UOL Cinema Últimas Notícias
 
10/06/2009 - 17h53

Matheus Nachtergaele estreia na direção com o abstrato "A Festa da Menina Morta"

EDILSON SAÇASHIMA
Da Redação
"A Festa da Menina Morta" chega aos cinemas na quinta-feira (11) com a marca de ser o primeiro longa-metragem dirigido pelo ator Matheus Nachtergaele. Consagrado nos palcos e nas telas, Nachtergaele, o traficante Cenoura de "Cidade de Deus", assina a direção e o roteiro do filme, este último feito em parceria com Hilton Lacerda. O resultado não é de fácil digestão. "A Festa" transita em temas abstratos que devem provocar inquietação no espectador.
  • Divulgação

    Daniel de Oliveira em "A Festa da Menina Morta", estreia de Matheus Nachtergaele na direção

O filme acompanha os preparativos e a realização da Festa da Menina Morta, que lembra os 20 anos de desaparecimento de uma criança em uma cidade do interior do Amazonas. Ao longo dos anos, amigo do irmão da criança desaparecida, o personagem Santinho (Daniel de Oliveira) passa a ser visto como um "milagreiro" capaz de curar pessoas e fazer previsões do futuro.


O tema do misticismo transita na superfície do filme. Os personagens de "A Festa" realizam suas ações em decorrência da "menina morta". De fato, quem parece protagonizar o filme é um fantasma que assombra a vida de todos que vivem naquele povoado amazonense. Todos têm suas existências guiadas (ou paralisadas) em decorrência da "menina morta". Em uma comparação, "A Festa da Menina Morta" seria um "Esperando Godot" misturado ao misticismo brasileiro.

Mas Nachtergaele não faz apenas o retrato de um povoado preso ao misticismo. O ator nos faz notar o deslocamento dos valores que criam novos sentidos. É o que acontece com Santinho, um jovem que é alçado ao status de santo vivo.

Essa transformação causa estranhamento. Como nós, espectadores, poderemos ver essa figura? Como um mortal, ele não passaria de um personagem afeminado e com acessos de fúria. Mas se quisermos compreendê-lo como um santo, a sua feminilidade poderia ser entendida como uma maneira de neutralizar a sua condição masculina. Assim, Santinho se torna uma figura andrógina, de sexualidade indefinida. Como santo, ele não poderia ser visto nem como homem, nem como mulher.

A impressão de que os valores estão fora de seus lugares torna-se ainda mais intensa na cena em que Santinho é sodomizado pelo seu pai. A cena é chocante se vista sob o véu de nossos valores morais. Afinal, em um primeiro momento, trata-se de uma relação carnal explícita. Mas no mundo proposto por Nachtergaele, ele pode ser também a relação de uma figura terrena (o pai) buscando "humanizar" o seu filho. Quando Santinho se depara com sua mãe, o processo se inverte. Ela busca "santificar" a figura do filho.

TRAILER

As freqüentes cenas com personagens ao banho, de animais sacrificados e de expressão de dor não física sugerem que há algo além daquilo que vemos. Elas nos apontam para interpretações simbólicas. Em um mundo em que impera o abstrato, o espectador pode se sentir um tanto deslocado e perdido, o que enfraquece a compreensão do filme.

Ser um filme de um estreante, sem trabalhos anteriores para termos uma referência de apoio, pode deixar o espectador ainda mais desorientado. Aqui vale uma dica. Há algo de "O Rio" (1997), de Tsai Ming-liang, em "A Festa da Menina Morta" no que se refere ao uso da água e de um sofrimento "espiritual". Pode ser uma pista para ser introduzido no universo desse novo cineasta.

Compartilhe:

    Cine UOL Lumière

    A programação completa da sala de cinema do UOL você encontra aqui

    Hospedagem: UOL Host