Depois de codirigir as animações "Era do Gelo" e "Robôs" e dirigir "Era do Gelo 2" e "Era do Gelo 3" - dois grandes sucessos de bilheteria - o diretor brasileiro Carlos Saldanha se prepara para seu "maior desafio": dirigir "Rio", um filme que se passará no Rio de Janeiro e terá como protagonista uma arara azul, que volta ao país depois de deixar sua confortável gaiola nos Estados Unidos. A estreia está prevista para abril de 2011.
De seu escritório em Nova York, Saldanha conversou por telefone com o
UOL Cinema e comentou as expectativas sobre o filme, que, segundo o diretor, usará "arquétipos", e não "caricaturas", para representar o país e a cidade para um público mundial.
Na conversa, Saldanha falou sobre a doninha Buck, o novo personagem da série "Era do Gelo", que se junta à atrapalhada preguiça Sid, aos mamutes Manny e Ellie, ao tigre Diego e ao esquilo Scrat, que continua correndo atrás de sua noz e agora ganha uma namorada, Scratita.
O diretor falou também sobre a empresa de animação BlueSky, a subdivisão da Fox responsável pelos três filmes "A Era do Gelo" e "Robôs", e disse que está satisfeito com o sucesso de "Era do Gelo 3" no Brasil. O filme estreou em 650 cópias, mais do que blockbusters como "X-Men Origens: Wolverine" e "Transformers: A Vingança dos Derrotados". "Quando as reações das pessoas são compatíveis com a minha é uma sensação muito positiva, ainda mais com o sucesso do filme no Brasil, já que isso pode ser inspiração para outras pessoas", disse.
Leia a seguir a entrevista editada com Carlos Saldanha e ouça trechos da conversa:
UOL Cinema: "A Era do Gelo 3" é um filme para salas de cinema 3D, diferente dos filmes que você dirigiu antes. Em que isso dificulta o trabalho de diretor?Carlos Saldanha: A dificuldade maior é na atenção ao resultado final, porque quando você faz um projeto de filme 3D, a noção de perspectiva, o posicionamento dos personagens e os movimentos da câmera têm que ser muito bem trabalhados para não causar um efeito errado, a distração. A projeção normal, em duas dimensões, permite alguns truques de posicionamento - um personagem não precisa tocar de verdade em outro para passar essa impressão na tela. No fim, o resultado geral é mais polido, refinado.
UOL Cinema: Existem planos de relançar os dois primeiros "A Era do Gelo" em 3D, como será feito com "Toy Story"?Carlos Saldanha: Para relançarmos os dois primeiros teríamos que refazer os filmes praticamente do começo para termos os elementos das imagens e construir uma versão 3D. Isso teria um custo muito grande. Não sei se vale a pena.
UOL Cinema: Muitas animações têm sido lançadas em 3D. É uma imposição do mercado ou é mesmo o melhor jeito de se contar essas histórias?Carlos Saldanha: As coisas andam junto. A razão por que o 3D teve esse "boom" é porque está havendo uma demanda, as pessoas estão curiosas. Então surgem mais cinemas em 3D, e é preciso que haja mais filmes em 3D para essas salas. No nosso processo de animação, tudo já é tridimensional. Na hora de renderizar e projetar, passamos para o 2D. Mas esse mundo virtual que criamos no computador é quase pronto para ser mostrado em três dimensões.
UOL Cinema: Como você vê no futuro a convivência das técnicas de animação tradicional e os filmes em 3D, cada vez mais populares?Carlos Saldanha: Os filmes que nós fazemos são comerciais, feitos para ter audiência, porque custam caro, e a relação custo-benefício é muito importante. Em relaçao aos filmes de técnica tradicional, se eles ainda têm uma boa aceitação, vão continuar funcionando. Se o filme é bom e a historia é boa, vai funcionar da mesma maneira.
VEJA TRECHO EM INGLÊS COM O PERSONAGEM BUCK
UOL Cinema: Um dos personagens mais divertidos "A Era do Gelo 3" é a doninha Buck. Em que se inspiraram para criá-lo?Carlos Saldanha: Quando a gente faz sequências, trazemos personagens conhecidos e novos. No segundo filme, vieram a mamute Ellie e os gambás. Temos que fazer um personagem com personalidade própria, para não se confundir com os outros. Quando pensamos nesse novo personagem, pensamos em um líder com um parafuso a menos. Nos inspiramos um pouco em Indiana Jones, no coronel Kurt de "Apocalipse Now" e no capitão Ahab de "Moby Dick", com a sua obsessão por uma criatura gigante. A voz em inglês é feita pelo Simon Pegg, que trabalha bem com essa dupla personalidade e esquizofrenia de Buck.
UOL Cinema: "A Era do Gelo 3" estreou em mais de 650 cópias no país, mais que "X-Men Origens: Wolverine" e "Tranformers: A Vingança dos Derrotados". Como você se sente com esse alcance tão grande de um filme que dirigiu?Carlos Saldanha: É uma satisfação muito grande ver o trabalho reconhecido. A gente trabalha muito para fazer esses filmes. São três anos ou quatro anos de produção, em que você fica fechado no seu mundinho, isolado. E sempre temos a expectativa de saber se as pessoas vão gostar. Quando as reações das pessoas são compatíveis com a minha é uma sensação muito positiva, ainda mais com o sucesso do filme no Brasil, já que isso pode ser inspiração para outras pessoas. A gente perde um pouco da objetividade no meio do processo, e você nunca sabe como está ficando até mostrar para alguém de fora. O desafio é fazer um trabalho criativo e com alcance. Estou fazendo um projeto para as massas, então quanto mais gente gostar, melhor para mim.
UOL Cinema: "Rio", sua próxima animação, vai se passar no Brasil. Como você lida com a responsabilidade de dirigir um filme que pode ser um grande sucesso e vai passar uma imagem do país para o mundo inteiro?Carlos Saldanha: Acho que talvez seja o maior desafio que já tive, porque ao mesmo tempo em que conheço bem o Brasil, tenho que fazer um filme que não é para o Brasil, é para o mundo. Vou ter o desafio de tentar criar uma história global, mas ao mesmo tempo mantendo a essência do que é o Brasil para mim. O desafio é grande porque posso ser bem aceito ou podem falar "ah, isso não me representa". Com certeza vou ter muito o que falar depois que o filme ficar pronto. Mas vou fazer o melhor possível para fazer um filme divertido e animado.
UOL Cinema: Como o novo filme tem que falar com o mundo inteiro, você fica preocupado com o uso de estereótipos? Como você vai administrar isso?Carlos Saldanha: Não tem como fugir. A gente pode criar arquétipos, personagens que representam o Brasil, que tenham elementos estereotipados do Brasil, mas o importante é criar personagens, e não caricaturas do que seriam personagens. Qualquer pessoa que pensa no Brasil, até mesmo eu, que sou brasileiro, pensa em música, samba, carnaval, praias. Claro que o Brasil tem muito mais que isso, mas em um filme de 90 minutos tenho que pegar elementos que são facilmente assimilados. Não posso fazer um filme de animação global que aborda uma comunidade do interior que faz um tipo único de festa, por exemplo, porque eu não estaria representando o Brasil. O filme gira em torno do Rio de Janeiro, e o que o Rio representa para o mundo? É a terra do carnaval. Não tem outra coisa. Não é uma vergonha, é um orgulho ter o Rio como cidade do carnaval, então tenho que mostrar isso sem aquela visão de "ah, esta fazendo o mesmo de sempre". E o filme se passa no Rio; não é sobre Curitiba, Porto Alegre ou Brasília.
UOL Cinema: Se "Era do Gelo 3" ganhar uma continuação, o que prevê para os esquilos Scrat e Scratita nos próximos filmes?Carlos Saldanha: Ainda não sei. O Scrat é uma coisa de momento, uma das mais dinâmicas e espontâneas do filme. Ele evolui de filme para filme e de cena para cena. A gente tem uma idéia global, um conceito, e vamos brincando. É um personagem divertido, é fácil criar em cima dele.
UOL Cinema: A BlueSky seria a "Pixar da Fox"? Como você vê essa comparação?Carlos Saldanha: Uma diferença grande é que a Pixar é uma empresa independente. A Disney tem influência na Pixar, mas são companhias diferentes e integradas. A BlueSky pertence à Fox. Ainda que estejamos em Nova York e a Fox na Califórnia, somos uma subdivisão. Temos filosofias parecidas, de fazer filmes de animações de qualidade, buscando criar personagens marcantes e histórias legais. Mas temos um quarto do tamanho da Pixar, então é difícil se comparar. A gente pode se comparar em termos de aceitação de público, já que "A Era do Gelo" compete de igual para igual com os filmes deles. Mas em quantidade e histórico de projetos a gente é menor. E existe uma competição saudável entre os estúdios.