adorei esse tipo de cuidado, Michael cuida de cada detalhe, nada passa despercebido. Eu te garanto, ele deve ter algum nível de percepção paranormal [Risos], quando chegava a hora de rodar cada cena o preparo era inacreditável. Ele é um dos diretores mais articulados com quem já trabalhei, e digo mais: com o volume de informação que ele levantou era possível fazer um filme só sobre Melvil Purvis - e "Inimigos Públicos" não é nem um pouco sobre ele, é sobre John Dillinger. Eu sou um coadjuvante nessa história.

UOL Cinema - Depois de navegar por gêneros tão diferentes, como você mantém o interesse em seu trabalho?
Christian Bale -
Para ser honesto, eu não sinto a menor atração pela indústria, pela engrenagem superficial. Na maior parte do tempo, filmes também não me atraem. Mas eu me sinto tomado pela gama de experiências que tenho não só quando construo um personagem, mas também quando trabalho com artistas que me acrescentam algo. Já tive experiências espetaculares - outras, terríveis. Não sabemos como ela será até vivenciá-la. Mas o que mais me atrai é mesmo a obsessão que enxergo em alguns cineastas, e eu adoro trabalhar com pessoas tão obcecadas, adoro ter um laço com pessoas que estão preparadas a ir tão longe quanto eu.

UOL Cinema - Christopher Nolan está preparando um novo filme, "Inception". O que você espera de uma colaboração para um terceiro Batman com ele?
Christian Bale -
Espero que ela aconteça. [Risos] Chris ainda não deu nenhuma pista de que estará envolvido com um terceiro Batman.

UOL Cinema - Mas você tem contrato para fazer ao menos três filmes, certo?
Christian Bale -
[Silêncio] Exatamente... [Mais silêncio] Então eu rogo a Deus que Chris faça o terceiro. Porque é dele. Eu farei tudo em meu poder para que ele faça o filme, mas é sua decisão. E eu espero que ele se sinta confortável o suficiente para fazer mais um.

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